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Nós, as vítimas

por henrique pereira dos santos, em 26.11.22

"A única coisa que existe abundantemente é a esperança que alguns têm, de um dia poderem ir-se embora daqui.

As ruas estão vazias; o rosto das pessoas reflecte desânimo; os poucos comerciantes que resistem (e mal) estão â porta das suas lojas onde ninguém entra, porque esperam pela feira quinzenal onde talvez comprem mais barato.
O comércio é quase inexistente, sobrevivem algumas floristas, farmácias, uns cafés e uns supermercados, umas lojas dos chineses, o cinema está fechado há uns anos... E pensar que, desde sempre, esta foi uma das terras mais promissoras, prósperas e dinâmicas da região! A partir de inícios da década de 90 tem sido uma sangria de gente, um êxodo para a cidade e... entrou-se num processo de torpor, declínio, abandono, de falta de dinamismo.
E tem (como não podia deixar de ser) o maior "símbolo" e que melhor define e resume o panorama: tem a "sua" Feira Medieval, para fintar esta ruína!

A população estudantil também diminuiu vertiginosamente. Escusado será dizer que as antigas creches e Escolas Primárias, espalhadas por todas as aldeias, foram fechadas nestes últimos anos. Agora tudo se concentra em apenas dois estabelecimentos de ensino para todo o concelho: um deles acolhe as crianças de todas as freguesias, desde os 3 aos 11 anos, ou seja, desde a "Pré" até ao 6º ano. Depois, estes estudantes seguem para o único estabelecimento de ensino Secundário, do 7º ao 12º ano. Sublinhe-se que as aldeias são dispersas em todas as direcções e ficam a 18-20 Km ou mais, de distância, com sucessivas paragens por todos os lugarejos ao longo do percurso por estradas difícilimas. Diariamente o horário das escolas é das 8h:30 até âs 17h o que significa que as crianças _mesmo as de mais tenra idade_ vindas dessas aldeias recônditas, têm de madrugar imenso para apanharem as "carreiras", as mesmas que, a abarrotar de gente (para poupar nos transportes) as hão-de levar de regresso a casa, já de noite. Sendo uma população essencialmente rural, não se pense que os pais têm disponibilidade de tempo para levar os filhos à escola!!!

Por aqui se vêem as assimetrias do nosso país e a situação de desvantagem destes estudantes num mundo altamente competitivo, pois crescem com imensas lacunas em várias vertentes do seu desenvolvimento e socialização: não têm qualquer possibilidade de complementarem a sua formação e educação através de uma actividade extra-curricular, como por ex., frequentarem uma escola de música, um desporto, um Instituto para aperfeiçoamento de uma língua estrangeira, etc. E já nem falo da ausência de lazer ou de actividades culturais."

A citação deste longo comentário ao meu post anterior, sobre o que significam os resultados dos censos de 2011, é exemplar, de bem escrito, de bem estruturado, de bem elucidativo, e também do ponto de vista de parte das "vítimas" da nossa sociedade.

O pressuposto é o de que é a falta de gente que cria o cenário descrito, o meu pressuposto é o de que é o cenário descrito que acaba na falta de gente. Sabendo, os que têm um ou outro ponto de vista, que as duas coisas interagem e se potenciam.

Cometendo o pecado da auto-citação, reproduzo aqui os parágrafos finais do meu último livro, "Das pedras, pão".

"... aos primeiros sinais de que estes processos têm um efeito limitado no tempo porque não suportam gente suficiente para justificar a manutenção artificial dos serviços públicos, quase todas as autarquias de pequena e média dimensão olham para o turismo como a tábua da sua salvação.
Pela primeira vez, em muitos anos, dão-se conta de que o território envolvente seria mais atractivo se não estivesse socialmente em ruínas.
O turismo pode beneficiar de alguns aspectos decorrentes do abandono agrícola, o problema é que o abandono também destrói o ambiente social que assegurava o controlo social do território, evitando que o visitante não o sinta como hostil.
A crise do imobiliário, mas sobretudo a constante diminuição de pessoas com raízes suficientemente fundas nas regiões para garantir o fluxo de recursos gerados externamente, vai obrigar estes centros urbanos a olhar de novo para os recursos a partir dos quais se pode gerar riqueza.
Até lá é bem possível que as políticas públicas continuem a ser o que hoje são: políticas que partem do princípio de é possível a gestão de territórios, sem criação da riqueza que liberta os meios para essa gestão".

Há comunidades que estão mortas, estão apenas à espera de ser notificadas disso, são aquelas em que apenas há vítimas, aquelas em que apenas há pessoas que acham que os outros lhes devem alguma coisa e não lhes pagam, aquelas para quem serão sempre os poderes públicos e o Estado que as abandonaram.

Estas comunidades têm dezenas de delegados nas elites, eu lembro-me de haver uma Unidade de Missão para a Valorização do Interior, cheia de ideias, que fez um Plano Nacional para a Coesão Territorial, depois substituído por um Programa para a Valorização do Interior, com 164 medidas, se não me engano, que incluía coisas muito relevantes como envolver o Teatro Nacional D. Maria II no aumento da oferta teatral no interior.

