Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




não saber perder

por Vasco Lobo Xavier, em 06.05.14

 

 

Uma das coisas mais divertidas de observar naqueles que não sabem perder é a facilidade com que deixam que se evidencie que não sabem perder. Veja-se o caso da A25A: consideraram ter perdido as últimas eleições legislativas e, vai daí, aparentando não saber conviver com o regime democrático, amuaram e deixaram de ir à AR nas celebrações do 25A. Este ano ainda ensaiaram uma chantagem, que lhes correu mal, como correu pessimamente o infeliz apelo à luta armada feito por alguns. Mário Soares é sublime nisto de não saber perder e enveredou também pela luta armada. A decadência é uma coisa terrível, mas nalguns casos divertida.

 

Mais divertido é constatar isso na comunicação social, que deixa de relatar e prefere opinar. No último ano falou-se num 2º resgate e, mais tarde, numa saída com um programa cautelar, exigindo-se uma saída limpa. Derrota, empate e vitória eram os resultados possíveis, quando poucos acreditavam na vitória. Na semana passada, constatando-se que muito provavelmente os portugueses e este governo conseguiriam uma saída limpa, um órgão qualquer da comunicação social (não me lembro qual) chamava-lhe depreciativamente de “saída simples”. É um excelente nome, para o efeito negativo que pretendiam, ainda que não se perceba a sua atribuição à melhor das três hipóteses com que o país se deparava (2º resgate, saída com programa cautelar ou saída limpa). Da mesma maneira que não percebi um programa da rádio que auscultava os ouvintes sobre se a saída limpa constituiria uma derrota ou uma vitória do governo e dos portugueses. O debate pareceu-me extraordinário: se uma saída limpa não é uma vitória, o que seria? Se é uma derrota, o que seria uma vitória? Não se percebe.

 

Um jornal, aparentando também algum inconformismo, noticiava na 1ª página a saída limpa mas colocava a expressão entre aspas, não fosse o incauto leitor imaginar que era coisa boa. E para embelezar o embrulho acrescentava de imediato que isso não afastava os riscos (novidade?!?) nem a a vigilância dos credores (outra novidade de 1ª página?!?), durante duas décadas (sempre novidades?!? – por onde têm andado aqueles jornalistas?). Não arriscando a possibilidade de ainda assim se considerar positivo o resultado, acrescentou-se ainda ao pacote da 1ª página que se está a proteger as pensões mais elevadas e somaram-se os prejuízos de algumas instituições bancárias ao longo dos últimos três anos (uma ligação que mal se percebe mas eles lá devem saber).

 

O não saber perder do PCP e do Bloco tem pouca graça e originalidade porque eles, na verdade, não sabem perder e não me recordo de alguma vez terem admitido as suas derrotas. Convivem muito dificilmente com a realidade: do PCP veio de cabeça perdida o cabeça de lista às europeias tecer uns quantos impropérios e negar que se tenha verificado uma saída limpa (sem explicar então qual das três hipóteses ocorreu). A cabeça de lista do Bloco, igualmente de cabeça perdida, vociferou também uns quantos impropérios, amaldiçoou os empresários portugueses que criam empregos e acrescentou que “amanhã os portugueses estarão exactamente como hoje”. É simplesmente fabuloso que um país consiga eleger para o parlamento europeu pessoa que diz uma anormalidade destas e que pretende fazer crer às pessoas que este tipo de coisas faz alterar a vida das pessoas de um dia para o outro, qual euromilhões (que ainda assim deve demorar uns dias a chegar às nossas contas bancárias...).

 

Mais cómico é o não saber perder de Arménio Carlos, que começa por negar a realidade (velhos hábitos do PCP não se perdem facilmente...), recusando que tenha havido uma saída limpa (então qual foi?!?), e prosseguindo barafustando contra os malvados mercados, de quem continuamos dependentes.  Oh sr. Arménio! Pois continuamos dependentes dos mercados! Uma vez que o seu amigo Sócrates nos pôs na bancarrota, endividando-nos até ao limite e gastando todas as reservas do país, nós estamos dependentes de quem nos emprestou o dinheiro para comer. E uma vez que o senhor recusa qualquer austeridade e que apela ao aumento constante do défice, ano após ano, isso só se consegue com auxílio dos mercados. Por outras palavras: o seu modo de vida, o seu projecto, aquilo que defende, aquilo que tem defendido, põe-nos dependentes dos mercados. É tão simples que não sei como não percebe isto.

