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Nós e a conservação da natureza

por henrique pereira dos santos, em 31.03.21

Miguel Esteves Cardoso dedica a sua crónica de hoje, no Público, ao Pinhal dos Ingleses, em Carcavelos.

"Seria magnífico ... [se] se mostrasse aos bichos, às árvores e aos milhões de portugueses que não enriquecem com a destruição da natureza que ainda há quem pense neles".

Esta ideia de que existem uns quantos que beneficiam da destruição da natureza e muitos outros que são prejudicados com essa destruição é uma ideia muito popular, mas tem o pequeno problema de ser uma ideia errada.

De cada vez que comemos, de cada vez que nos vestimos, de cada vez que nos abrigamos em casa, de cada vez que nos deslocamos, de cada vez que escrevemos num papel, de cada vez que lemos um jornal, somos nós, e não outros, que provocamos as alterações na paisagem que, como no caso desta crónica, achamos inconcebíveis e ilegítimas.

Se há muitas casas no litoral é porque há mais gente a querer viver ao pé do mar que em Alcaravelas, não é porque há uns que querem enriquecer com a destruição da natureza e outros que preferiam manter intocado o Pinhal dos Ingleses.

São muito poucos os que querem manter intocado o Pinhal dos Ingleses: se fossem muitos, era fácil arranjar dinheiro para o comprar.

A verdade é que quando, com outros, estive na fundação da Montis, o nosso objectivo era gerir directamente terrenos com objectivos de conservação.

É também verdade que quando decidimos comprar os primeiros terrenos, com recurso a uma subscrição pública, o que não faltaram foram pessoas a dizer que isso em Portugal não funcionava.

É também verdade que quando a Terra Chã procura gerir o território da aldeia de Chãos de forma sustentável, tem muito menos interessados em pagar os queijos que produz do que seria desejável para permitir essa gestão.

É ainda verdade que quando a Terra Maronesa procura quem queira pagar a carne que ajuda a gerir um notável sistema de gestão da natureza, encontra mais palmadinhas nas costas que consumidores dispostos a pagar o custo que essa gestão implica.

É mais verdade que quando os rebanhos da serra do Açor precisam de retorno para o trabalho de gestão de serviços de ecossistema que fazem, facilmente arranjam boa vontade, euros é que é mais difícil.

Quando o Hugo Novo se dedica à Quinta Lógica e outros projectos de gestão do património natural, corre tudo pelo melhor, excepto a tal parte de enriquecer, por falta de quem queira pagar o que produz e é do interesse de todos.

Quando eu persisto em andar à procura de quatro milhões para um projecto de conservação que não me sai da cabeça, é apenas porque sou parvo, sei perfeitamente que levantar quatro milhões para isso é muito mais difícil que para andar a contar bichos mortos ao longo das estradas.

Note-se que a dita Montis tem em curso uma campanha para ver se passamos dos 400 tontos que estamos dispostos a dar 20 euros por ano para ter quem vá fazendo gestão de terrenos com objectivos de conservação e eu nem sequer consigo captar mais sócio nenhum (em minha defesa tenho a dizer que nesses 400 há vários que já não me podem ouvir falar dessa coisa de gastar 20 euros por ano em conservação).

Se alguém tiver dúvidas de que na verdade não queremos saber da conservação para nada, é dar um salto a este despacho sobre a afectação das verbas do Fundo Ambiental e ver como é tratada a conservação da natureza, sem que haja o menor murmúrio sobre o assunto.

Ao contrário da ideia de que há milhões de vítimas da ganância de alguns, a gestão que fazemos do nosso património natural é apenas o reflexo das nossas opções, que incluem a opção de se estar nas tintas para o assunto todos os dias e no dia 29 de Fevereiro, a cada ano bissexto, escrever um texto bem radical a acusar os outros daquilo que é apenas responsabilidade nossa, ou de vez em quando ir plantar umas árvores ou arrancar uns eucaliptos, para lavar a alma e expiar os nossos pecados.



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