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O ângulo morto

por henrique pereira dos santos, em 30.07.21

Por puro acaso, voltei recentemente a ver este video sobre o colonato do Limpopo.

O video tem coisas interessantes e tem Fernando Rosas.

O que me impressiona é Fernando Rosas (e quem definiu o guião do episódio), seguir uma prática frequente na história contemporânea portuguesa, em especial na que se debruça sobre a história colonial: há um evidente interdito que impede historiadores  - e jornalistas, já agora - de recorrer à memória de alguns grupos sociais relevantes para perceber a complexidade desse processo histórico.

Nunca estive no colonato do Limpopo (que me lembre, mas tenho péssima memória) antes do 25 de Abril, lembro-me sim de uma vez ter ido a uma reserva no vale do Limpopo, mas seguramente com muito pouca relação com o colonato: era uma reserva natural, quase sem intervenção humana pesada, um bocado na sequência do Kruger Park, calculo eu hoje (penso que seria a origem do actual Parque Nacional do Limpopo, mas não garanto), ao contrário do colonato do Limpopo, que era uma área de intensificação agrícola através de investimento em regadio.

Aqui, de forma breve, uma visão alternativa do que foi esse colonato.

Mas a minha mulher viveu lá até 1974 ou 1975, o meu sogro fazia parte da brigada técnica do colonato (era um agrónomo que sempre trabalhou em regadio e, tanto quanto sei, foi para África à conta de assuntos de saias, motivação que provavelmente o historiador Fernando Rosas nunca consideraria nas suas análises) e estive lá, no que é hoje o Chokwé, há coisa de quatro ou cinco anos, quando a minha mulher resolveu ir mostrar-me a casa onde tinha crescido (e onde tinha estado uns anos antes, quando tinha voltado a Moçambique, numa altura em que não fui, uma história que já contei por aqui).

A tese do episódio para que fiz uma ligação na primeira frase do post, é a de que se tratava de uma tentativa de colonização branca das colónias portuguesas, explicando todo o processo numa base racial, para o que evidentemente foi preciso ajeitar os factos, esquecendo os colonatos da Junta de Colonização Interna que também foram criados em Portugal (Santo Isidro de Pegões é o mais conhecido e que ainda hoje subsiste, mas houve bastantes mais, pensados e estudados por pessoas como Henrique de Barros, cujo alinhamento com o regime toda a gente sabe qual era), investimentos como Cabora Bassa e outros pormenores que não encaixam na tese.

O episódio acaba com citações de Cláudia Castelo (não sei de onde, gostaria de as verificar no original, conheço a visão sectária de Cláudia Castelo sobre o assunto, mas isso não diminui o meu interesse em ler o contexto das afirmações feitas) que afirmam que os colonatos foram meras acções de propaganda falhadas, o que se pretende demonstrar com a diminuição progressiva do número de colonos.

Espantado com algumas afirmações que, mesmo já dando o desconto de serem feitas por Fernando Rosas, careciam de um mínimo dos mínimos de rigor, fiz duas ou três perguntas à minha mulher sobre a composição racial nas escolas (o desprezo com que Fernando Rosas fala do que chama assimilados é uma inequívoca demonstração do seu profundo racismo).

Confirmei que na escola primária - e havia uma por cada uma das treze aldeias do colonato, a brigada técnica estava sedeada na vila, sendo o que a minha mulher conhece melhor, naturalmente, saiu de lá na adolescência, numa altura em que subir às árvores era bem mais relevante que compreender a sociedade em que se está metido - havia uma mistura racial enorme.

No secundário a questão era diferente, primeiro porque só havia na vila, e algumas aldeias eram mesmo longe, e depois porque se verificava a distinção social que existia também em Portugal no ensino secundário, com os filhos da burguesia e dos colonos a serem quase todos brancos e a população escolar no colégio.

Falta-me o meu sogro para perguntar como era na escola agrícola em que também deu aulas, suspeito que teria tantos alunos brancos como mulatos e pretos, mas já não lhe posso perguntar para confirmar.

Mas como a minha mulher insistia na falta de certezas, que a memória vai falhando, e para além disso estava no colonato como filha de um funcionário público e não de um colono, resolvi fazer duas ou três perguntas a um amigo que sobrou do tempo da tropa e de que me lembrava ser filho de colonos do Limpopo.