 

A UGT foi mais comedida. Disse o seu Secretário-Geral adjunto que isto não era uma saída limpa (sem explicar então o que seria, das três hipóteses que tínhamos pela frente) porque se criou uma almofada de protecção com os impostos dos portugueses. Acontece, caro senhor, que desde a fábula da cigarra e da formiga que toda a gente sabe que é preciso amealhar para se ter uma almofada que nos ampare nos tempos difíceis. É bem certo que eu também preferiria menos impostos e que se reduzisse antes a despesa mas nunca ouvi a UGT a apelar a reduções da despesa, pelo que a almofada por via dos impostos parece ser a solução que a UGT, por exclusão de partes, prefere. Não tivesse o Sócrates gasto tudo e houvesse alguma almofada em Abril de 2011 e os portugueses não precisavam de ter sido resgatados pela troika, que foi ao que o gastador governo socialista nos conduziu.

 

Já o não saber perder dos socialistas é de uma comicidade fabulosa. Queixam-se também da criação desta almofada, feita com o esforço dos portugueses e tão importante para nós. Provavelmente já a teriam torrado toda, se pudessem. Mas Seguro faz uma coisa extraordinária que é desvalorizar todo o esforço hercúleo dos portugueses: para ele, esta meta foi atingida – não com o esforço dos portugueses mas – apenas porque há liquidez nos mercados e porque o BCE falou. Oh dr. Seguro: a não ser que o BCE assegurasse que pagaria na totalidade as dívidas dos desgraçados completamente endividados, o que não fez nem fará, nunca os resultados atingidos pelos portugueses nos mercados se poderiam dever essencialmente ao BCE. E nunca a liquidez nos mercados faria com que se emprestasse dinheiro a quem dá mostras de não o saber gastar nem poupar nem produzir. O excesso de liquidez não torna “os mercados burros”. Saiba o dr. Seguro que, por muita liquidez que haja nos mercados, nunca estes nos emprestariam dinheiro ao juro actual se nos últimos três anos o país tivesse feito tudo o que o senhor sempre defendeu. Nunca! Estaríamos a braços com outro resgate (isto com sorte...) e seríamos tratados como uns desgraçados, gastadores e incorrigíveis, não mereceríamos o menor respeito e confiança.

 

Respeito e confiança que Seguro nunca poderá conseguir dos portugueses, porque demonstrou não confiar nos portugueses nem respeitar o seu esforço, ao imputar a causas externas e fortuitas o sucesso alcançado pelos portugueses. Não, dr. Seguro: asseguro-lhe que estes resultados resultam do enorme esforço dos portugueses e do respeito e confiança que estão a conquistar a pulso e não do tempo que faz lá fora ou de ser dia par ou ímpar do mês. Se António José Seguro não confia nem respeita os portugueses e o seu esforço, como pode pretender o seu respeito e a sua confiança?

 

 




Corta-fitas

Inaugurações, implosões, panegíricos e vitupérios.

Contacte-nos: bloguecortafitas(arroba)gmail.com




Notícias

A Batalha
D. Notícias
D. Económico
Expresso
iOnline
J. Negócios
TVI24
JornalEconómico
Global
Público
SIC-Notícias
TSF
Observador

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • henrique pereira dos santos

    Quem? Isabel Camarinha? Sim, é o que digo no texto...

  • Anónimo

    pelo seu comentario se calhar nunca trabalhou para...

  • Anónimo

    Sem dúvida, um excelente texto. Que bem fundamenta...

  • Anónimo

    Não é parva não Senhor...Dizem que pró ano, nos ós...

  • Anónimo

    chamar a Holanda um pais civilizado é uma pura abe...


Links

Muito nossos

  •  
  •  
  • Outros blogs

  •  
  • Links úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D
    157. 2008
    158. J
    159. F
    160. M
    161. A
    162. M
    163. J
    164. J
    165. A
    166. S
    167. O
    168. N
    169. D
    170. 2007
    171. J
    172. F
    173. M
    174. A
    175. M
    176. J
    177. J
    178. A
    179. S
    180. O
    181. N
    182. D
    183. 2006
    184. J
    185. F
    186. M
    187. A
    188. M
    189. J
    190. J
    191. A
    192. S
    193. O
    194. N
    195. D