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O ambientalismo silencioso (parte três)

por henrique pereira dos santos, em 27.09.22

Mas e tantos ambientalistas e investigadores (de várias áreas científicas) podem estar assim tão enganados?

Sim, podem.

Comecemos pela questão da competência dos investigadores (de várias áreas científicas).

Eu posso ser o maior especialista de Linaria ricardoi do mundo e não saber nada das práticas agrícolas que favorecem a espécie nem dos factores económicos e sociais que as influenciam, desconhecendo por completo como está a evoluir o mercado de azeite, para dar um exemplo.

Posso dizer, por exemplo que aparece em "Searas, pousios e prados em olivais tradicionais ou montados, raramente em taludes e bermas de caminhos. Em solos calcários.". Posso mesmo acrescentar que é um "Endemismo restrito à região de Ferreira do Alentejo, Beja, Cuba e Serpa. Embora possa ser localmente abundante em alguns locais, as alterações de uso do solo (intensificação) nesta região constituem uma séria ameaça à sua persistência.", sem registar que se referem os solos calcáreos na descrição da sua ecologia e depois se descreve a sua localização numa zona em que os calcáreos são relativamente raros (as duas coisas podem não ser contraditórias, a Linaria poderia estar situado nos poucos calcáreos da região).

Ao mesmo tempo, a lista vermelha da flora justifica a alteração do seu estatuto de ameaça de "quase ameaçada" para "em perigo", entre outras razões, porque existe "uma redução populacional superior a 30% suportada pelo quase desaparecimento da planta dos Barros de Beja".

Nestas circunstâncias, a minha opção mais natural, tanto mais que sendo o maior especialista do mundo na espécie forçosamente sei que há muita coisa que não compreendo na ecologia da espécie, é uma opção de precaução: proibir tudo o que possa afectar a espécie, incluindo eventuais núcleos que eu desconheça, ou seja, o melhor é parar de expandir o olival intensivo e manter os usos tradicionais.

Porque o que sei é de Linaria ricardoi, não vejo a menor contradição em ser contra o regadio, cuja principal razão para se expandir é a falta de competitividade dos tais usos tradicionais. A proibição da expansão do regadio não garante que os usos tradicionais se mantenham, pelo contrário, o mais natural é que sejam abandonados, diminuindo as perturbações que tornam possível a sobrevivência da Linaria ricardoi (embora com ganhos para a renaturalização dos sistemas naturais, mas nesses sistemas a Linaria ricardoi tem condições de sobrevivência muito dificeis, porque vive de aproveitar a perturbação dos sistemas, o que é verdade para outros grupos, como as aves estepárias, por exemplo).

Fechado nas minhas certezas, é difícil que me chegue aos ouvidos a história de um grande produtor de olival superintensivo que comprou sete hectares abandonados há mais de dez anos, sem Linaria ricardoi e sem qualquer valor natural relevante, era um terreno que estava por ali, com um valor social marginal ou, usando a terminologia tradicional, não dava palha nem dava espiga.

Depois das tramitações administrativas e legais, dá-se início às operações para trazer esses sete hectares para o olival intensivo e é feita uma gradagem em todo o terreno. Porque a vida é como é, nada correu como planeado, não havia plantas disponíveis para a plantação, e o terreno, depois de gradado, ficou à espera de melhores dias.

Para surpresa para todos, os especialistas na Linaria ricardoi e os produtores de olival superintensivo, depois de uma Primavera, todo o terreno está coberto de outras coisas antes desconhecidas no local, incluindo Linaria ricardoi e outras oportunistas que gostaram da perturbação que não tinha existido nos últimos dez anos.

Algumas peripécias depois, os sete hectares continuam a integrar a área do grande produtor de olival intensivo, mas agora como um banco de sementes para projectos de gestão, conservando-se a Linaria ricardoi e companhia, sendo possível ao produtor, porque gere muito mais área de olival superintensivo, manter esses sete hectares como área de conservação, com gestão activa, se for caso disso, para manter o nível de perturbação favorável à Linaria ricardoi. Ao contrário do que aconteceria se se pretendesse impor administrativamente usos tradicionais que o mercado não valoriza o suficiente para que o gestor mantenha o nível de gestão que, teoricamente, garantiria a conservação da espécie.

Portanto, o primeiro ponto (os outros serão rápidos) está fixado: o facto de se ser o maior especialista num assunto (uma espécie, motas, parafusos, pão, camisas, seja qual for o assunto), diz muito pouco sobre a minha capacidade para integrar esse conhecimento num processo de gestão que seja socialmente útil.

O segundo ponto é muito rápido porque vou remeter para um post meu anterior, sobre como um investigador inegavelmente considerado, pode acabar a dizer disparates sobre um assunto que não estudou, mesmo que esse assunto se relacione com a sua área de investigação.

E chego ao terceiro ponto, conclusivo, que o post vai longo: o que a ciência diz sobre os impactos ambientais dos eucaliptos, é uma coisa, o que diz o movimento ambientalista, é outra, o que a ciência diz sobre o glifosato é uma coisa, o que o movimento ambientalista diz, é outra, o que a ciência diz sobre a relação entre espécies de árvores e fogos, é uma coisa, o que o movimento ambientalista diz, é outra, e há mais assuntos em que é igual (regadio, nitrificação de solos, agricultura intensiva, agricultura biológica, pastoreio, etc.).

Mesmo que a ciência e o movimento ambientalista dissessem as mesmas coisas - uma hipótes muito pouco plausível, nem a ciência, nem o movimento ambientalista são monolíticos - isso não alteraria o essencial: as opções de desenvolvimento social são opções políticas, preferentemente influenciadas pelo melhor conhecimento disponível, mas cujo processo de decisão será sempre um processo complexo em que os governos e os sábios contam muito menos do que pensam.

Que a ciência diga que o regadio, na mesma parcela, é incompatível com a conservação da Linaria ricardoi, é pacífico.

Que a partir dessa constatação se defina qual é a melhor forma de conciliar o regadio e a conservação da Linaria ricardoi é que já não é do domínio da ciência, é do domínio da política, ou seja, da arte do possível, democraticamente legitimada.



3 comentários

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De Anónimo a 27.09.2022 às 16:17

Boa tarde Henrique Pereira dos Santos
O meu aplauso.
António Cabral
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De Anónimo a 28.09.2022 às 16:33

Não só de assuntos relacionados com a natureza se aprende consigo, mas de raciocínio e pensamento lógico. Não o quero pôr num altar, mas escrevo que estes seus textos valiosos, deveriam servir de exemplo, e de aprendizagem em inúmeras redes e plataformas do nosso dia a dia... Bem haja
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De Francisco Almeida a 28.09.2022 às 17:10

Leio sempre com interesse HPS mas esta série sobre o ambientalismo silencioso, tem sido "areia a mais para a minha camioneta". No fundo, tudo o que HPS me consegue transmitir, não por insuficiência dele mas minha, é que Einstein estava certo quanto aos limites da estupidez humana.
Não será um problema novo. Contou um subsecretário da Presidência que, em reunião para rever os resultados das catastróficas cheias de 1957 (mais de 500 mortos), Salazar estava visivelmente incomodado com a evidência de falhas humanas na detecção, e coordenação dos apoios. Esse subsecretário, ofereceu-se então para elaborar um manual de procedimentos em caso de catástrofe, ao que Salazar respondeu:
- Faça isso. E, já agora, limite o manual a um único artigo: em caso de catástrofe os lugares de responsabilidade devem estar preenchidos por pessoas inteligentes. (citado de memória)

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