Explicou-me que realmente o pai tinha ido para Trigo de Morais como colono, em 1956 (quase no início do colonato, a primeira aldeia começa em 1953, mas é em 1956 que é inaugurada a barragem, o meu sogro só foi mais tarde), a mãe tinha-se depois juntado em 1960, tinham vivido primeiro na vila, depois em Leonde, mas saíram do colonato em 1961: quando acabou o contrato com o Estado preferiu fazer uma machamba dele no mato e por outro lado os grandes trabalhos de desmatação e de construção de infra-estruturas estavam feitos, aspectos que explicam bem a diminuição de colonos, mas que Fernando Rosas esquece.

A história, como se vê, é o contrário de um falhanço, é a de um homem que sai da pobreza da sua terra, faz cinco anos de contrato com o Estado, e com os recursos e experiência conseguidos, investe numa machamba própria para dar um futuro melhor aos seus filhos. No entanto, percebo que seja difícil a Fernando Rosas falar disto sob este ponto de vista, e não sob o ponto de vista da diminuição de colonos como consequência das condições miseráveis a que os colonos eram sujeitos.

Explicou-me que ele próprio viveu muito pouco tempo no colonato, conhecia Leonde das visitas que os pais faziam a amigos, e explicou-me que fez a primeira classe numa aldeia (que não fazia parte do colonato, estava a 60 quilómetros em linha recta de Trigo de Morais, hoje Chokwé, o que na África daquele tempo pode significar várias horas de viagem) em que ficava em casa de um amigo dos pais - a machamba era no mato, não dava para ir e vir à escola - e quando os amigos se mudaram, foi para um internato em Lourenço Marques, hoje Maputo, numa missão (penso que uma escola técnica salesiana) em que a maioria dos alunos eram orfãos pretos (que me perdoem os mais sensíveis ao politicamente correcto, mas os meus amigos pretos sempre foram pretos, e essa designação não tinha, nem tem, nem para mim e nem para eles, qualquer conotação negativa).

E confirma a mistura racial na escola primária, que eu próprio conhecia da minha escola primária, apesar de ser a escola da burguesia colonial urbana de Lourenço Marques, a que a minha família pertencia (a definição da burguesia colonial está muito longe das vulgatas marxistas habituais, incluía muitos funcionários públicos de origem social mais que modesta e a quem a escola tinha permitido o acesso ao funcionalismo público e à progressão na carreira, outra coisa que Fernando Rosas desconhece seguramente).

Considerar uma obra de irrigação de uns milhares de hectares, que deu origem a um povoamento consistente, que ainda hoje persiste, à instalação de comunidades religiosas, mas também de fábricas e uma escola agrícola, como uma obra de propaganda que falhou, é uma visão peculiar da realidade.

Mas não é essa visão peculiar que me interessa, não tenho ilusões sobre o peso da ideologia na história contemporânea e não pretendo que a minha visão seja mais objectiva e menos ideológica que a de Fernando Rosas (eu acho que é, mas Fernando Rosas achará o inverso com a mesma legitimidade), o que me interessa é o que me distingue de Fernando Rosas na abordagem da questão: Fernando Rosas filma-se no Chokwé a explicar o que acha que era a realidade, eu seguramente filmaria as pessoas comuns que ainda lá andam a falar do que viveram nesse tempo.

Tal como daria espaço aos colonos e pessoas próximas que ainda por aí andam (ainda um dia destes num zapping qualquer aparecia uma senhora a dizer que tinha nascido em Trigo de Morais, hoje Chokwé, muito provavelmente filha de colonos), aos técnicos que ainda estejam vivos, e outras pessoas comuns, para registar as memórias de diferentes pontos de vista sobre assuntos complexos.

Infelizmente, os historiadores contemporâneos que conheço e tratam estas matérias contentam-se em olhar pelo retrovisor ampliando o ângulo morto que decidem ignorar: a voz e as memórias das pessoas que estavam lá, mas no lado da história que eles consideram errado.

Esses testemunhos não são mais objectivos que outros, mas as diferenças de pontos de vista ajudariam a compreender de forma mais profunda toda a complexidade do processo de colonização e descolonização, evitando-se uma série de tolices que Fernando Rosas diz neste programa, sem a menor base factual (se o meu sogro ouvisse Rosas a falar do carácter autoritário da brigada técnica sorriria com evidente ironia e limitar-se-ia a constatar em voz alta o óbvio: é tolo).



