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No centenário de Ribeiro Telles

por henrique pereira dos santos, em 25.05.22

Recentemente, num post anterior, alguém concluía que se deveria ter passado qualquer coisa entre mim e Ribeiro Telles para eu o omitir quando falo das minhas influências profissionais.

Já quando escrevi o meu primeiro livro, "Do tempo e da paisagem", um dos meus irmãos quase se ofendeu pessoalmente comigo por, das várias pessoas que refiro e a quem tiro o chapéu pelo que me ensinaram sobre paisagens, não constar Ribeiro Telles, de quem, aliás, fui aluno.

Hoje, nos cem anos do seu nascimento, tenho um bom pretexto para dizer o que penso sobre o assunto.

Eu tenho, sempre tive, um enorme respeito por Ribeiro Telles, quer pelo papel único e insubstituível que teve no estabelecimento da minha profissão - o de enraizar socialmente e trazer para o centro da decisão política o essencial do corpo doutrinário da arquitectura paisagista -, quer pelas suas qualidade pessoais notáveis, de que sobressaía, sem esforço, o seu encanto pessoal e o genuíno interesse pelas pessoas e pelo mundo à sua volta.

Numa das últimas vezes em que estive com Ribeiro Telles, ia eu a correr pela Rua de São José (ou melhor, na sequência de nomes de ruas e largos que ligavam a entrada de Lisboa por São Sebastião, ao seu centro, ainda hoje pontuada aqui e ali com tanques para o gado beber), atrasado para o que ia fazer, quando vejo Ribeiro Telles a ler o jornal, do lado de dentro do vidro do café.

Detesto chegar atrasado, já ia atrasado, mas Ribeiro Telles era Ribeiro Telles, de maneira que parei, voltei atrás, entrei no café cuja entrada estava separada da zona das mesas por uma parede, e fui cumprimentá-lo.

Como sempre, perguntou-me o que andava eu a fazer, escolhi falar-lhe do que andava a fazer com a Montis, a comprar terrenos para gerir com objectivos de biodiversidade, imediatamente perguntou com o sorriso  trocista (sem ponta de desdém, nunca o vi tratar alguém do alto da burra, e como eu gostava de ser capaz de dizer o mesmo de mim) se não era para especulação, e estivemos um bocado à conversa, porque ele fazia perguntas, verdadeiramente interessado nas respostas.

Sempre teve esta curiosidade, talvez a característica pessoal mais evidente para mim, mesmo quando era um professor a olhar para projectos de alunos dos primeiros anos, fazia perguntas porque queria perceber as razões de cada um, antes de, se fosse o caso, as desfazer com um comentário sarcástico, mas nunca agressivo.

Nada disto, no entanto, me permitiu, nunca, alinhar no culto de São Gonçalo, sempre tivemos muitas divergências, desde muito cedo, a mais radical das quais a minha incompreensão pela facilidade com que assumia como suas as ideias dos outros.

Durante anos esta característica de Ribeiro Telles chocava-me, mais tarde percebi que não havia maldade nesta forma de ser - estou convencido de que era mesmo uma forma de ser, não uma opção - mas Ribeiro Telles era, provavelmente, a pessoa que mais rapidamente percebia, em qualquer circunstância, o que era essencial e acessório em tudo o que lhe passava próximo, adoptando o que lhe parecia certo como seu, de forma intuitiva e natural.

Há muitos anos, num comboio, encontrei, por acaso, um amigo comum, mais da minha idade que da de Ribeiro Telles, que me disse, divertido: emprestei-lhe meia hora o "Small is beautifull" e à noite ouvi-o num comício a integrar politicamente, e bem, e certo e com rigor, as ideias do livro como se fossem suas, naturalmente suas.

Quem, como eu, leu praticamente tudo o que escreveu Caldeira Cabral, teve aulas de ordenamento com Viana Barreto, ouviu Álvaro Dentinho distendido em mesas de café, teve uma longa relação profissional e de amizade com Teresa Andresen, etc., etc., etc., sabe perfeitamente que quase nenhuma das ideias que são atribuídas a Ribeiro Telles nasceu com ou pela mão de Ribeiro Telles, mas sim pela mão de outros à sua volta e pela sua capacidade de absorver sem esforço, e integrar politicamente, o que ouvia (mais que lia) desses seus próximos, sem que isso colidisse com a amizade que este grupo foi mantendo entre si, pela vida fora.

É verdade que era praticamente impossível alguém zangar-se com Ribeiro Telles, desde que o conhecesse pessoalmente.

O melhor exemplo talvez seja mesmo o do Jardim da Gulbenkian (mas isso é verdade para o continuum naturalle de que nasce o corredor verde de Lisboa, para a REN, para as hortas urbanas, para o conceito de paisagem global ou total, etc., etc., etc., tudo coisas que se encontram escritas por outros, estudadas por outros, fundamentadas por outros, formalizadas por outros, antes de Ribeiro Telles as transformar em realidades socialmente enraízadas), provavelmente o único jardim que toda a gente consegue citar como exemplo da obra de Ribeiro Telles.

Esse jardim tem dois projectistas, Viana Barreto e Ribeiro Telles e uma das suas grandes virtudes é o facto de ser a síntese das qualidade de um e de outro.

Viana Barreto está na equipa que ganha o concurso para o projecto da sede da Gulbenkian e é, inegavelmente, quem está desde o início no desenho do jardim, cujo plano geral, mesmo que em ante-projecto, é inteiramente da sua autoria. Se a documentação não fosse suficiente para atestar este facto, a forma como os espaços são projectados, a mais extraordinária contribuição de Viana Barreto para o projecto de arquitectura paisagista, parece-me a mim, que não sou especialista em jardins, é próxima da que encontramos noutros jardins e parques projectados por Viana Barreto.

