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Moçambique

por henrique pereira dos santos, em 28.05.24

Se me obrigarem mesmo a dizer onde é a minha terra, provavelmente acabarei a dizer que é Moçambique.

Não nasci lá (nasci em Angola) e saí de lá cedo, com 14 anos mas, ainda assim, tudo pesado e medido, acho que, a ter de escolher, diria que é essa a minha terra.

Por acaso, não por qualquer espécie de nostalgia (em rigor, a minha terra não existe, há outro mundo no mesmo sítio do mundo em que vivi), os últimos três livros que li relacionam-se com Moçambique.

Sobre o primeiro, "Torna-viagem", de José Pimentel Teixeira, que pode ser encontrado aqui (foi editado em print on demand) já lhe fiz aqui referência, quando ainda estava no princípio, mas reitero que vale a leitura, é um testemunho que resulta da recolha e selecção de textos escritos ao longo de 25 anos, com variações de temas e até de estilo, com muita coisa interessante.

Sobre o segundo, que comprei por acaso, não tenho muito a dizer por me faltar bagagem para saber se é bom ou mau (eu gostei de ler), "Breve história de Moçambique", de Malyn Newitt. Tem muita informação que gostei de conhecer ("Caroline Brettel escreveu sobre tais trabalhadores contratados: ... "aqueles que partiam para as fazendas brasileiras eram mal alimentados, tratados como escravos e castigados como cães". Os trabalhadores das plantações podiam ser punidos com chicote ou palmatória". Não se pense que se está a falar de africanos escravizados, mas dos que são aqui apresentados "Entre 1890 e 1920, setecentos e cinquenta mil portugueses partiram para o Brasil, enquanto outros 170 mil foram para a América").

O terceiro são textos curtos, quase crónicas, sobretudo autobiográficas, de Nuno Quadros "Antes que a gente morra" de quem nasceu em Moçambique, saiu e entrou e saiu e entrou e saiu, abrangendo um largo período dos anos sessenta até hoje.

Comprei-o na sua apresentação, na Feira do Livro do ano passado, não conheço o autor, fui à apresentação por me interessar o assunto e por ter visto referências do autor do primeiro livro que citei, José Pimentel Teixeira, que encontrei nas redes sociais e que nunca tinha visto em carne e osso, antes dessa apresentação na Feira do Livro.

As possibilidades que hoje existem permitem que qualquer pessoa dê testemunho da sua vida, quando acha que interessa pelo menos aos aimgos, fixando esses testemunhos em livros.

Eu acho isso útil agora para quem escreve, para quem lê agora e para os que um dia venham a ler mais tarde, permite pontos de vista únicos sobre lugares e tempos que entretanto desaparecem.

E, no fundo, um livro é tão barato.


9 comentários

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De cela.e.sela a 29.05.2024 às 08:56

a história contemporânea a que assisti parece ter sido escrita por ET.
nunca sai da Europa nem os meus familiares.
nos reservados da BNP «queixas dos Emigrantes a Costa Cabral, embaixador no Brasil --'fomos embarcados como GADO'.
tem interesse ler Gilberto Freyre 
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De balio a 29.05.2024 às 10:02


Se me obrigarem mesmo a dizer onde é a minha terra, provavelmente acabarei a dizer que é Moçambique.


Duas questões:


(1) O Henrique já regressou a Moçambique desde que lá saiu aquando da descolonização, era então um adolescente?


(2) Sendo Moçambique a sua terra, encara a possibilidade de, quando se reformar, ir para lá viver ou, pelo menos, ir passar lá uma parte significativa (digamos, dois meses por ano) do seu tempo?