O que estas comunidades aparentemente não sabem, é que não vale a pena esperar pela salvação que virá de fora.

O que aparentemente não sabem é que podem contratar um professor de música, de Alemão ou de outra coisa qualquer para, ocasionalmente, passar o tempo que for contratado na comunidade para resolver o problema dos alunos que querem completar a sua formação.

O que aparentemente não sabem que não é estando à porta que se captam clientes que não passam, é organizando a oferta que traga os clientes à porta, seja porque há um workshop de aguarela, seja porque há uma prova de queijo, seja porque na loja toca o tal professor de música às terceiras terças-feiras de cada mês, às sete da tarde, seja porque a loja cria conteúdos que partilha no youtube, etc., etc., etc..

Depois há as outras comunidades, as que em vez se verem a si mesmas como vítimas da incúria, desprezo, desleixo e abandono dos que deviam cuidar delas, sabem que só o que fizerem por si, pensando na comunidade em que estão, reforçando o que têm de único ou mais diferente ou pelo menos aquilo em que a comunidade se reconhece como comunidade, podem enganar o destino e sobreviver.

Essas, de maneira geral, não querem saber de feiras medievais em que lhes caberá o papel de figurantes, e preferem escolher o que lhes dá gosto fazer, achando que o que fizerem com gosto provavelmente também interessará a outros que estão fartos de ver as mesmas feiras medievais em todo o lado, mas se não interessar a mais ninguém, ainda assim é tempo e empenho bem empregado, porque é em primeiro lugar para cada um dos vizinhos que se faz isto ou aquilo (até pode ser um só chá aberto a quem vier por bem, todos os segundos Domingos de cada mês, a rodar de casa em casa ou num espaço comum sub-aproveitado que por lá haja).

Nada disto me impede de defender que se o país quer gerir os fogos, deve pagar cem euros por hectare a cada pessoa que mantenha a sua propriedade com combustíveis finos abaixo de 50 cm de altura, não defendo isto por achar que temos de dar uma esmola aos coitadinhos do interior, defendo-o porque acho a melhor solução para nós, como país, a melhor solução para quem paga ter uma gestão de fogos socialmente serena.

E isso até pode gerar economia que traz gente e que ajuda as comunidades que se quiserem ajudar a si mesmas.

Mas não resolve um único dos problemas das comunidades que estão mortas, à esperem de serem notificadas desses facto, e entretêem o seu tempo a queixar-se de como são mal tratadas pelo mundo.

Hoje tenho poucas dúvidas de que a facilidade na captação de recursos externos, em especial das autarquias, mas também dos outros agentes sociais, feriu de morte muitas comunidades que se meteram no vício do dinheiro fácil, do qual é muito difícil sair sem dor.


19 comentários

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De uidade e a 28.11.2022 às 09:22

Se o Sr. Arq. conhecesse melhor a têmpera de que é feita esta gente do interior, saberia que não lhe levariam muito a bem algumas das expressões com que as definiu _ (há dias assim e ninguém se ofende). 
Aqui os códigos são outros! Fazerem-se de "vítimas" não lhes passaria pela cabeça, é coisa que não lhes assenta, nem lhes assiste.  Isto é gente granítica, dotada de uma capacidade de resistência e de um estoicismo únicos. Incapazes de lamúrias e de queixumes, habituaram-se a contar só com eles próprios (ou a isso foram forçados pelo isolamento) e portanto pouco ou nada esperam que lhes venha de fora da sua comunidade, que aliás, é bastante solidária e coesa. Por isso convinha não confundir  "isolamento" com "solidão". A solidão mata e deslassa as comunidades e não é bem o caso. Pelo menos, por enquanto...
Lá longe, na "bolha mediática" e na "bolha política" consideram e tratam o "interior" como um corpo estranho dentro do território. Cavaram uma espécie de fractura tectónica que nos separa. Mas ninguém pense que não se tem sentido crítico ou que temos a vista toldada para fazermos o nosso julgamento. Pelo contrário, tem-se a perfeita noção do que se passa lá longe nos "poderes centrais" (e centralizadores). As pessoas sabem muito bem _oh! se sabem!_ o que, por direito lhes é devido _ e não por «esmola». Escuso-me de os enumerar, a esses direitos, porque o comentador anónimo em cima referiu alguns muito bem e disse com toda a clareza o que não temos   e  devíamos ter,  por causa daquela coisa elementar que se inventou _ para corrigir desequilíbrios_  e se chama  «equidade e justiça social» e que traz a tal «coesão social». E... já agora, «territorial». 
Não posso deixar de dizer que há uma explicação para tudo: a decadência, e o estado de anomia geral do país devem-se, sobretudo, às nossas pseudo-elites e aos seus medíocres mandantes, enquistados no regime. O resto (os temas que o Sr. trouxe a debate) apenas são uma "consequência" disso e do alheamento da maioria. Mas isso o Sr. sabe. Sabe que é ultrajante terem posto este país a duas velocidades. Por que cargas de água?! Por alma de quem?!
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De henrique pereira dos santos a 28.11.2022 às 10:55

Tanta conversa para acabar no mesmo do costume: eu exijo isto e aquilo a que tenho direito e têm de ser os outros a garantir-me isso.

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