15 comentários

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De Anónimo a 30.07.2021 às 14:28

por opção nunca saí da europa
a junta de colonização interna criou colonato em Pegões
la anarquía según  - Bakunine  «Libertad sin socialismo es privilegio, injusticia; socialismo sin libertad es esclavitud y brutalidad  
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De pitosga a 30.07.2021 às 23:41

Eu li um artigo de jornal aonde um professor, dito universitário, escreve — escreve três vezes — "percas" em vez de "perdas"... Assim, tenho por seguro que o dito é uma besta.
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De Elvimonte a 30.07.2021 às 23:54

A sua referência ao vídeo cujo link figura logo na primeira linha do post, para quem começa por aí, é meio caminho andado para não se ver o vídeo e não se ler o restante do post. 


Li o post na íntegra e só depois fui ver esse vídeo, que abandonei logo após os primeiros minutos. A coisa começa logo mal com a apresentação das estatísticas da população de Moçambique em 1945: 1% de brancos, 97% de africanos, 2% de outros.  


Sendo assim, o 1% de brancos não é africano; os 97% de africanos não se sabe se são pretos, mulatos, amarelos, vermelhos ou azuis às riscas; os 2% de outros, por exclusão de partes, não são africanos, embora não se saiba o que isso signifique, nem brancos. Donde se conclui que os brancos não podem ser africanos assim como os outros, que ninguém sabe o que são, sendo os únicos africanos aqueles que também não se sabe bem o que são. Se não há um misto de hipocrisia, racismo e xenofobia nesta categorização estatística, os dicionários têm que ser revistos. Agora que é abominável, sem dúvida que é.


E podia-se continuar com a linha de raciocínio das estatísticas. Os brancos nascidos na África do Sul não são africanos nem sul africanos, são brancos. Os pretos, mulatos, amarelos, vermelhos ou azuis às riscas nascidos num qualquer país europeu ou nos EUA não são europeus ou americanos, são africanos ou outros. Uma verdadeira abominação.   


 
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De Anónimo a 31.07.2021 às 01:53

O que tem piada é que depois de os portugueses terem sido sumariamente corridos de Moçambique e de 40 anos de fome os chineses estão a tomar conta do Limpopo. Parvos não são.
https://www.farmingportal.co.za/index.php/all-agri-news/news-of-the-day/3781-a-look-at-china-s-big-plans-for-limpopo-and-why-locals-should-be-concerned
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De Anónimo a 31.07.2021 às 11:13

Num primeiro impulso, pensei que o HPS faria melhor se não perdesse tempo com gente de semelhante igualha. Mas depois, reconsiderando, são necessárias vozes que nunca desistam de denunciar estes espécimes de tão baixa condição moral. 
Fui ver o referido documentário. Confesso que todas aquelas "elaborações" não me surpreenderam, embora nunca tivesse visto um "trabalho" de história com tantos esgares e tanto sorriso oblíquo à mistura! Como era previsível, o menos importante, para o autor, era (é) o tema da investigação. Porque, fosse ele qual fosse, estaria ali apenas como simples pano fundo ao serviço de outros fins, i.e., como pretexto (e ponto de partida) para destilar ideologia e ódio, na mesma proporção. Tivesse sido outro o propósito deste trabalho e teria havido investigação isenta e pesquisa séria e objectiva, utilizando todos os ângulos e meios que o HPS sugeriu, (testemunhos, outros pontos de vista, etc. e, já agora, se possivel, indo até ao fim da meada: o percurso dos envolvidos na experiência do colonato). No fim de contas, o único projecto que ali existe é insistir nesta monocórdica visão contemporânea da História sobre  "aquele" tempo, onde nada se salva e é tudo é para arrasar! 
Estamos, portanto, nas mãos dos actuais donos da Palavra (ou manipuladores desonestos das palavras, para dizer o mínimo).


