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O anti-americanismo primário

por henrique pereira dos santos, em 11.01.26

petroleo venezuela.jpeg

A rádio Observador tem um programa chamado Geração V que junta uns quantos jovens cuja indigência intelectual ficou para mim claríssima quando os ouvi discutir incêndios e matérias afins (parece-me claro que estou a fazer uma generalização que não exclui a possibilidade de haver pontualmente pessoas e opiniões expressas no programa que valham o tempo gasto a ouvir, volto a dizer, é uma generalização com a falta de rigor de todas as generalizações).

Ontem, uma senhora chamada Joana Marques Brás, cuja profundidade de análise política eu já tinha reparado de outras vezes, ilustrava o habitual anti-americanismo primário falando sobre a intervenção dos Estados Unidos na Venezuela, essencialmente dizendo que Trump queria era ficar com o petróleo da Venezuela.

Sim, o petróleo entra, com certeza, na ponderação que foi feita antes da intervenção americana, e entra com certeza na gestão posterior da situação criada pela prisão de Maduro, mas olhar para essa intervenção apenas com esse critério é poucochinho, muito poucochinho.

A mera consulta de um gráfico como o que está acima ajuda a perceber que antes de ficar com o petróleo é preciso tirá-lo de onde está e um dos problemas da Venezuela é que deixou de ser capaz de fazer isso ao ritmo que antes fazia, tornando-se mais pobre (parece estranho como esta ideia de que produzindo menos se fica mais pobre é tão difícil de compreender por tanta gente).

Para resolver os problemas decorrentes dessa situação, a Venezuela fez acordos com a China que implicavam a troca de petróleo (a preços abaixo do mercado) por outros bens e serviços necessários para o dia a dia da Venezuela (incluindo dinheiro, ou seja, o refinanciamento da dívida venezuelana, que é astronómica).

Resumindo, ao comprar petróleo venezuelano a preços de mercado e comprometer-se a investir na modernização da indústria petrolífera venezuelana, os americanos enfraquecem a posição da China na região, ganham dinheiro com a extracção e transformação do petróleo e, pasme-se, os venezuelanos beneficiam da modernização da sua indústria petrolífera.

Para grande parte dos anti-americanos primários, a única parte que interessa é que os americanos beneficiam das suas acções o que, para essa gente, é intrinsecamente ilegítimo.

O mesmo se passará se os Estados Unidos, de alguma maneira, apoiarem a contestação do regime iraniano, ganham negócios com isso e, aparentemente, a probabilidade dos iranianos viverem melhor aumenta.

Para os anti-americanistas primários, isso não interessa nada, a única coisa que interessa é que os americanos defenderem os seus interesses é imperialismo (o que me diverte ver os mais ferverosos adeptos do internacionalismo proletário invocar o nacionalismo para criticar o imperialismo americano).

Qualquer pessoa de boa-fé percebe que os americanos estão fartos de ver dois estados cujo histórico de respeito pelo direito internacional é lendário (a Rússia e a China) aproveitar as fragilidade de defesa e administração da Gronelândia para ganhar, ao arrepio do direito internacional, usando actividades ilegais como biombo para proteger as suas reputações como Estado (uma técnica que tem dado óptimos resultados em Gaza, com as atrocidades do Hamas a não serem condenadas como deveriam pela comunidade internacional com o argumento de que não há Estado nessa parte do mundo), para se imporem na região do Ártico.

Mas para os anti-americanistas primários, a substância do problema - a fragilidade e incapacidade do Ocidente defender os seus interesses no Ártico - não interessa nada, só interessa o facto dos americanos terem dados uns murros na mesa para ver se o deixa andar, que tem permitido à China e Rússia expandir o seu poder global, começa a ser revertido.

Uma coisa é admitir que o uso excessivo da força por um agente da autoridade provocou a morte escusada de uma pessoa, razão pela qual o incidente deve ser rigorosamente investigado para saber se existem responsabilidades do agente que disparou injustificadamente sobre a senhora que estava no carro, como é perfeitamente possível dada a cultura de violência que existe nas forças de segurança e no sistema prisional americano (que continua a aplicar a pena de morte, uma manifesta barbaridade).

Outra coisa é tentar justificar a obstrução da senhora à actividade legítima de uma força policial, ao ponto de adoptar comportamentos manifestamente insensatos, com o seu direito à resistância, como se o direito à resistência contra actividade legítima de forças de segurança fosse justificável por divergências políticas.

