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Nova York, et alii

por henrique pereira dos santos, em 18.11.20

Grande parte da argumentação contra a adopção de uma estratégia epidemiológica clássica, como a defendida na declaração de Great Barrington ou pelas autoridades suecas, assenta em especulações sem grande base empírica.

Uma das teses centrais pode resumir-se e simplificar-se nesta frase: "se cumprissem o que lhes pedimos e evitassem os contágios as coisas poderiam ficar abertas".

Outra das teses centrais é a de que uma protecção focada nos vulneráveis não protegeria eficazmente os vulneráveis, é preciso quebrar as cadeias de contágio para que a infecção não chegue aos vulneráveis.

Comecemos por avaliar este segundo argumento, avaliando se a estratégia dominante em curso tem protegido eficazmente os vulneráveis, porque esse é o cenário base contra o qual deve ser avaliada a hipótese da protecção focada, como alternativa à busca pela quebra generalizada de contágios.

À volta de 40% tem sido a mortalidade em lares, e continua a ser. Vamos esquecer as primeiras fases da epidemia em que em várias das zonas afectadas os lares foram usados como instalações de suporte aos hospitais (Lombardia, Madrid, Nova York, Bélgica, por exemplo) com resultados dramáticamente negativos.

Já depois de abandonada esta prática, os lares continuam a ser a grande origem da mortalidade, mesmo concentrando neles os esforços de protecção. Os 40% acima devem ser lidos com cuidado: na Suécia, onde para além dos 40% em lares avaliaram a mortalidade das pessoas mais velhas que tinham apoio domiciliário dos serviços sociais, a percentagem da mortalidade, somando as duas situações, ronda os 70%.

Note-se que, com uma doença que afecta sobretudo os mais frágeis dos mais velhos (não entendo as sistemáticas referências deste tipo "Os jovens em geral não morrem. Mas os idosos sim. E a sua morte é dada como certa." pela ansiedade injustificada que criam em milhares de pessoas fragilizadas: nove em cada dez pessoas com mais de setenta anos não morrem quando são infectadas, e sendo verdade que 10% é uma percentagem elevadíssima que  não pode ser desvalorizada, também é certo que quase todos esses 10% têm outras fragilidades para além da idade, sendo completamente escusado andar a assustar pessoas de 90 anos que não têm, à partida, nenhuma razão para supôr que um teste positivo, que era melhor que não existisse, é um anúncio da sua morte certa e próxima) é natural que as percentagens de mortes de pessoas que estão em lares ou recebem apoios sociais sejam muito altas, porque são as pessoas com menos autonomia que, maioritariamente, estão em lares ou precisam de cuidados de terceiros para o seu quotidiano.

Ou seja, em primeiro lugar, convém ter muito clara a ideia de que a actual estratégia também não tem protegido eficazmente os mais frágeis e, dito isto, gostaria de deixar claro que não tenho nenhuma certeza de que seja possível ser doutra maneira, o que me interessa é apenas discutir se concentrar esforços a tentar fazer isso não será mais útil que dispersar esforços a parar o vento com as mãos.

Discutamos agora a ideia de que "se cumprissem o que lhes pedimos e evitassem os contágios as coisas poderiam ficar abertas".

ILL m.jpg

ILL c.jpg

NY m.jpg

NY c.jpg

Estes quatro gráficos dizem respeito a duas regiões vizinhas do mesmo país: o estado do Illinois, um estado sem ninguém com umas cidadezinhas rurais simpáticas, como Chicago, e o estado de Nova York, uma cidade de perdição em que as pessoas se misturam em altas densidades.

Não esqueçamos que a comparação entre casos até Abril e Maio e daí em diante é estultícia, porque a disponibilidade de testes e opções de testagem são completamente diferentes, mas é útil a comparação dos diferentes estados na mesma altura, para além da mortalidade que, apesar de tudo, é um indicador relativamente fiável.

Ora o que verificamos é que ou as pessoas de Nova York não cumpriam nada e as de Chicago cumpriam tudo em Março/ Abril e agora inverteram os comportamentos, ou simplesmente a evolução da epidemia tem outras forças modeladoras mais fortes que essas explicações simples e simplistas.

Aliás o padrão verifica-se abundantemente pelo mundo, com as localizações mais poupadas na primeira fase a ter incidências e mortaldidades na segunda época (é o que acontece na Europa de Leste, por exemplo, mas também me muitos estados americanos), as zonas mais afectadas inicialmente a suportar melhor a segunda época (aparentemente o vírus não lê o que se escreve sobre a inexistência de uma progressiva imunidade de grupo) e uma zonas de transição, medianamente poupadas no primeiro Outono/ Inverno e agora medianamente afectadas no segundo Outono/ Inverno, como Portugal ou, surpresa das surpresas, a Alemanha, que hoje chegou à media de sete dias de 198 mortes diárias, semelhante às 200/ 220 da mesma média em Março/ Abril.

Provavelmente há quem acredite que os Alemães não aprenderam nada da Primavera para agora e deram em malucos promotores de festas e jantares de família, sendo por isso que estão, em mortalidade, nos níveis semelhantes aos da Primavera passada.

Pessoalmente acho que há simplesmente um viés que impede pessoas inteligentes, cultas e informadas de ver o que está à frente no nariz.

