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Não sabemos

por henrique pereira dos santos, em 16.04.20

Por esta altura, quando as discussões sobre os milhões de mortos e a hecatombe que estava a um passo de nós (uma semana, um mês) arrefece, face à realidade observada, ganhou força o campeonato das comparações dos diferentes países para demonstrações de teses previamente escolhidas.

Vamos então por partes.

O fundamento teórico das medidas tomadas está, essencialmente neste parágrafo:

"The dichotomy expressed by this condition has an interesting “knife-edge” quality to it when R0 is close to 1. In particular, suppose we have a branching process where R0 is very slightly below 1, and we increase the contagion probability p by a little bit; the result could push R0 above 1, suddenly resulting in a positive probability of an enormous outbreak. The same effect can happen in the reverse direction as well, where slightly reducing the contagiousness of a disease to push R0 below 1 can eliminate the risk of a large epidemic. And since R0 is the product of p and k, small changes in the number of people k that each person comes into contact with can also have a large effect when R0 is near 1. "

Traduzindo, se a probabilidade de uma pessoa infectar outra for reduzida (e isso poderia ser conseguido por redução de contactos, diz a matemática, tem dúvidas a sociologia), então podemos reduzir a velocidade de propagação e, eventualmente, extinguir essa propagação se conseguirmos reduzir essa probabilidade para baixo de um valor tal que cada pessoa infectada só infecte menos que outra pessoa (se cada pessoa infectar outra, a epidemia mantem-se latente, sem surtos relevantes).

Este resultado, a paragem de um surto por esta via, teria como consequência manter a população de não infectados a um nível que permitiria um novo surto posterior, o que só se consegue resolver com a infecção de uma parte relevante da população (que não sabemos qual é, matematicamente são os 60 a 70% que têm sido referidos, mas as sociedades não são uniformes, nem contactam uniformemente, e portanto socialmente pode ser bastante menos) ou com programas de vacinação (os tais 60 a 70% são úteis para desenhar os programas de vacinação porque não é preciso vacinar toda a gente, é apenas preciso vacinar uma percentagem suficientemente grande da população para que não exista continuidade na cadeia de contágio).

O que sabemos, na práctica, está numa citação que já tenho feito.

"NPIs alone are unlikely to prevent or contain a pandemic, as they do not affect susceptibility to, or infectivity from, viral infection. It is for this reason that, if NPIs are discontinued prematurely, infection may quickly return to its normal transmission patterns, leaving the ultimate impact of the outbreak unchanged. However, if implemented properly, NPIs have the potential to delay and flatten pandemic peaks in a way that reduces mortality and alleviates stress on the health care system."

NPIs são medidas não farmacêuticas, essencialmente a distância social, mas também as medidas de protecção individual, à cabeça a mais eficaz de todas: lavar as mãos.

O que interessa é a ideia de que estas medidas, o que conseguem, é atrasar o pico da infecção, e com isso torná-lo mais baixo, para o trazer para dentro da capacidade de encaixe dos serviços de saúde.

Trata-se de resolver a incapacidade dos serviços de saúde darem resposta adequada a um pico de afluência de doentes, em lado nenhum existe qualquer ideia sustentada de que este tipo de medidas, embora matematicamente possam ser tão eficazes que poderiam parar o surto, consigam, na realidade, parar um surto ou influenciar a sua dimensão ou a mortalidade (com a tal excepção da mortalidade devida à incapacidade dos serviços de saúde darem resposta) porque as pessoas e as sociedades são o que são e não o que cabe na matemática. Reforçando a ideia: "NPIs alone ... do not affect susceptibility to, or infectivity from, viral infection".

Mas então como se explica a diferença de impacto de país para país? Como se explica a diferença na dimensão do ataque infeccioso de país para país?

Não sabemos. Neste momento, não sabemos. Tal como não sabemos o que explica as diferentes intensidades do surto e do seu impacto entre diferentes regiões dos mesmos países.

E não é a comparação da evolução da epidemia em diferentes países, com explicações pontuais para cada país, que nos vai levar a explicar o que hoje não sabemos: precisamos de tempo e dados para compreender.

Tal como os clínicos estão a hoje a começar a conseguir definir padrões mais finos sobre as razões para que a mesma doença evolua de formas radicalmente diferentes entre pacientes que, aparentemente, têm a mesma idade e condição física.

É cedo para sabermos tudo, para compreender melhor.

Como candidamente explicava uma responsável por um dos países europeus menos atingido pela doença, a Noruega: "The FHI also estimated for the first time on Monday that around 14,000 people in total may be carrying the virus in Norway, or 0.26% of the population. “It is good news. It shows the restrictions have worked,” Camilla Stoltenberg, the head of the institute, told public broadcaster NRK. “(But) we don’t know which specific measures worked.”

