Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Nove em cada dez

por henrique pereira dos santos, em 29.03.20

Esta reportagem do Observador sobre os lares merece ser lida.

Desde o princípio que sabíamos quais os grupos de maior risco em caso de infecção por coronavírus e a seu tempo se discutirão as responsabilidades que nos cabem a todos, não apenas de quem tem de decidir nestas matérias, frequentemente com opções mínimas face aos recursos e ao contexto.

O que me interessa aqui, neste post, é a frase com que arranca, porque é mais ou menos o que todos dizemos: “Os lares de idosos são as grandes bombas-relógio”.

Agora saiamos do nosso conforto e entremos na pele de um dos utilizadores desses lares que, como é frequente nessas condições, todos os dias vê televisão e todos os dias é massacrado com as reportagens dos camiões de caixões de Bérgamo, sem que ninguém lhe explique que são os cuidados no tratamento dos corpos que os justificam, e não a quantidade de pessoas mortas.

Todos os dias é massacrado com a ideia de que se alguém com mais idade for infectado, é desgraça certa.

E, de repente, dizem-lhe que a peste entrou no seu lar.

Quando se declara uma infecção no seu lar, não só já está instalada no seu espírito uma enorme intranquilidade, como ainda acentuamos a ideia de que não há nada a fazer, vai morrer toda a gente.

E, no entanto, na pior das hipóteses, nove em cada dez infectados nos grupos de risco não morre da doença.

Não sabemos bem se é assim, porque não sabemos quantos infectados já houve antes, no momento em que se fazem os testes, o simples facto de que cada vez que se testam todas as pessoas ligadas ao lar, porque há um caso conhecido, se revelar uma enorme taxa de infecção, sugere que é bem provável que a taxa de mortalidade seja, afinal, bem mais baixa daquela que neste momento se aceita, mas saltemos por cima disso e aceitemos como boa a taxa de mortalidade de 9%, 10 para facilitar as contas.

Claro que é uma taxa altíssima, claro que se for eu o décimo, não me vale de muito saber que os outros nove não vão morrer, mas o que devemos nós fazer a quem, na mais absoluta fragilidade e dependência dos outros, vê a morte de frente?

Continuar a insistir que vai tudo morrer, sendo mentira e ampliando a angústia e o desespero, isolando toda a gente, impedindo o contacto com quem se ama para mitigar o contágio de pessoas de muito baixo risco?

Ou estar lá, ir buscar a nossa humanidade onde ela estiver, dizer que há risco sim, mas que nove em cada dez pessoas naquelas condições não morrem, mesmo que infectadas, e aceitar o baixo risco da infecção para a generalidade das pessoas, para que se possa dar um fim de vida mais tranquilo ao tal décimo, ou ajudar os outros nove a lidar com o desamparo do momento?

Não conseguimos antecipar o problema dos lares e falhámos aos mais frágeis, é certo, e de certeza que é possível encontrar formas de mitigar os riscos sociais do contacto com os infectados (é o que fazem todos os dias os que lidam profissionalmente com a doença), mas ainda que não fosse possível, temos mesmo o direito de obrigar à solidão os mais frágeis numa altura destas, e de lhes roubar toda a esperança ao mesmo tempo, só porque estamos nós próprios assustados?

Ensinaram-me que o inferno era a ausência de esperança, é por isso que acho desumano voltar a faltar a estas pessoas, condenando-as ao inferno em vida.



5 comentários

Sem imagem de perfil

De Anónimo a 29.03.2020 às 10:26

os lares são depósitos de quem foi gente
vivó social-fascismo da eutanásia e outras causas fracturantes e facturantes
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 29.03.2020 às 16:45


Diós vino a libertar a los cautivos....


"O Espírito do Senhor está sobre mim,
porque ele me ungiu para levar boas novas aos pobres.
Enviou-me para anunciar a liberdade aos cativos
restituir a vista aos cegos,
pôr em liberdade os que estão oprimidos,
 e para proclamar o tempo do favor de Deus.”


lucas 4:17-19

O Espírito do Senhor é sobre mim, Pois que me ungiu para evangelizar os pobres. Enviou-me a curar os quebrantados de coração,
A pregar liberdade aos cativos, E restauração da vista aos cegos, A pôr em liberdade os oprimidos, A anunciar o ano aceitável do Senhor.

Lucas 4:18,19 (https://www.bibliaonline.com.br/acf/lc/4/18,19+)
Sem imagem de perfil

De sam a 29.03.2020 às 12:31

Espanha: em Tomelloso (Ciudad Real), no lar da Fundación Elder, registam-se já 40 mortes, que corresponde a um quarto dos ocupantes. E a contagem vai continuar.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 29.03.2020 às 23:38

Precisavamos saber quantas pessoas recuperadas tinham mais de 60/70/80 anos. Não percebo como menciona os 9% ou 10%. Neste momento, o rácio de letalidade da doença, com os dados que existem é de 73%: temos 162 casos concluídos com 43 recuperados e 119 óbitos. No total em todo o mundo (https://www.worldometers.info/coronavirus/ (https://www.worldometers.info/coronavirus/)), temos 184821 casos concluídos com 150918 recuperados e 33903 óbitos (18%). À data de hoje é o que há.
Esperamos todos que os casos se concluam com cada vez mais recuperados... mas para já, acreditando dentro do possível, onde parece que a situação está mais controlada (China) e onde tínhamos uma grande amostra, temos 4% (https://www.worldometers.info/coronavirus/country/china/ (https://www.worldometers.info/coronavirus/country/china/))
Contudo, olhando para a Itália, Espanha e EUA, onde de facto diria que podemos confiar nos números, o caso parece ser mais assustador: 45%, 32% e 35%.
Vamos ver.
2% 3% 9% ou 10% é que não me fazem sentido nenhum...
Imagem de perfil

De henrique pereira dos santos a 30.03.2020 às 06:41

Enquanto partir do princípio de que os casos confirmados têm a mais leve relação com os casos infectados, chegará às conclusões de que fala.

Comentar post



Corta-fitas

Inaugurações, implosões, panegíricos e vitupérios.

Contacte-nos: bloguecortafitas(arroba)gmail.com




Notícias

A Batalha
D. Notícias
D. Económico
Expresso
iOnline
J. Negócios
TVI24
JornalEconómico
Global
Público
SIC-Notícias
TSF
Observador

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • henrique pereira dos santos

    Está a fazer comentários sobre alguma coisa que eu...

  • s o s

    num texto (post) demasiado longo para ser lido a e...

  • Susana

    Mais grave ainda do que ter o senhor especialista ...

  • voza0db

    No último parágrafo entraste em estado de delírio....

  • balio

    Tegnell não decidiu da vida de ninguém. As pessoas...


Links

Muito nossos

  •  
  •  
  • Outros blogs

  •  
  • Links úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D
    157. 2008
    158. J
    159. F
    160. M
    161. A
    162. M
    163. J
    164. J
    165. A
    166. S
    167. O
    168. N
    169. D
    170. 2007
    171. J
    172. F
    173. M
    174. A
    175. M
    176. J
    177. J
    178. A
    179. S
    180. O
    181. N
    182. D
    183. 2006
    184. J
    185. F
    186. M
    187. A
    188. M
    189. J
    190. J
    191. A
    192. S
    193. O
    194. N
    195. D