Não conheço a realidade dos colonatos, mas conheço por "dentro" como eram as escolas em Moçambique, onde estudei e vivi até à minha adolescência.  A sua mulher, tal como eu, provavelmente deve ter vivenciado uma das experiências mais singulares e enriquecedoras de multiculturalismo e multirracialismo que se pode ter tido. Única e irrepetível. Longe de mim acreditar que existem sociedades perfeitas e aquela obviamente também o não o era com certeza. Mas hoje, e a esta distância, já tenho pensado que em certos aspectos, na sociedade civil pelo menos, talvez tenhamos tido (ainda que imperfeito) um vislumbre bastante próximo do que seria uma sociedade sem distinção de classes ou divisões de casta, feita de gente despretensiosa e sem (grandes) preconceitos sociais , nem distinções de raça nem de credos.
Exactamente o oposto da fragmentação e segmentação social e racial que nos propõem _ ou querem impor _ os Rosas e a horda que o rodeia. 


P.S. Com sua permissão, pedindo mil desculpas por me ter alongado, envio um pequeno "documento" de cerca de 2 minutos, que encontrei nos arquivos da RTP, (certamente o dr. FRosas não costuma consultá-lo) e onde não consigo encontrar vestígio algum de apartheid.


https://arquivos.rtp.pt/conteudos/regresso-a-nampula-do-presidente-da-camara/



DP
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De Anónimo a 31.07.2021 às 12:14

Um Presidente de Câmara, em Moçambique, que deixaria o dr. F. Rosas de queixo caído...


Mais um "documento" sobre uma realidade desconhecida de muitos: a profusão e a mistura de todas as "cores" e proveniências, de todas as raças e credos. Uma experiência de uma riqueza cultural única, que todos os que a viveram podem testemunhar. Éramos todos, genuinamente,  portugueses. 


https://arquivos.rtp.pt/conteudos/baltazar-rebelo-de-sousa-visita-a-ilha-de-mocambique/


DP
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De lucklucky a 31.07.2021 às 19:34

O pior é que o Fernando Rosa deve saber. Mas o discurso do ódio Marxista é necessário para serem alguma coisa. 
Podiam ter escolhido combater moinhos como o D Quixote, fariam menos mal...
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De Anónimo a 31.07.2021 às 13:02

Como "historiador" Fernando Rosas é igual a "Otelo" pós 25 de Abril, sem ter  a glória da madrugada
Isto é , FR é um criminoso!
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De Anónimo a 01.08.2021 às 12:54

E a versão dos acontecimentos contada por estes impostores é um dos maiores embustes da nossa História.
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De Anónimo a 31.07.2021 às 18:45

"Nunca fui nem serei contra a justiça e a dignidade da independência moçambicana. Mas quando se transita do abstrato para o concreto, tudo se resume a crimes e imbecilidades. Costumo até fazer uma comparação para defender que Moçambique, no tempo colonial terminado em 1974-1975, foi muito melhor em termos de miscigenação do que o Brasil, em si notável, mas a minha terra era um raríssimo exemplo de tranquilidade e funcionalidade, um chão que tudo misturava pacificamente e tornava fértil.



No tempo colonial que vivi (...)  o sistema colonial foi miscigenando diluindo eficazmente as violências e tensões étnicas ancestrais que, depois de 1975, o marxismo frelimista reativou com uma virulência inaudita. Naquele meio colonial havia cultos tradicionais, uma parte miscigenada com o Islão, havia islâmicos propriamente ditos, católicos e outros cristãos, hindus e o mais que viesse.

(...)de intolerância religiosa, nem se falava. Não faziam sentido. A diversidade era absolutamente normal.

...
Conta-se até que o pai do atual presidente da República Portuguesa, o católico português Baltazar Rebelo de Sousa, quando governava Moçambique financiava a ida de líderes islâmicos moçambicanos em peregrinação a Meca. Toda essa diversidade num único território, rara na história universal, foi simplesmente jogada ao lixo pelos revolucionários marxistas, os que mais falam em tolerância e globalismo.

Na época colonial moçambicana quem vinha de fora depressa se adaptava a Moçambique e poderia, sem esforço, cortar o cordão umbilical com a terra de origem. A sociedade colonial que conheci absorvia o que vinha de fora para tornar pacificamente funcional. Antes de eu nascer, em 1962, os meus pais e três irmãos mais velhos tiveram direito, como ele era funcionário, a uma licença graciosa de seis meses de férias em Lisboa com boas condições. Pouco depois estavam desejosos de regressar a Lourenço Marques, à sua casa e vidas, que não trocavam por viver, à época, em Lisboa. Foi isso a terrível colonização portuguesa" .

