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Não há pequenos almoços grátis

por henrique pereira dos santos, em 04.10.19

O título deste post é de um slide que uso frequentemente nas apresentações que faço, ligando imagens de pequenos almoços com as paisagens que resultam das produções que lhes podem estar associadas (vincando como podem ser diferentes se os métodos de produção forem diferentes, apesar do produto ser o mesmo).

Ontem fui experimentar um cabaz de peixe (também sou utlizador dos cabazes da fruta feia, que têm como objectivo reduzir o desperdício alimentar, ao contrário deste do peixe que visa encurtar os circuitos de comercialização, ligando directamente produtores e consumidores).

Por razões que não interessam, resolvir tratar de dar destino ao cabaz inteiro entre ontem e hoje, e mais logo ainda espero fazer uns carapaus de escabeche que se aguentarão bem durante bastantes dias.

Do resto fiz várias coisas, e acabei a filetar um peixe espada preto, com a consequente produção de lixo (espinhas, pele, etc.), a que se juntou o outro lixo semelhante do outro peixe.

Juntei esse lixo todo e fiz uma caldo de peixe catita, que comi parcialmente hoje ao pequeno almoço, juntando uns restos de pão velho e um meio copito de vinho que tinha sobrado antes, isto é, fiz um belíssimo pequeno almoço, nutricionalmente equilibradíssimo e muitíssimo mais sustentável que o iogurte com banana que o senhor Presidente da República diz que todos os dias come ao pequeno almoço. Também mais sustentável que a esmagadora maioria dos pequenos almoços que hoje são a opção dominante, quer usem lacticínios, quer usem frutos secos e cereais processados, mesmo sem lacticínios.

Claro que isto tem custos, sobretudo em trabalho e conhecimento: há anos nem me passaria pela cabeça olhar para um peixe espada e pensar nuns filetes no forno "à bulhão pato" (com azeite, alho e coentros, para ser mais preciso) já que havia por lá uns coentros quase a ir para o lixo (como vai 20 a 30% da produção mundial de alimentos).

O que mudou foi o resultado do meu trabalho com o António Alexandre, que me permitiu aprender a olhar para muito lixo como matéria prima, ou seja, o meu conhecimento sobre como aproveitar comida, sabendo que isso implica mais trabalho da minha parte e muito mais risco (às vezes realmente a coisa sai mesmo mal). E me permite hoje saber que sou capaz de fazer uns pezinhos de coentrada, se estiver para aí virado. Há anos eu estava na posição de dois miúdos com que me cruzei no supermecado quando um deles tentava convencer o outro, sem sucesso, de que era possível fazer maionaise em casa, em vez de a comprar.

Durante anos o meu padrão de gastos em refeições era garantir que não custavam mais de 70 cêntimos por cabeça (era o máximo, não era a média), o que nem sequer é difícil, mas claro que não havia cá bifes ou postas de peixe, tudo era transformado e feito render no meio das coisas baratas: batatas, arroz, massa, feijão, coisas dessas. Por causa disso, muitos dos amigos dos meus filhos conheciam um arroz no forno frequente lá em casa. O que eles não sabiam era a quantidade de carne ordinária, gorduras e cartilagens que estavam a comer, mesmo os mais esquisitinhos com as gorduras no prato e, mais que isso, nunca sonharam que o sabor daquilo, bastante apreciado, estava exactamente ligado à minha necessidade de aproveitar ao máximo aquela carne, o que implicava não a servir inteira, porque metade iria para o lixo, depois de rejeitado tudo o que não fosse músculo.

Na minha geração é bem possível que nos lembremos, os que viveram uma infância burguesa e urbana q.b. como a minha, que a chegada de um prato de forno à mesa era sinal de dia de festa, por oposição aos fritos, cozidos e estufados do dia a dia. Mudámos esse padrão de consumo, em consequência da alteração dos termos de troca, a mão de obra era barata e a energia era cara, o exacto inverso do que hoje me permite usar o forno para aproveitar os alimentos mais ricos, mantendo a frugalidade, mas me faz evitar outras coisas pelo trabalhão que me dariam a fazer.

Por tudo isto, cometendo o erro de generalizar a partir da minha experiência directa, cada vez me parece mais útil que as matérias ambientais que são ensinadas nas escolas (muitas vezes com erros inacreditáveis nos manuais escolares, como acontece em temas como os eucaliptos, os fogos, as áreas protegidas, etc.) bem poderiam ser substituídas por aulas de cozinha e sustentabilidade, para os miúdos perderem o medo de experimentar, aprenderem a usar partes marginais de produções nobres, saberem como lidar com produtos de época menos habituais, valorizarem as produções de oportunidade, saberem o que significam as suas escolhas e terem a base técnica que lhes permita tirar partido da frugalidade, deixando os excessos para os poucos dias de festa.

Na verdade, lembrei-me disto tudo ao ver a manchete do Público de hoje, um grande espanto por afinal as rendas de casa estarem altas, por escassez de oferta. Ao fim de quatro anos a malhar no sector da habitação, atacando os potenciais investidores de qualquer maneira, que resultado seria de esperar, se não este?

É como o problema da comida: se não se tem informação, se nem sequer se percebe como funcionam as coisas, qual é a surpresa de alguém achar que é uma grande coisa deixar de comer carne de vaca, mantendo a ausência de qualquer preocupação com o desperdício alimentar e os métodos de produção de alimentos?

Boas soluções, de maneira geral, exigem informação e bom senso, o que significa estudar, aprender, ganhar capacidade para fazer, tudo coisas que se opõem ao pensamento mágico que hoje domina boa parte das discussões sobre sustentabilidade e políticas ambientais.

Não admira que de maneira geral as políticas sejam más e os resultados sejam sempre muito mais fracos que os esperados.

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1 comentário

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De Luís Lavoura a 04.10.2019 às 11:42

atacando os potenciais investidores [no setor da habitação] de qualquer maneira

Os investidores, em geral, não estão a ser atacados. Pelo contrário, alguns investidores estão a ser beneficiados. Por exemplo, se o investidor fôr um brasileiro ou chinês que invista mais de meio milhão numa habitação, leva como prémio um visto perpétuo para entrar em Portugal. Se investir numa habitação para arrendamento local, é beneficiado pois exerce uma atividade hoteleira sem no entanto estar sujeito aos padrões e regulamentos dos hoteis (por exemplo, o hotel é obrigado a recolher e separar o lixo dos clientes, enquanto que o empresário do alojamento local diz aos clientes para depositarem o seu lixo a esmo nos caixotes que encontrem na rua).

Portanto, o problema não é que os investidores em geral sejam atacados, o problema, como sempre em Portugal, é termos um Estado fraco que não aplica regras uniformes, antes beneficiado uns e prejudicando outros.

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