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A rádio Observador tem um programa chamado Geração V que junta uns quantos jovens cuja indigência intelectual ficou para mim claríssima quando os ouvi discutir incêndios e matérias afins (parece-me claro que estou a fazer uma generalização que não exclui a possibilidade de haver pontualmente pessoas e opiniões expressas no programa que valham o tempo gasto a ouvir, volto a dizer, é uma generalização com a falta de rigor de todas as generalizações).
Ontem, uma senhora chamada Joana Marques Brás, cuja profundidade de análise política eu já tinha reparado de outras vezes, ilustrava o habitual anti-americanismo primário falando sobre a intervenção dos Estados Unidos na Venezuela, essencialmente dizendo que Trump queria era ficar com o petróleo da Venezuela.
Sim, o petróleo entra, com certeza, na ponderação que foi feita antes da intervenção americana, e entra com certeza na gestão posterior da situação criada pela prisão de Maduro, mas olhar para essa intervenção apenas com esse critério é poucochinho, muito poucochinho.
A mera consulta de um gráfico como o que está acima ajuda a perceber que antes de ficar com o petróleo é preciso tirá-lo de onde está e um dos problemas da Venezuela é que deixou de ser capaz de fazer isso ao ritmo que antes fazia, tornando-se mais pobre (parece estranho como esta ideia de que produzindo menos se fica mais pobre é tão difícil de compreender por tanta gente).
Para resolver os problemas decorrentes dessa situação, a Venezuela fez acordos com a China que implicavam a troca de petróleo (a preços abaixo do mercado) por outros bens e serviços necessários para o dia a dia da Venezuela (incluindo dinheiro, ou seja, o refinanciamento da dívida venezuelana, que é astronómica).
Resumindo, ao comprar petróleo venezuelano a preços de mercado e comprometer-se a investir na modernização da indústria petrolífera venezuelana, os americanos enfraquecem a posição da China na região, ganham dinheiro com a extracção e transformação do petróleo e, pasme-se, os venezuelanos beneficiam da modernização da sua indústria petrolífera.
Para grande parte dos anti-americanos primários, a única parte que interessa é que os americanos beneficiam das suas acções o que, para essa gente, é intrinsecamente ilegítimo.
O mesmo se passará se os Estados Unidos, de alguma maneira, apoiarem a contestação do regime iraniano, ganham negócios com isso e, aparentemente, a probabilidade dos iranianos viverem melhor aumenta.
Para os anti-americanistas primários, isso não interessa nada, a única coisa que interessa é que os americanos defenderem os seus interesses é imperialismo (o que me diverte ver os mais ferverosos adeptos do internacionalismo proletário invocar o nacionalismo para criticar o imperialismo americano).
Qualquer pessoa de boa-fé percebe que os americanos estão fartos de ver dois estados cujo histórico de respeito pelo direito internacional é lendário (a Rússia e a China) aproveitar as fragilidade de defesa e administração da Gronelândia para ganhar, ao arrepio do direito internacional, usando actividades ilegais como biombo para proteger as suas reputações como Estado (uma técnica que tem dado óptimos resultados em Gaza, com as atrocidades do Hamas a não serem condenadas como deveriam pela comunidade internacional com o argumento de que não há Estado nessa parte do mundo), para se imporem na região do Ártico.
Mas para os anti-americanistas primários, a substância do problema - a fragilidade e incapacidade do Ocidente defender os seus interesses no Ártico - não interessa nada, só interessa o facto dos americanos terem dados uns murros na mesa para ver se o deixa andar, que tem permitido à China e Rússia expandir o seu poder global, começa a ser revertido.
Uma coisa é admitir que o uso excessivo da força por um agente da autoridade provocou a morte escusada de uma pessoa, razão pela qual o incidente deve ser rigorosamente investigado para saber se existem responsabilidades do agente que disparou injustificadamente sobre a senhora que estava no carro, como é perfeitamente possível dada a cultura de violência que existe nas forças de segurança e no sistema prisional americano (que continua a aplicar a pena de morte, uma manifesta barbaridade).
Outra coisa é tentar justificar a obstrução da senhora à actividade legítima de uma força policial, ao ponto de adoptar comportamentos manifestamente insensatos, com o seu direito à resistância, como se o direito à resistência contra actividade legítima de forças de segurança fosse justificável por divergências políticas.
Não, não é, e seria bom que no Ocidente, os partidos responsáveis, percebessem que a contestação ao monopólio da violência legal do Estado não é um bom caminho para defender os interesses das pessoas comuns, da mesma forma que contestar a normal defesa dos interesses próprios (sejam eles dos indivíduos ou dos Estados) é uma péssima opção, fora do quadro normal da discussão política aberta e não violenta (não entendo que pessoas que consideram palavras como violência inaceitável, qualificando-as como discurso de ódio, acham que atravessar um carro numa estrada para impedir o trânsito e a actuação legítima do Estado, não é uma violência inaceitável).
Suspeito que a longa corrosão do equilíbrio entre direitos e responsabilidades individuais nos está a fazer muito mal.
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