Para se ler na íntegra, aqui:
https://www.caoquefuma.com/2020/05/o-cao-tabagista-conversou-com-mitha-o.html

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De Anónimo a 31.07.2021 às 18:59

(cont.)
"Onde estudou?
Comecei a primária nas periferias de Lourenço Marques, na escola primária do Bairro Professor Silva Cunha, ainda no tempo colonial, em 1971. Com a radicalização da ditadura comunista a partir de 1974-1975, ironicamente esse bairro onde morava passou a chamar-se Bairro da Liberdade, época em que implementaram grupos dinamizadores e organizaram a área residencial em unidades, quarteirões e células controladas pelos camaradas do Partido-Estado-Frelimo, ao mesmo tempo que a população branca debandava.
O novo poder moçambicano garantiu uma liberdade muito apertadinha, como o colono nunca se havia atrevido naquele mesmo bairro. Mas foi bom para eu passar a gostar de política e perceber a razão da esquerda ser sinónimo de trapaça.
Depois, estudei, no ciclo preparatório, na cidade de Maputo, numa escola antes chamada Escola Preparatória Joaquim de Araújo que passou a Estrela Vermelha.
Em 1980, mudei-me de Moçambique para Portugal(...)."

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De Anónimo a 01.08.2021 às 08:27


(cont.)
Do lado de cá, em Portugal, sabemos como foi vivida e sentida a descolonização, sobretudo pelos que regressaram.E o que sabemos nós do lado de lá? Eis um testemunho :
_"Qual (ou quais) acontecimento marcou a sua infância e juventude?

_O meu destino ficou traçado pelo processo de transição da era colonial para a independência de Moçambique, em 1974-1975. Foi no final da minha infância. 
De um dia para o outro, a tranquilidade da vida habitual no bairro onde vivia, nos arredores de Lourenço Marques (depois Maputo a partir de 1976), foi trocada pelo medo; a porta aberta da moradia térrea da minha família perdeu o velho significado amistoso (...) o meu pai e a minha mãe, tal como os mais velhos, passaram a sussurrar em vez de falarem abertamente e apercebi-me que as noites, para eles, não eram mais tranquilas; (...) os vizinhos portugueses de sempre passaram a inimigos do povo, logo obrigatoriamente nossos inimigos, desaparecendo rapidamente do bairro por causa da insegurança e da lei 24/20, de inícios de 1975: tinham de abandonar o país onde viviam, às vezes por mais de uma geração, em 24 horas com direito a 20 quilogramas de bagagem por pessoa, o limite máximo de carga permitido nos voos de Lourenço Marques para Lisboa, a isso se resumindo os seus direitos de propriedade, eles que transformaram matos em bairros e cidades, uma expulsão sumária com aplausos dos marxistas moçambicanos, portugueses, europeus e mundiais, sendo que até hoje é proibido admitir a carga genocida dessa violência contra muitos que até viviam na sua própria terra, e nem mestiços, mulatos e alguns negros escaparam, posto que todos eles viviam também no bairro; (...) os novos vizinhos negros valiam como polícias em busca de detalhes incriminatórios, de um e de outro lado do muro da minha casa, como de outras."
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De Anónimo a 01.08.2021 às 08:30

(cont.)
Ainda assim, nos primeiros momentos a euforia abrupta da independência, e um certo romantismo, pareciam compensar tudo o que se sentia ser errado. Ilusão de pouca dura. O mal tinha vindo para ficar. Multiplicou-se em obrigações espúrias, como os moradores terem de se juntar ao domingo de manhã para cultivarem um qualquer terreno estéril, o teste para apurar as famílias fiéis e as traidoras; as lojas iam ficando vazias e fechando, ou os comerciantes a desaparecerem para não serem sumariamente sentenciados como açambarcadores; um ou outro familiar nosso neófito no entusiamo frelimista-revolucionário tão depressa subia na vida, ocupando cargos deixados vagos pelos portugueses, quanto acabava recambiado para uma prisão ou para um campo de reeducação para se curar dos vícios do colonialismo, desaparecendo para sempre ou regressando para sobreviver mais uns poucos anos carregado de tipo de doenças más; os castigos públicos humilhantes iam aparecendo, por dá-cá-aquela-palha, com muitos negros libertados a serem chamboqueados, isto é, chicoteados como nos piores e há muito ultrapassados tempos primeiros da colonização;"