Vasco M. Barreto, um comentador de muito bom nível deste blog, que teve a paciência de fazer uma série de posts sobre mim no seu próprio blog, só para demonstrar como tudo o que eu dizia da epidemia era uma patetice (depois deve ter percebido que ao contrário do princípio, em que para além de André Dias e eu, pouca gente mais apresentava dúvidas sobre o modelo de gestão da epidemia que estava a ser adoptado, que eu não tinha importância nenhuma e as dúvidas entretanto se tinham espalhado à boleia dos vários cientistas credenciados que lhes iam dando visibilidade e credibilidade) dá hoje, no Público, uma das melhores demonstrações desse viés que já vi.

Duas juízas do tribunal da relação fazem um acórdão demolidor para a gestão da epidemia, como referi no meu último post. O Público, que primeiro ignorou o acórdão (como ignorou a manhosice da licenciatura de Sócrates), acabou por deixar de o poder fazer, e portanto fez uma peça a descredibilizar o acórdão (não vou fazer nenhum comentário sobre o paralelismo com a licenciatura de Sócrates).

Para isso convida uma pessoa com interesses fortíssimos no negócio dos testes - Germano de Sousa - e Vasco M. Barreto para comentarem o acórdão.

Diz o acórdão (ao contrário dos jornalistas, eu cito o original, e não a citação escolhida pelo Público): “A um limiar de ciclos (ct) de 25, cerca de 70% das amostras mantém-se positivas na cultura celular (i.e. estavam infectadas): num ct de 30, 20% das amostras mantinham-se positivas; num ct de 35, 3% das amostras mantinham-se positivas; e num ct acima de 35, nenhuma amostra se mantinha positiva (infecciosa) na cultura celular (ver diagrama). Isto significa que se uma pessoa tem um teste PCR positivo a um limiar de ciclos de 35 ou superior (como acontece na maioria dos laboratórios do EUA e da Europa), as probabilidades de uma pessoa estar infectada é menor do que 3%. A probabilidade de a pessoa receber um falso positivo é de 97% ou superior”. Note-se que esta citação é uma mera tradução de um artigo científico cujo original está reproduzido no acórdão, em nota de rodapé.

Vasco M. Barreto considera as afirmações das juízas falsas e irresponsáveis e, no caso concreto desta citada, argumenta (de acordo com o que o Público diz que Vasco M. Barreto diz): "a informação não é precisa. Por exemplo, no Cedoc, onde Vasco M. Barreto trabalha, para 42% dos testes positivos foram precisos apenas 25 ou menos ciclos e há evidência científica da alta capacidade de propagação do vírus de casos "positivos" a menos de 25 ciclos".

Ou seja, Vasco M. Barreto não diz nada sobre o que quer contestar, confirma que só acima de 25 ciclos é que 58% dos testes são positivos, ou seja, confirma o que dizem as juízas: um teste positivo com 35 ciclos ou mais não dá garantias suficientes para se pôr alguém em prisão domiciliária porque é infecciosa.

E estamos nisto há meses: repetições absurdas que argumentos a que falta sustentação empírica, com base nos quais se tomam medidas com efeitos sociais e económicos negativos demonstrados empiricamente, para lá de qualquer dúvida razoável.

Nestas circunstâncias, o que acha Sakelarides e outros que recentemente têm escrito?

Que não é altura para ter opiniões, o que é preciso é perfilarmo-nos todos atrás do caudilho e é inaceitável que se dê tanto espaço mediático a quem tem dúvidas sobre a bondade de uma sociedade se perfilar atrás de um caudilho, adiando toda a capacidade crítica para quando o caudilho nos levar outra vez às terras onde corre o leite e o mel.



4 comentários

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De Susana V. a 18.11.2020 às 12:13

"Pessoalmente acho que há simplesmente um viés que impede pessoas inteligentes, cultas e informadas de ver o que está à frente no nariz."



Tem razão. Isto há muito que deixou de ser uma questão científica para ser uma questão religiosa. E com crentes fervorosos. Simplesmente não se consegue discutir. 


"um teste positivo com 35 ciclos ou mais não dá garantias suficientes para se pôr alguém em prisão domiciliária porque é infecciosa."



Então e o isolamento profilático de pessoas que não testaram positivo mas estiveram com pessoas que testaram positivo mas nem sequer estão doentes. 
Uma das minhas filhas fica em casa 14 dias por este motivo. E segundo a DGS deveria estar confinada ao seu quarto e fazer as refeições sozinha durante este período. Sem apresentar qualquer sinal de doença. É absurdo. 
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De balio a 18.11.2020 às 15:17


Uma das minhas filhas fica em casa 14 dias por este motivo. E segundo a DGS deveria estar confinada ao seu quarto e fazer as refeições sozinha durante este período.



Um "tratamento" destes é suscetível de causar enorme dano à saúde mental de uma criança ou jovem.
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De Susana V. a 18.11.2020 às 16:21

Pois... Que castigo...
Claro que eu não faço isso, mas sei de pais que levam mesmo à letra.
É assustador...
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De Anónimo a 18.11.2020 às 13:49

demasiados cientistas e falta de ciência
a medicina é a arte de curar que se serve da ciência


'depois de casa roubada, trancas no Portas '

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