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Quanto tudo, ou quase, falha, importa compreender e estudar os casos de sucesso. Neste tempo de discussão em torno da tragédia do fogo de Pedrógão Grande, deveríamos ter em conta a experiência vivida, no passado, em situações igualmente trágicas em termos de incêndios. Em 2003 Mação viu a sua floresta perder 22.000 dos seus 40.000 hectares. Um verdadeiro desastre que só não se tornou tragédia humana porque, felizmente, não foram registadas vitimas mortais. Ao tempo, o Governo tinha Durão Barroso como Primeiro Ministro e, tal como os seguintes PM, demorou tempo a dar resposta aos verdadeiros problemas e causas dos fogos florestais. O mesmo não aconteceu com a Câmara Municipal que, não muito tempo depois, desenvolveu práticas florestais elogiadas em vários países. Tal assim foi que em 2016 o atual PM, António Costa, visitou Mação no Dia Internacional das Florestas para se inteirar, localmente, do sistema de monitorização e de combate aos incêndios em tempo real. Pena foi ter sido apenas uma visita para “imprensa ver” sem qualquer consequência na política florestal.

O que fez então a CM de Mação após o incêndio de 2013? Apostou numa abordagem integrada que incluiu, entre outras, as seguintes medidas (mais detalhadamente aqui): além do conceito de “Zona de Intervenção Florestal (ZIF) de Gestão Total” e da “Sociedade de Gestão Territorial”, fez distribuir o kit de aldeia (depósito com 600 litros de água com motobomba e mangueiras e colocado numa pick-up ) e criou o sistema MacFire, ferramenta informática que permite levar a informação existente sobre a zona de combate para o Posto de Comando e monitorizar o desenvolvimento do fogo em tempo real. Em simultâneo foram abertos mais estradões na floresta, maior limpeza das bermas, 22 aldeias envolvidas por uma circular (numa primeira barreira contra o fogo) e ainda limpeza de linha eléctricas. O MacFire (Mac de Mação) assenta num sistema integrado controlado a partir de uma viatura (ou seja, um posto de comando operacional móvel). Esta solução permite, sempre que desponta um incêndio, com rapidez e eficiência, gerir as operações no terreno. Mação dista de Pedrógão poucas dezenas de quilómetros e no dia da tragédia O SIRESP não funcionou mas o MACFire deu resposta a cinco ignições registadas no seu concelho e que foram rapidamente resolvidas
A visão integrada de Mação, que “já foi dada a conhecer a sete secretários de Estado portugueses”, tem merecido a atenção de entidades internacionais e, inclusive, recebeu prémios como o “Batefuegos de Oro”, em Espanha, além de outras distinções e convites de entidades ligadas ao desenvolvimento rural espanholas, da Universidade de Santiago de Compostela, da Hungria e da Sérvia. Tudo resultado do trabalho do vereador António Louro ( responsável pela implementação desta estratégia) e dos Presidentes de Câmara José Saldanha Rocha e Vasco Estrela

Mas as boas práticas de Mação não são ainda suficientes e seria necessário avançar com um projecto de ordenamento do território que necessita de apoio governamental para ultrapassar ários obstáculos jurídicos. O projecto encontra-se há anos nas gavetas de vários governos.
O bom exemplo de Mação, que tem evitado tragédias idênticas às que todos atualmente conhecemos em Pedrógão ou às vividas em 2003, não é a panaceia para o problema dos fogos florestais. Mas se cada município desenvolvesse a mesma abordagem teríamos, certamente, menos mortes, menos famílias com casas destruídas e menos hectares ardidos.
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