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Não é ele, são os outros

por henrique pereira dos santos, em 14.04.21

Quando Guterres ganhou as eleições, em 1995, fez um governo de coligação PS/ independentes.

Nessa altura Elisa Ferreira fazia parte dos independentes e José Sócrates fazia parte do aparelho do PS e, como acontecia em vários ministérios, a tensão entre os independentes e o aparelho do PS era alta, e era gerida com pinças pela cúpula do PS e do governo.

Em muitos ministérios os independentes eram ministros, mas na verdade não escolhiam integralmente os seus secretários de Estado, pelo contrário, tinham secretários de Estado que estavam ali para reestabelecer o equilíbrio entre PS e independentes (e, aparentemente, também para serem controleiros dos ministros).

No caso desse Ministério, Elisa Ferreira fazia questão de marcar a sua independência, trazendo Ricardo Magalhães, em que depositava confiança pessoal, como seu secretário de Estado a quem atribuiu todas as competências mais relevantes do Ministério à época (água, conservação da natureza, etc.), e a José Sócrates atribuiu a posição formal de secretário de Estado adjunto, ou seja, a segunda figura do ministério, ao mesmo tempo que lhe dava competências em matérias que, na altura, eram marginais (resíduos, defesa do consumidor, etc.) ao ponto do próprio se intitular a si próprio como o "Zé das Sobras".

Elisa Ferreira nomeou para a presidência do ICN Teresa Andresen e isso teve um resultado inesperado: eu fui nomeado vice-presidente do ICN, o que me levou a ser uma testemunha relativamente próxima dos métodos de actuação de José Sócrates, mesmo que o meu secretário de Estado de tutela fosse Ricardo Magalhães e não Sócrates.

Uma pequena história ajuda a perceber a natureza das coisas.

Sócrates estava profundamente empenhado na co-incineração dos resíduos nas cimenteiras e uma das cimenteiras ficava (e fica) localizada no Parque Natural da Arrábida.

O director da área protegida fez umas declarações moderadíssimas sobre o assunto: se houvesse decisões de nível nacional sobre o assunto não caberia ao director da área protegida ter opinião sobre o assunto, mas estritamente do ponto de vista da área protegida, preferiria que a co-incineração fosse feitas noutras cimenteiras e não na que se localizava na Arrábida.

Sócrates, a braços com a contestação do movimento ambientalista à co-incineração - inicialmente Sócrates foi apoiado pelo movimento ambientalista na gestão dos resíduos, mas a opinião depois mudou - considerou estas declarações inaceitáveis (punham em causa a ideia de que a incineração era inócua e não tinha qualquer problema ambiental) mas não tinha tutela directa sobre o ICN e estava em permanente conflito com a ministra e os independentes para ganhar espaço político (o que sempre fez com enorme eficácia).

Esperou pelas férias da ministra, nas quais assumia o papel formal de ministro em substituição, para chamar ao seu gabinete, sem dar conhecimento à cadeia hierárquica, o director da área protegida, para o destratar e ameaçar (escuso-me a pormenores, a forma como Sócrates tratava os seus subordinados, a quem exigia fidelidade absoluta, é do conhecimento público) com o objectivo de condicionar a sua opinião e eventual decisão numa matéria a que Sócrates dava importância política.

As questões formais, a lei, a decência ou a mera urbanidade no tratamento eram, para Sócrates, meros pormenores sem qualquer relevância face ao seu ganho político (não falo dos outros, não tenho informação concreta sobre isso) em cada situação.

Se eu, um mero subalterno sem ligação funcional directa (e que sempre procurei manter uma distância higiénica de Sócrates e do seu círculo próximo, muito influente na área da conservação da natureza em que sempre trabalhei), sabia perfeitamente quais eram os métodos de actuação de Sócrates e a forma como sempre tratou as pessoas (primeiro tentando seduzi-las para os seus pontos de vista, em falhando, tentando comprá-las, em falhando, ameaçando e perseguindo), e de como as regras, a lei e a decência se submetiam sistematicamente aos seus objectivos pessoais, como é que os outros, todos os outros que lidavam todos os dias com ele, anos seguidos, não sabiam de nada e nunca perceberam os riscos institucionais associados à atribuição de poder a uma pessoa que agia sem o menor respeito por o que quer que achasse um obstáculo para os seus objectivos?

A lei e a justiça são importantes, claro, mas antes disso a questão está em perceber que raio de pessoas e que raio de princípios seguem as pessoas que durante anos seguiram Sócrates, sabendo perfeitamente quem era e como actuava?

Eles, como eu, sabiam perfeitamente que a enorme eficácia política de Sócrates - é dos melhores nisso - assentava na sua amoralidade e na forma como lhe era completamente indiferente a forma como obtinha ganho político, desde que o obtivesse, o que nos distingue é que eu valorizo mais os meios que os resultados, ao contrário dos apoiantes de Sócrates que sempre desvalorizaram os meios, desde que os resultados lhes parecessem bons.



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