E é nesse contexto de incerteza que vai ser preciso tomar decisões e que foi preciso tomar decisões.

Dizem-me que na dúvida, mais vale ser mais prudente que menos, aplicando o princípio da precaução.

Há anos que, a propósito das políticas de conservação, eu repito que o primeiro critério na aplicação do princípio da precaução é aplicá-lo ao princípio da precaução: não podemos maximizar a precaução em relação a uma incerteza (neste caso, a incerteza sanitária) descurando por completo as outras incertezas que resultam das medidas que adoptarmos.

Quando os australianos introduziram raposas na Austrália para controlar a praga de coelhos (uma espécie invasora na Austrália) porque na Europa são predadoras eficazes de coelhos, criaram um desastre ecológico: rapidamente as raposas perceberam que era muito mais fácil apanhar presas de espécies locais pouco adaptadas à predação por raposa, pondo em risco algumas espécies autóctones e deixando os coelhos em paz.



5 comentários

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De Eremita a 16.04.2020 às 19:45

Qualquer pessoa que fosse seguir o princípio da precaução teria recorrido a medidas de isolamento sem precedentes, como as que foram tomadas em muitos países. Os seus comentários iniciais, cheios de certezas sem qualquer fundamento, são um exemplo de imprudência. Os dois casos de maior sucesso na contenção da epidemia são a China e a Coreia do Sul, que fizeram o que nenhum país europeu foi capaz de fazer. São exemplos que figurarão nos livros de texto. Deve até ser possível traçar uma correlação entre a eficácia das medidas de isolamento e a confiança/temor que os cidadãos têm nas instituições. Enfim, antes o Henrique era só  certezas e bazófia. Agora espalha dúvidas sobre tudo, escreve coisas vagas e recomenda prudência. É mesmo preciso ter uma grande lata ou acreditar que os eus leitores são desmemoriados. Tenho pena de não haver a modalidade olímpica de "back peddling", porque o Henrique chegaria ao pódio.


Revisão da matéria dada: já percebeu a diferença entre a COVID-19 e a gripe? E a propósito, tem os números de mortes devido à gripe em Espanha ou os seus números são os de 1918-20? É que os números deste século são muito interessantes. 
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De henrique pereira dos santos a 16.04.2020 às 19:59

A Coreia não adoptou nenhumas medidas de confinamento generalizado
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De Eremita a 16.04.2020 às 20:14

Uma resposta sua típica. Pega apenas naquilo  a que julga saber responder,  tenta marcar pontosresponde mal. A Coreia do Sul adoptou duas estratégias: testes em massa e rastreamento recorrendo à geolocalização dos telemóveis. É irrelevante saber se a medida foi uma quarentena clássica ou o que os coreanos fizeram porque em qualquer dos casos estamos a falar de NPIs. 
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De henrique pereira dos santos a 16.04.2020 às 21:36

Agradeço-lhe o fair play de reconhecer que a Coreia não usou "medidas de isolamento sem precendentes".
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De Eremita a 16.04.2020 às 22:17

Henrique, não seja pateta. Na Coreia a epidemia acabou por causa das medidas de contenção extremas. Se quer ganhar a bicicleta porque não se tratou de "isolamento" extremo, parabéns, fique com essa brilhante vitória. Pensei que o seu texto era sobre as NPIs e esqueci-me que era sobre o seu ego. Mas nada muda no essencial e o facto de se concentrar em detalhes irrelevantes só prova que as suas "teses" são uma treta. Porque o exemplo da Coreia arruma com a sua tese. Deixe de escrever que "Isto não é Matemática" e que "Não sabemos". Quem não sabe nada é o Henrique. Quando julga saber alguma coisa, como sucedeu com o seu precipitado texto a propósito dos 14% de uma povoação na Alemanha, percebeu-se dias depois que não estava apenas errado mas muito errado. Quando lhe explico a diferença entre a gripe e a COVID-19, nunca reage, não sei se por ainda não ter percebido as diferenças essenciais ou por lhe custar admitir que não tinha pensado muito no assunto. O meu conselho é simples: abandone de vez essa sua tese absurda de que o confinamento/rastreamento/testes não leva ao achatamento em vez de nos oferecer um espectáculo deprimente de ajustamento à realidade em que não admite que escreveu uma série de asneiras e tem a lata de se fazer passar por uma pessoa muito sensata que até recomenda o princípio da precaução. Há limites para o ridículo.  

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