Não, não é, e seria bom que no Ocidente, os partidos responsáveis, percebessem que a contestação ao monopólio da violência legal do Estado não é um bom caminho para defender os interesses das pessoas comuns, da mesma forma que contestar a normal defesa dos interesses próprios (sejam eles dos indivíduos ou dos Estados) é uma péssima opção, fora do quadro normal da discussão política aberta e não violenta (não entendo que pessoas que consideram palavras como violência inaceitável, qualificando-as como discurso de ódio, acham que atravessar um carro numa estrada para impedir o trânsito e a actuação legítima do Estado, não é uma violência inaceitável).

Suspeito que a longa corrosão do equilíbrio entre direitos e responsabilidades individuais nos está a fazer muito mal.


51 comentários

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De opjj a 11.01.2026 às 15:07

Subscrevo na íntegra. O país tornou-se numa chusma de valdevinos e biltres que ofuscam as realidades.
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De Anonimo a 11.01.2026 às 16:56

se existem responsabilidades do agente que disparou injustificadamente sobre a senhora que estava no carro


Injustificadamente segundo quem? A CS de esquerda? O agente cumpriu as suas funções e indicações dentro das suas obrigações definidas pelo Governo legitimamente eleito.
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De Anónimo a 11.01.2026 às 17:35

Anti-americanismo ou anti-trumpismo? Pela minha parte fico-me pela. segunda.
Não faltou ocasiões para Trump frisar o petroleo da Venezuela como principal objetivo, aliás, porque lho "tinham roubado". O afastamento da Russia e China é benéfico mas o regime lá continua, e na Ucrânia Trump não tem interesse em afastar a Russia com a qual quer estabelecer negocios relativamente aos recursos russos. Quanto à China o problema é Taiwan, de resto tudo o que for negócio com a China é bem vindo para Trump.
Na Gronelandia o mesmo, os recursos naturais é que são o interesse porque a defesa e área de influência podem ser mantidos sem se apoderarem dos recursos. Os EUA tem acordos que lhes permitem instalar as defesas que quiserem na Gronelandia, não tem é permissão para se apoderarem dos recursos.
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De Anónimo a 11.01.2026 às 19:44

A China sempre afirmou que Taiwan era parte integrante da Nação Chinesa. 


Da forma como as coisas estão a evoluir não admirava nada que seja Taiwan a sublinhar a sua cidadania Chinesa.
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De Anonimo a 11.01.2026 às 22:19

O guião está aqui


https://www.project2025index.com/


Trumpismo... pois, pois.
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De Anónimo a 12.01.2026 às 03:43

O artigo está muito bom. E tem vistas largas. Vai dos EUA e da Venezuela (a tal que roubou o petróleo ao Tio Sam, segundo Trump) até à China e à Rússia, com uma passagem pela Gronelândia e uma saltada a Gaza. E de regresso aos EUA, acabou em Minneapolis, onde foi eliminada uma “terrorista doméstica”, pelos vistos por impedir o trânsito. Não se faz!

Só é pena o título. Porquê o “anti-“?
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De Anonimo a 12.01.2026 às 07:37

O artigo é assertivo, factual e imparcial
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De Anonimo a 12.01.2026 às 08:01

Concordo
É um artigo isento, e livre de ideologias bacocas, escrito por quem percebe do assunto
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De Anónimo a 13.01.2026 às 02:31

Qual assunto?
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De Anonimo a 12.01.2026 às 07:39

Se há algo com que os americanos discordam é o monopólio da violência pelo Estado...
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De Anónimo a 12.01.2026 às 12:57

E passam a vida a disparar uns contra os outros, numa reafirmação permanente dessa discordância.


Let's make América great again. Bang bang bang
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De Anonimo a 13.01.2026 às 07:30

Chama-se liberdade
De defender o indivíduo e a propriedade 
E de impedir o totalitarismo do Estado
Quem discorda da 2ª emenda é anti-americano e marxista
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De Anónimo a 14.01.2026 às 11:16

Na Europa essa Liberdade (defender o Indivíduo e a Propriedade) competente ao Estado.


