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Nós e as políticas públicas

por henrique pereira dos santos, em 29.11.22

"Os quatro australianos estiveram na serra da Estrela, a observar os vestígios do fogo que destruiu mais de 22 mil hectares de uma área protegida. ... "O que faltou aqui foi o treino e a compreensão do que é realmente um bom combate. Houve várias áreas em que vimos que o fogo não foi devidamente gerido. Não foi devido à falta de equipamento, foi devido às pessoas não saírem dos seus caminhos e fazerem o trabalho duro, após os aviões passarem" ... Relativamente à utilidade dos meios aéreos de combate aos fogos, tantas vezes reivindicados pelas populações e pelos políticos [e pelos jornalistas, acrescento eu] ... Neil Cooper ... é peremptório. "São muito úteis em determinados cenários, mas a não ser que tenhamos equipas treinadas no terreno a fazer o trabalho duro, são um desperdício".".

O que está aqui dito foi escrito, com mais diplomacia e umas diferenças, por Rui Gonçalves, tendo, aparentemente, motivado o seu despedimento de presidente da Florestgal.

Como já escrevi, parece-me que o verdadeiro crime de Rui Gonçalves não for ter escrito uma coisa que contesta a actuação de terceiros no combate ao fogo, o verdadeiro crime foi desalinhar do controlo político da narrativa que o governo escolheu para se defender, politicamente, do escrutínio da sua acção neste domínio. Essa é a cultura dominante do PS, seja no tempo de Sócrates, seja agora.

Aliás, o que está acima dito pelo conjunto de australianos com larga experiência de combate a fogos que vieram a Portugal dizer o que pensam, é dito mais ou menos por toda a gente que conheço e que sabe de fogos e do combate aos ditos, em privado.

Houve até um dos meus amigos que sugeriu que todos os reacendimentos - e nos fogos portugueses há muitos - deveriam dar origem a processos disciplinares ao comando do combate ao incêndio.

Como esta não é a minha área de trabalho e conhecimento, não consigo ter uma opinião tão radical, mas seguramente deveriam dar origem a um inquérito que permitisse perceber as razões do reacendimento e o que seria preciso fazer melhor na vez seguinte.

À boa maneira portuguesa, essa avaliação, e outras, irá ser feita numa comissão mastodôndica, com não sei quantos representantes de não sei quantas entidades, a maior parte sem as qualificações mínimas para avaliar de forma séria e serena o desenvolvimento dos fogos sobre os quais se vão pronunciar (os mais sensatos, limitar-se-ão a ficar calados, naturalmente).

Em Portugal há esta convicção de que se eu me sentar muitas horas em frente a uma lareira a olhar para o fogo, passo a ser um especialista em fogos (isto é válido para quase todos os assuntos, não é específico da gestão do fogo) qualificado para representar um organismo numa comissão que fará um relatório, que será aprovado por um director geral, homologado por um ministro, distribuído à imprensa que dará destaque às promessas do governo que se apoiam no trabalho dos especialistas, e arquivado por um amanuense.

O que deixa toda a gente tranquila para que da vez seguinte se cometam os mesmos erros: os que sabem, porque escreveram no relatório o que deveria ser feito, os que decidem, porque o relatório é demasiado extenso e complexo para servir de base à decisão, os que estiveram na comissão, porque deram o seu melhor, os jornalistas porque o seu trabalho é disseminar a informação.

O governo anuncia uns milhões, que dependem de uma decisão comunitária, que ficam cativados em 50% pelas finanças e que são aplicados em aviões ou faixas de gestão de combustível, consoante se queira reforçar o combate ou a prevenção, sendo qualquer das duas opções razoavelmente inútil se, no momento do fogo, os bombeiros estiverem todos junto às casas a evitar que morra alguém, que é a orientação política com que toda a gente está de acordo.

Os jornalistas, por fim, gastam litros de tinta com um negócio manhoso de golas anti-fumo, sem perceber que estão a olhar para o dedo e não para a lua.

O retrato que os censos fazem é o retrato de uma sociedade que comete, vez após vez, os mesmos erros porque não quer melindrar ninguém com processos de avaliação de resultados que sejam sólidos e objectivos, limitando-se a discutir como fazer a distribuição do dinheiro que nós, ou os contribuintes finlandeses, entregam ao Estado.



8 comentários

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De Anónimo a 29.11.2022 às 13:36

Recordo-me de, há uns anos, estar a ver uma reportagem em direto de um incêndio qualquer. A jornalista falava mas eu não a ouvia pois esta interessado num outro pormenor. Logo no início da intervenção vê-se um avião a despejar água numa zona em que o incêndio estava muito ativo e intenso. Do que via nas imagens não vislumbrava bombeiros (ou viaturas de bombeiros) nas próximidades. Passado pouco tempo (foi mesmo pouco tempo) a intensidade do fogo subiu novamente e o direto manteve-se com a jornalista a entrevistar o coordenador da proteção civil da zona afetada. O sr. foi falando e a dada altura vejo novamente um meio aereo (não sei se o mesmo ou outro) a aproximar-se a despejar água mais ou menos no mesmo sítio. O direto continuou mais um pouco e quando terminou o fogo estava novamente intenso e sem bombeiros nas proximidades. 


