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Não temos salvação

por henrique pereira dos santos, em 31.05.18

O nosso primeiro-ministro disse um dia destes: "Mas quanto mais limparmos este ano, menos teremos de limpar para o ano e assim sucessivamente".

Isto vinha a propósito da gestão do problema dos fogos.

Seguramente Tiago Oliveira, que depende directamente do Senhor Primeiro-Ministro, terá dito, em algum momento, que a gestão de combustíveis (a limpeza das matas na linguagem popularucha que tem caracterizado a discussão sobre o assunto) não é um processo cumulativo porque as plantas crescem sozinhas.

Seguramente os dirigentes do ICNF, a autoridade pública que tutela a floresta e a conservação da natureza, terão dito, em algum momento, que a gestão de combustíveis não é um processo cumulativo porque as plantas crescem continuamente.

Vários académicos disseram, explicitamente, que a gestão de combustíveis não é um processo cumulativo e que seria preciso arranjar soluções de gestão contínua ao longo do tempo.

No entanto, quando desde o mais analfabeto dos agricultores, ao mais qualificado dos doutorados portugueses que lidam minimamente com plantas, sabem, e dizem, que isso dos matos não vai lá com intervenções únicas que se somam no espaço, o Governo não só fez aprovar legislação absurda (pretender que as ervas não tenham mais de vinte centímetros, ao longo do ano, é pretender que se ande com um corta relvas, por meio país, todos os meses, mais ou menos como se faz nos campos de futebol, embora com mais frequência, um exemplo que uso por me parecer o único contacto que muitos dos que decidem sobre o assunto terão com a gestão da vegetação), como insiste nesta cantilena sem pés nem cabeça.

E como é isto possível?

Simples, não há qualquer custo político em dizer coisas absurdas porque os jornalistas não perguntam, a oposição não se opõe (nesta matéria, aliás, há um enorme consenso político no sentido de se gerir os espaços não agrícolas esquecendo a realidade), os que sabem cansaram-se e a generalidade da população estará minimamente satisfeito com o "faz-se o que se pode, coitados, ao menos alguma coisa melhorará, se não se fizer nada é que é pior".

Assim sendo, como já gastei todos os argumentos racionais de que disponho para falar deste assunto, resolvi fazer um boneco usando três fotografias de Francisco Barros.

As duas primeiras, publicadas a 13 de Março deste ano (portanto, desse dia ou de um dos dias imediatamente anteriores) são um antes e depois da famosa limpeza imposta pelas regras.

antes francisco barros 13 de Março.jpg

depois francisco barros 13 de Março.jpg

A terceira fotografia é de hoje, 31 de Maio, sensivelmente dois meses e meio depois.

31 de Maio francisco barros.jpg

Ou seja, quando as políticas públicas são feitas com este grau de conhecimento da realidade dos processos que pretendem influenciar, a responsabilidade não é de António Costa, Rui Rio, Assunção Cristas, Jerónimo de Sousa, Catarina Martins e por aí fora, a responsabilidade é mesmo nossa, de uma sociedade anestesiada que aceita que se discutam políticas públicas, sejam elas a gestão florestal, a eutanásia, os contratos de associação das escolas, o salário mínimo a dívida, o desemprego, seja o que for, sem a menor exigência pública quanto ao estabelecimento de uma base factual objectiva que todos possam reconhecer, antes de discutirem o que fazer a partir dessa realidade.

Não temos salvação se continuarmos tão pouco exigentes como temos sido com a base factual para a gestão dos fogos e do resto.

Adenda de Francisco Barros: "Na 1a foto vê-se o que cresceu entre o inicio de junho de 2017 até à data. Na ultima, vê-se o que cresceu em 2 meses e meio após o corte. Ou seja, não faz sentido nenhum efectuar este tipo de controle em março ou mesmo em abril ou inicio de maio. É ter trabalho e gastar dinheiro em vão".



17 comentários

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De Anónimo a 31.05.2018 às 22:08

Perfeitamente de acordo. Cortar nesses meses para quê? Está tudo verde e com mínima probabilidade de arder.
Tenho uma pequena propriedade em Idanha, e tive exactamente o mesmo problema. Cortei o maximo que pude, junto à estrada, em Março, à roçadora, que a propriedade é pequena,. As ultimas chuvas em conjunto e o aumento da temperatura, enfim a estação, provocaram o enorme crescimento das espontaneas (não lavramos o terreno). Naquela região, as temperaturas são bastante altas, mas os dias vão humidos, e as plantas verdes. 
Em Junho sim, é provável que tudo comece finalmente a secar e a necessidade se coloque.
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De Anónimo a 04.06.2018 às 01:19

Depende do ano. Há invernos mais secos em que os incendios começam mais cedo. Devia ser decidido ano a ano e regiao a regiao.
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De Anónimo a 31.05.2018 às 23:08

Deixem secar e vão ver como é.
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De Anónimo a 01.06.2018 às 00:45

Entenda-se que o  mais importa é cortar as arvores de porte ( pinheiros, eucaliptos etc) que o fogo de copas é difícil de controlar. Estas árvores são de crescimento lento ( 10 a  30 anos). Quanto à vegetação rasteira ,arbustos de crescimento rápido, é um problema menor..........
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De Henrique Pereira Dos Santos a 01.06.2018 às 12:35


O problema é que o que faz progredir um fogo são os combustíveis que têm menos de 6 mm de espessura.
Pretender que o problema de gestão de fogo que temos são os fogos de copas, porque são mais intensos e destrutivos, e que a gestão dos combustíveis finos é um problema menor é factualmente errado, é uma boa demonstração do que o post pretende dizer: nós temos facilmente opiniões antes de saber o suficiente sobre os factos.
Acresce que o corte de árvores diminui o ensombramento e isso significa um maior crescimento de matos e ervas, ou seja, o corte de árvores, por si só, sem gestão de combustíveis ao nível do solo (quer matos e ervas, quer manta morta e folhada), arrisca-se a agravar o problema, ao mesmo tempo que diminui o retorno económico para o proprietário.
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De Anónimo a 04.06.2018 às 01:29