O meu pai sempre amou profundamente a sua terra (uma aldeia da Bairrada). E, de facto, quando se reformou passou lá longas temporadas (talvez uns três meses por ano). Mas nunca conseguiu dar o passo decisivo e mudar-se para lá em definitivo. Aquela aldeia era a terra dele... mas, verdadeiramente, já não era. Ele já estava demasiadamente formatado a Lisboa.
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De Anónimo a 29.05.2024 às 12:59

O seu pai pôde, certamente, regressar inúmeras vezes ao "lar", à sua terra natal, sem sentir nela grande estranheza, como se fosse uma outra terra onde já não se reconhece e à qual deixou de "pertencer", por ter estado sujeita a fragmentações violentas ou a grandes convulsões sociais, políticas, etc. A terra de seu pai mudou naturalmente como tudo vai mudando aos poucos e adaptando-se à evolução do tempo e às transformações que ele sempre vai trazendo gradualmente.
O mesmo não aconteceu em Moçambique: o mundo de ontem não se reconhece no de hoje. 

 Atrevo-me, com mil perdões, a adiantar que a hipotética resposta do HPS à sua pergunta seria esta (e faço minhas as palavras dele):
«em rigor, a minha terra não existe, há outro mundo no mesmo sítio do mundo em que vivi».

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De balio a 29.05.2024 às 14:51


em rigor, a minha terra não existe, há outro mundo no mesmo sítio do mundo em que vivi


Certo. A frase essencial nesta é "a minha terra não existe". Ou seja, na verdade, o Henrique não é de terra nenhuma...



(Isto supondo, claro, que essa seria de facto a resposta do Henrique.)


(Eu não desejava nem desejo que o Henrique responda explicitamente às minhas perguntas. Elas destinam-se somente a fazê-lo pensar. A fazer-nos a todos pensar.)
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De Anónimo a 29.05.2024 às 11:53


A sua experiência de África é bastante idêntica à minha e em idade semelhante.
Foi sempre um pouco frustrante nunca ter conseguido transmitir aos mais próximos, nem à descendência como foi viver a infância e adolescência em Moçambique nos anos 60-70. Para não me sentir dispersa, sentia necessidade de reter os tons luzentes e vivos das minhas memórias e parecia-me que a melhor maneira de as segurar seria transferi-las para as "afixar" nos outros _ erro meu: emoções e experiências em 1ª mão são intransmissíveis.
 As cores, como eu temia, foram esmorecendo com o tempo. A esta distância, dou comigo, por vezes, a pensar que tudo me parece irreal, mais do domínio do onírico e quase perco a certeza de algum dia ter vivido ali realmente. 
Ainda assim alguma coisa estará gravada algures e aqui ficou presadeixando marcas nem sei onde... Talvez esses livros ajudem a trazer de volta a realidade e a juntar o tempo disperso. 


(O autor Nuno Quadros provavelmente estará ligado a uma família Quadros no Norte de Moçambique e cujo patriarca _se não me falha a memória_ era irmão da poetisa Fernanda de Castro, casada com António Ferro.)


https://delagoabayworld.wordpress.com/category/pessoas/nuno-quadros/
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De Anónimo a 29.05.2024 às 13:16

Todos juntos: pretos, brancos, mestiços, indianos, gente  de todos os credos...

 https://arquivos.rtp.pt/conteudos/visita-de-marcelo-caetano-a-lourenco-marques/
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De balio a 29.05.2024 às 14:57


Todos juntos: pretos, brancos, mestiços, indianos


Também não poucos chineses e árabes.


Cá em Portugal conheci uma portuguesa de raça chinesa que era oriunda de uma família refugiada de Moçambique. Ela disse-me que havia lá bastantes pessoas de etnia chinesa à altura da independência.


Também conheci um muçulmano de origem árabe (não indiana), vindo de uma família portuguesa de Moçambique.


Devido a estar virado ao Índico, e devido a ter uma população muito maior, Moçambique teria provavelmente bastante maior variedade de raças do que Angola.
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De henrique pereira dos santos a 29.05.2024 às 16:02

Sim, é o mais novo desses Quadros
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De Anónimo a 29.05.2024 às 15:35

A quem interessar, um excelente arquivo sobre Moçambique:


https://delagoabayworld.wordpress.com/about/

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