Mas quando se vai passar ao projecto e construção, com prazos muito curtos, Viana Barreto chama Ribeiro Telles que tinha acabado de bater a porta à Câmara de Lisboa, por terem recusado um trabalho seu (e de Caldeira Cabral), impondo uma visão do projecto de jardins de que Ribeiro Telles discordava por considerar, com razão, ultrapassada.

E o jardim da Gulbenkian tem a maestria de desenho que encontramos noutros projectos de Ribeiro Telles.

O que, para mim que, insisto, não sou especialista em jardins, torna o Jardim da Gulbenkian um marco que se ultrapassa a si mesmo, é exactamente esta síntese da maestria na definição de espaços de Barreto e da maestria de desenho de Telles.

Dizer isto é diminuir Ribeiro Telles?

Não me parece, dizer isto é defender Ribeiro Telles de um futuro julgamento da história, quando a irmandade de São Gonçalo já cá não estiver para alimentar o mito, e a investigação histórica tornar evidente o que hoje não parece ser: praticamente todo o corpo de ideias a que Ribeiro Telles deu rosto e projecção social e política, não são ideias de Ribeiro Telles, são ideias de um grupo de pessoas que, frequentemente, são tratadas de forma bastante injusta pela irmandade de São Gonçalo.

E não é pouco, nem ninguém o teria conseguido fazer a não ser Ribeiro Telles, enraizar social e politicamente um corpo doutrinário complexo e, frequentemente, contra-intuitivo.

O facto de não devermos a Ribeiro Telles o que a irmandade de São Gonçalo diz que devemos, não retira um átomo à importância do que lhe devemos, que é muito e não deixarei de lhe agradecer.



5 comentários

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De Pedro Oliveira a 25.05.2022 às 18:27

O jardim em frente à Torre de Belém chama-se: Arquitecto Paisagista António Viana Barreto, deve ser o jardim mais visitado do país.
Assim Viana Barreto pode não ser muito conhecido em Portugal mas faz parte dos álbuns fotográficos de cidadãos de todo o mundo.


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De FLV a 27.05.2022 às 10:39

Leio o que aqui escreve e não deixo de ficar um pouco surpreendido.
Por um lado, por alguma maldade, ou injustiça, afirmar que todas as ideias de GRT eram de outros e que ele apenas a assimilava e as transformava como suas.
Por outro, menorizando o seu papel  na arquitectura paisagista, no meio ambiente, na paisagem, na sustentabilidade.
Devo afirmar que conheci, pessoalmente, praticamente todos da primeira geração de paisagistas, desde o Prof. Caldeira Cabral, os que citou no texto e muitos outros e que nunca fui aluno deles em termos académicos, mas sim como ouvinte, e algumas vezes participante, em tertúlias, encontros, conversas descontraídas e aquilo que aponta como defeito, é, para mim uma das maiores qualidade de GRT, e de qualquer homem inteligente: capacidade de ouvir, de analisar e de enriquecer o seu pensamento com o diálogo, com  novas ideias, diferentes visões e conceitos. Como nota pessoal, nas muitas conversas que tivemos sobre temas profissionais (arquitectura + arquitectura paisagista) e com alguém com idade para ser seu filho, ou quase neto, sempre me tratou de igual para igual, tal como disse, escutando, argumentando, num ambiente descontraído que ainda recordo vivamente (o mesmo não poderei dizer de muitos professores meus!). Quem se julga dono da verdade, defensor de uma ortodoxia ou que acha que a evolução se faz "criando a pólvora novamente" não deixará marca. GRT deixa. HPS julgo que não.
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De henrique pereira dos santos a 27.05.2022 às 13:40

Sugiro que leia outra vez o que escrevi.
Explicitamente digo que não há qualquer maldade de Ribeiro Telles na sua forma de ser, explicitamente digo que é uma qualidade o que pretende que eu disse que era um defeito, explicitamente digo que o papel que teve no desenvolvimento da profissão e no enraizamento cultural do corpo doutrinário na sociedade é um trabalho notável que mais ninguém fez (e duvido que conseguisse fazer), ou seja, tudo o que diz é desmentido pelo seu texto.
O que não me impede de concordar consigo: Ribeiro Telles deixará uma marca na história, eu não.
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De henrique pereira dos santos a 27.05.2022 às 13:40

Pelo meu texto, não pelo seu, como escrevi
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De henrique pereira dos santos a 27.05.2022 às 14:51

De resto, estas coisas têm uma maneira simples de resolver, que é a verificação de factos.
Escolha uma ideia que atribua a Ribeiro Telles, identifique o primeiro momento em que fala dela (como sabe, Ribeiro Telles, como a generalidade da primeira geração de arquitectos paisagistas escreveram poucos textos de fundo, embora tenham feito muito trabalho em que punham em prática ideias novas e tenham escrito muitos textos de divulgação ou dado entrevistas) e eu promero ir verificar se encontro referência anterior da mesma ideia apresentada por outra pessoa.
As ideias são contínuos, muitas vezes o que as torna conhecidas não é o momento da sua criação ou apresentação, mas o momento em que há uma formulação que a torna inteligível para os outros, mas mesmo assim, se quiser, fazemos esse exercício.
A questão é que sempre que fiz isto, não porque fosse à procura, mas porque li quase tudo o que escreveu o professor Caldeira Cabral, editado ou não, e muito do que escreveram outros, a minha conclusão foi a mesma.

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