Claro que a erva perto de edificios deve ser cortada para segurança pessoal e dos bens mas os mega-incendios de 2017 so tiveram aquelas proporçoes porque o fogo foi propagado pelo ar pelos eucaliptos- Em vez de uma ou duas frentes de fogo eram fogos espalhados por todo o lado. O corte da erva ajuda localmente mas nao impede os mega-incendios.
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De Henrique Pereira Dos Santos a 04.06.2018 às 10:42

Está enganado, mas tendo ardido uns milhares de hectares no pinhal de Leiria e, mesmo assim, se pretender explicar o que se passou com os eucaliptos, não me dá nenhuma esperança de ver os factos influenciarem a sua opinião
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De Luís Lavoura a 01.06.2018 às 14:32

As árvores de porte cortam-se quando estiverem prontas para cortar. Se uma pessoa as anda a deixar crescer é precisamente para ganhar dinheiro a cortá-las quando elas estiverem grandes. Não se as vai cortar quando ainda não valem dinheiro!
A vegetação rasteira não é um problema menor. A maior parte dos incêndios é de vegetação rasteira. É a vegetação rasteira que mais depressa pega fogo e o espalha. E o fogo só pode alcançar as copas das árvores se a vegetação rasteira estiver muito alta.
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De Luís Lavoura a 01.06.2018 às 10:35

Concordo. Eu tenho uma propriedade que está agora com tantas ervas e mato que mal se pode lá andar, e mandei limpá-la AGORA. Não em março.
As ervas crescem a velocidade máxima em abril e maio. Limpezas em março não fazem sentido nenhum, porque em abril e maio tudo volta a crescer ainda muito mais do que antes. As limpezas de terras devem ser feitas em junho.
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De Anónimo a 01.06.2018 às 18:50

Estabelecendo a lei que é em Março que se limpa podem aplicar-se mais coimas..
A ver se conseguimos baixar o défice!!!
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De Anónimo a 01.06.2018 às 20:26

 Cortar árvores e mato era nos meses com menos luz de até Fevereiro . O mato ficava tapado com terra.Agora ,temos tanto disparate e vemos na berma da auto -estrada ,ligação A1 -A17 perto de POMBAL,os pinheiros pequenos ficaram no local estão secos ,bem como o mato cortado . Combustível autentico .
 GOSTAVA ver uns incendiários penalizados.Arranjam-se,medidas penalizadoras para os proprietários e quem devia pagar as coimas eram os donos dos lobis do material dos incêndios,mas também os incendiários.
 Estou de acordo com um país bem cuidado ,mas deviam ser premiados os que se preocupam com a sustentabilidade da floresta ,uma maneira de prevenir maus cuidados e floresta de reconhecido valor ecológico e material. 
 
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De Anónimo a 01.06.2018 às 21:19


O nosso primeiro-ministro, bem como o ministro da Administração Interna, andam a dizer que a nossa floresta nunca esteve tão limpa como está agora, atribuindo os méritos aos proprietários florestais, às Câmaras Municipais, à GNR e, claro, ao actual governo. Mas estão enganados.

A nossa floresta no passado (há cerca de 30/40 anos para trás) estava muito mais limpa do que está hoje, pois então raramente se via espalhada na floresta matéria facilmente combustível, graças à actuação das gentes do meio rural, dos agricultores e dos pastores que recolhiam lenha para as lareiras e matos para as camas do gado e para as nitreiras, para a produção de estrumes, com vista à adubação das terras.

Então, eram muito raros os fogos florestais, salvo os provocados voluntariamente pelos pastores, para renovação dos pastos.

Isto para dizer que concordo inteiramente com o Henrique e para lamentar que quem sabe desta matéria não apareça nas televisões a dizer que o rei vai nu.
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De Anónimo a 01.06.2018 às 23:39

O que os matos, as matas, as hortas e todo o território do Interior do País precisam é de GENTE A HABITAR LÁ NO INTERIOR.
Enquanto não houver gente em quantidade que lá esteja fixada, bem podem cortar matos, ervas, pinheiros e outras  plantas que elas regenerar-se-ão bem depressa.
O dinheiro que se gasta todos os anos nos "bandos" de meios aéreos devia ser gasto era na fixação de gente no Interior. Haja quem me desminta.
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De Tiro ao Alvo a 02.06.2018 às 09:34

Tenho que concordar consigo - repovoar o interior é preciso. 
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De Anónimo a 02.06.2018 às 10:27

O que move qualquer classe política é o voto. O como garantir e ganhar mais votos.
Pequenas aldeias e comunidades espalhadas pelo País não têm peso eleitoral.
Para um poder político, hiper centralizado, os fogos são uma "chatisse" que até aparece nas primeiras páginas.
Mas os governos sabem aproveitar politicamente a deixa, muito construtivamente, peroando capinagens, promovendo legislação pró-desbaste de àrvores, a torto e a direito, e salvíficos negócios aéreos. Quanto às intrincadas pós-ajudas sabe-se como são. Dali, esquerda ou direita, nunca virá outra música....
Soluções técnica, umas mais eficientes que outras, haverá para controlar estes periódicos desastres. Mas haverá soluções políticas, consequentes, para este cenário ?.


  
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De Narciso Baeta a 02.06.2018 às 17:25

“A loucura dos poderosos não pode passar sem vigilância” – Hamlet

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