Com isto em mente, fiquei com sensação de que meios aéreos não serão a oitava maravilha do mundo. Passados uns dias, em conversas com um amigo de um amigo que está ligado ao combate a incêndios questionei se havia estudos sobre o impacto da utilização de meios aéreos no combate aos incêndios. Disse-me que sim muito peremptoriamente. Eu retorqui o que tinha visto e foi-me dito rispidamente que os aviões eram fundamentais mas sem qualquer outro tipo de explicação e que eu não percebia nada de combates a incêndios.


Decidi calar-me porque quem responde daquela forma só mostra que pouco sabe. No entanto, sempre fiquei com sensação que meios aereos seriam mal usado. 
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De balio a 29.11.2022 às 14:23


os bombeiros estiverem todos junto às casas a evitar que morra alguém, que é a orientação política com que toda a gente está de acordo



E o Henrique, não está de acordo que o principal é evitar que morra alguém?


E temos que nos lembrar que os nossos bombeiros são pagos, primordialmente, para transportar pessoas para os hospitais, e para de outras formas assisti-las. A sua função primordial é apoiar e salvar pessoas, não é apagar fogos. Pelo menos, é para isso que lhes pagam dinheiro. Os bombeiros recebem dinheiro por cada pessoa que transportam para o hospital, não por cada fogo que apagam.
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De henrique pereira dos santos a 29.11.2022 às 15:55

Não, não estou de acordo
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De balio a 29.11.2022 às 14:26

Há poucos anos ardeu um eucaliptal meu. Avisaram-me e eu fui para lá. O fogo já tinha passado pelo eucaliptal (queimando somente a vegetação baixa, não queimando as árvores) e estava a ser rescaldado. Embora houvesse carros de bombeiros bem perto, não vi um único bombeiro no eucaliptal. Havia reacendimentos, que os populares apagavam. Bombeiros, nicles. Aliás, disseram-me, os bombeiros não tinham procurado apagar o fogo, tinham-no apenas deixado passar pelo meu eucaliptal, onde ele não adquiriu grande intensidade porque a vegetação rasteira era pouca. Nas redondezas vi mais fogos, e em todo o lado não vi um único bombeiro a tentar apagá-los, somente populares.
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De Alexandre N. a 29.11.2022 às 20:22

Pois bem, os especialistas australianos não descobriram a pólvora, o que os mesmos disseram já é colocado em prática pelo menos desde a década de 90.
Eu próprio tive formação por sapadores chilenos, e era assim que se trabalhava.
Agora o cerne da questão é este, tem que se conhecer bem o terreno onde se opera, o fogo tem a maior parte das vezes um comportamento errático, parece que tem alma e faz o que quer.
Dos sapadores chilenos, apenas posso dizer que eram bons no que faziam, mas, aqui em Portugal não conheciam o terreno e  infelizmente morreram 2 na chamusca em 2003 e 5 em 2005.
Vou-lhe dizer uma coisa, na década de 80 e 90 quem comandava operacionalmente os incêndios era sempre gente que conhecia o terreno com a palma das mãos, agora , já não preciso de dizer mais nada, pois não?
Os grandes incêndios que temos assistido nos últimos anos, só acontecem porque não são bem coordenados, quem sabe da coisa fica nos bastidores e não tem poder de decisão e depois na TV aparecem aqueles lá de Carnaxide.
Especialistas para quê?
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De Luís Teixeira a 29.11.2022 às 23:48

Creio que a roda neste caso já foi inventada. Basta fazer o que os espanhóis fizeram nos anos 90, aquando confrontaram o boi pelos cornos. Profissionalizaram os bombeiros, tornaram-nos sapadores no inverno. Fizeram uma gestão cuidada da floresta. E tiveram excelentes resultados, sendo que em média, num território mais vasto que o nosso, arde menos que em Portugal.
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De Anónimo a 30.11.2022 às 11:36

O principal problema espanhol está na Galiza e aí creio que o problema é semelhante ao nosso. A minha crença é meramente baseada numa percepção nao tenho quaisquer dados sobre este tema.
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De balio a 02.12.2022 às 11:43


Pois. Os nossos bombeiros têm esse nome, mas de facto a sua profissão e principal ocupação não é apagar fogos, é sim dar assistência à população, em particular transportando doentes para hospitais. Isso é que sabem fazer e é nisso que passam a maior parte do tempo.
O problema da profissionalização dos bombeiros seria saber quem a pagaria.

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