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De Anónimo a 01.08.2021 às 08:49

(cont.)
"havia rumores de fuzilamentos sumários; uma população autóctone africana, que os portugueses souberam manter pacífica ou mesmo fazer dela pacífica, agora via-se desarmada nas mãos de loucos; nas escolas os alunos podiam seguir, em poucas semanas, para o paraíso cubano ou para a magnífica Europa de Leste, ou ainda desaparecem no interior do país em dos projetos de desenvolvimento revolucionário, e sem que a opinião dos progenitores valesse o que quer que fosse; os cooperantes cubanos iam chegando; as novas rusgas da polícia do povo contra o inimigo interno, às vezes a pretexto de um simples esquecimento do bilhete de identidade em casa, poderiam tornar num instante qualquer destino num martírio funesto; em um-dois anos passaram a ouvir-se rumores de uma nova guerra, agora provocada pelos bandidos armados, como se as populações não tivessem direito de reagir ao serem compulsivamente confinadas em aldeias comunais socialistas para passarem fome e serem-lhes arrancados os poucos que possuíam em benefício da cooperativa, como umas quantas cabeças de gado, populações que sempre tinham vivido nos seus espaços e ritmos ancestrais, que nem sequer desgastavam os solos e os recursos naturais. (...)
Ao mesmo tempo, a família – a minha e outras – iam-se descontrolando nos valores e hábitos e, a conta-gotas, lá por casa, um-por-um ia fazendo as malas e fugia como podia para Portugal, mesmo sem garantias de amparo no destino para não ser engolido para sempre por um monstro que ia nacionalizando tudo, dando cabo da economia e de tudo quanto era instituição: Estado, Igreja, Família, o que seja. Debandávamos simplesmente para Portugal."


Aqui está mais um relato factual que _citando as palavras de HPS_ ajuda "a compreender de forma mais profunda toda a complexidade do processo de colonização e descolonização". 
Coisa que o facciosismo e o fanatismo ideológico de sectários como o dr. F. Rosas nunca tentaram perceber, "evitando [dizer e escrever] uma série de "tolices" graves e inadmissíveis num historiador.



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De Anónimo a 01.08.2021 às 11:04

"Mesmo quando se fala da guerra colonial (para os colonos) ou luta de libertação nacional (para a Frelimo), travada entre 1964 e 1974, já não tenho paciência para tanta mentira sobre Moçambique. 
O país é extenso, tem dez províncias, e a guerra ficou acantonada numa província do extremo-norte (Cabo Delgado) e depois desceu para algumas zonas da província natal da minha mãe (Tete)...  quando comecei a fazer trabalho de campo, em 1997, na maior parte das zonas do país, e mesmo na província de Tete onde houve guerra, posso inferir que a esmagadora maioria das pessoas comuns não tinha ideia de que era colonizada e de que havia uma guerra. 
Muitos referiam que o zunzum da guerra era uma coisa distante...

Só no final da guerra, em 1974, perceberam que a mesma era para libertá-los e que os turras (como os designavam os portugueses) eram a Frelimo. Claro que muitos refizeram os discursos sobre a colonização a partir de 1974, sendo que a nova versão foi compulsivamente imposta pelo ensino(...)
Um idoso islâmico inteligente, negro, que entrevistei em 1998 no norte de Moçambique, em Angoche (antiga António Enes), na província de Nampula, e que sempre viveu ali, disse-me qualquer coisa como: «Nós olhávamos para a placa que dizia ‘Companhia Colonial’ e nunca pensámos o que era isso de ‘Colonial’. Só em 1974 é que descobrimos que, afinal, esta terra não era dos portugueses, era nossa, e estávamos a ser libertados.» Toda a aldrabice histórica fabricada por comunistas do ‘povo em luta’, exímios sequestradores da memória dos povos, um dia tem de ser desfeita, posto que impuseram que se refizesse o sentido habitual da anterior vida quotidiana colonial desde 1974.
Tal como os russos (...) a partir de 1917".


E eu acrescento: Tal como o Dr. Rosas, também ele um sequestrador de memórias dos povos, a querer impor que se refaça o sentido da história com a "versão" que ele entende servir melhor os seus intentos.

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