Em termos civilizacionais parece bem mais adulto e razoável 
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De Francisco Almeida a 12.01.2026 às 10:51

A questão essencial é que neste momento competem três poderes, China, Rússia e EUA. China e Rússia não têm restrições nem de direitos humanos, muito menos de direito internacional. Os EUA ainda são mais poderosos mas têm restrições que os enfraquecem. Trump afastou uma delas, o direito internacional (que nunca o foi mas isso é outra questão) mas não pode controlar o que se publica nem impedir manifestações mesmo que contra autoridades federais. Ou seja, como alguém com mais autoridade do que eu já fez notar, Venezuela, Irão, Gronelândia etc. não serão ganhos ou perdidos no terreno mas podem sê-lo em Washington.
A guerra do Vietname perdeu-se nos Estados Unidos (perdia-se sempre mas isso é outra questão). O Ultramar português foi entregue ao comunismo soviético em Lisboa, não foi no terreno.
Por isso é clarinho p'ra militar que quem ataca os Estados Unidos, está realmente a ajudar a China e a Rússia. Tão simples como isto.
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De Anónimo a 12.01.2026 às 18:57

Sendo Militar deve muito naturalmente, saber que a China e já agora a Rússia, (dimensão, recursos e potencial) também, não precisam de "ajudas", tendo ainda o factor tempo,  a seu favor.











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De Anónimo a 21.01.2026 às 19:11

Os EUA atacam-se a si próprios 
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De Francisco Almeida a 12.01.2026 às 11:24

Em 2018, com a descoberta dos xistos betuminosos - "the shale revolution - os EUA tornaram-se pela primeira vez exportadores líquidos de energia. Acontece que o petróleo de xisto é o mais "leve" do mundo e serão necessários muitos anos e muitíssimo capital para que as refinarias americanas dispensem petróleos "pesados" para lotar. 
O petróleo mais "pesado" do mundo, é o venezuelano da faixa do Orinoco, a seguir vêm os russos. Por isso, apesar de excedentários os EUA importavam petróleo russo e, quando deixaram de querer fazê-lo em 2022, tiveram de aliviar as sanções à Venezuela, como bem se vê no gráfico. A Venezuela tem assim na faixa do Orinoco um petróleo que interessa aos americanos, mas é difícil de refinar e de vender. Têm outro petróleo muito mais fácil de refinar e vender na região do lago Maracibo mas acontece que já nem o regime venezuelano controlava totalmente essa região e que, retomar aí a produção vai implicar presença militar. Um parêntesis para recordar que a Venezuela tem cerca de 2.000 generais e almirantes, o mesmo número dos EUA que têm 10 vezes mais efectivos. E que é duvidoso que esses generais, promovidos e sustentados directamente de receitas do petróleo e "luvas" de traficantes, possam ou queiram comandar operações no terreno que lhes iriam destruir os rendimentos. 
O interesse americano no petróleo, era totalmente satisfeito com a reduzida exploração no Orinoco. Mas parece que Trump quer relançar a exploração e pôr botas no terreno para limpar os traficantes e retomar a exploração também no lago Maracibo. Não há dúvidas de que Trump é estruturalmente um negociante mas, os moralistas de serviço, têm de realizar que, sem Trump, a produção continuava a cair e as receitas não chegavam à população. Trump vai fazer-se pagar, tal como fez a Coreia do Sul pagar para manter as tropas americanas, mas vai recuperar a produção, acabar com as borlas a chineses e cubanos e a população vai certamente melhorar as suas condições de vida. E vai manter a ordem no país usando a estrutura administrativa e policial existente, em vez de entregar o poder a uma oposição que nada une a não ser o combate ao regime e que, para governar, teria de destruir a administração existente (lembram-se do Iraque, da Líbia e da Síria?).
Eu, se fosse venezuelano, agradecia.


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De Pedro Oliveira a 12.01.2026 às 13:36

"lago Maracibo"
Na verdade é uma baía e chama-se: Maracaibo.
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De Francisco Almeida a 12.01.2026 às 15:11

Sim e não. Maracibo foi gralha dactilográfica repetida por simpatia, mas eu referia-me especificamente à região do Lago Maracaíbo, tradução de "Lake Maracaibo region" que engloba as zonas de extracção, embora normalmente também se refira a Bacia de Maracaíbo (Cuenca de Maracaíbo) que engloba o lago e toda a bacia sedimentar subterrânea.

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