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Minha querida família

por João Távora, em 10.10.15

Wall familia canta 1906.jpg

Nunca ninguém garantiu que a liberdade, a escolaridade e a prosperidade democratizassem o sentido de responsabilidade ou o bom senso. Vem isto a propósito de um fenómeno que o "inverno demográfico" esconde: se é previsível que daqui a dez ou quinze anos tenhamos metade das escolas ao abandono, mais graves serão as consequências duma  crise que se adivinha na "família" como célula mãe da sociedade, capaz de corroer de forma dramática os alicerces da nossa civilização. 

Sou daqueles que teve a sorte de crescer numa família tradicional - sem dúvida um espaço alicerçado no equilíbrio entre a tolerância e repressão - daquelas com abrangência alargada, com casa dos avós, tios, primos e tudo; como que um mosaico de pequenas comunidades, mais ou menos interligadas numa rede de solidariedade, afectos e partilha de história comum - e que de forma decisiva em tempos me socorreu. É certo que para que este antigo e eficaz modelo se generalizasse na sociedade contemporânea, concorreu uma equívoca mistificação do casamento romântico na geração dos nossos pais: O casamento tradicional foi-lhes "vendido" por Hollywood como um conto happily ever after e resultou num estrondoso baby boom. Completamente fora de moda por estes dias, denúnciada a família como “instituição burguesa,decadente e repressora” pela geração do Maio de 68, não se prevê que eu tenha grande sucesso explicando-o aos meus filhos como instituição ligada à responsabilidade, ao altruísmo, à perseverança e ao prazer diferido. A verdade não vende, como não ganha eleições. 

Como bem sabemos, cada vez há menos casamentos, no sentido da formação de novas “casas”, modelo de sucesso comprovado inspirado na aristocracia liberal europeia. Consta que no ano passado, das poucas crianças nascidas, mais de metade terão sido fora do casamento. Por exemplo, durante o ano de 2014 na paróquia do Monte da Caparica na margem sul do Tejo – sei bem que é um microcosmos algo especial - realizaram-se apenas quatro casamentos católicos. Curioso como no meio conservador que frequento também são cada vez mais raros os sinais de cedência dos jovens a esse modelo, sendo frequentes as relações amorosas "liberais" prolongadas, assumidas com um pé dentro e com outro fora da casa dos pais – julgam que obtêm assim o melhor dos dois mundos. Por ironia trata-se do reconhecimento de como a casa de família que alguém edificou e mantém para eles, é afinal útil e virtuosa instituição como seu último reduto de refúgio e reconhecimento, apesar de votada à extinção.

Temo que estejamos a criar uma sociedade de indivíduos isolados e frágeis com pertenças difusas, precárias ou inexistentes até. A família como eu conheci, como um organismo intermédio, projecto perene, crivo cultural com história própria, território protector do grande monstro igualitário da cultura dominante para a formação de seres críticos e livres, atravessa uma grave crise. Essa família que ainda hoje acolhe os deambulantes jovens adultos, quais eternos filhos pródigos que adiam assumir as suas opções e uma realização plena, por troca dum prato de lentilhas ou um smartphone de última geração, símbolo da sua “liberdade individual”. Se calhar ao definir este fenómeno como se de uma crise se tratasse, estarei a ser optimista. Porque esse termo por definição designa algo passageiro – e eu estou longe de pressentir alguma mudança no rumo da história.  

 

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7 comentários

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De Ali Kath a 10.10.2015 às 22:48

meu pai morreu quando tinha 5 meses.
Minha Mãe voltou a casar com um viúvo com filhos.
por razões escolares vivi 3 anos com meus avós maternos.
depois começou a minha peregrinação por 7 liceus ao longo das vias férreas, 3 universidades no rectângulo, 2 estrangeiras.
sinto-me privilegiado por ter vivido em lares onde dava gosto viver.
actualmente assiste-se a decadência da sociedade: onde os valores se depositam na bancas e os filhos foram egoisticamente substituidos por cães e gatos, futuro promissor do estado social.
aos 84 deixo com pena um filho (minha mulher não pôde ter mais), uma 2ª mulher, um irmã, uma sobrinha.
lembro-me sempre da frase atribuida à 1/2 austríaca D. Maria da Glória 'triste herança deixo ao Meu Pedro'


'mudam-se os tempos, mudam-se as vontades'
sou frequentemente abordado, apesar de 'fora do prazo de validade' e do horror à promiscuidade física (ao entrar em casa lavo as manitas em 1º lugar por deformação profissional)
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De Anónimo a 11.10.2015 às 10:29

O Távora e o Ali Khat no anúncio nº 4289774 do fim da civilização. Nada de novo.
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De Barata de Tovar a 11.10.2015 às 17:37

João Távora,
Não sei se entendi o seu texto. Nunca como agora houve tanta inter-ajuda e solidariedade entre famílias. Mais do que isso, nunca houve tão boas famílias como agora e filhos tão bem educados e preocupados com o seu semelhante, com mais ou menos "smartphones". Serei talvez um pouco mais velho do que o João e lembro-me que nunca foi hábito generalizado nas famílias mais conservadoras, por exemplo, as que conheço melhor, os pais terem conversas à mesa com os filhos ou preocuparem-se com as suas dificuldades. E sei também que o mesmo acontecia nas famílias mais populares. Tanto filho sem pai, ora porque não os tinham, ora porque estavam emigrados, tanta violência doméstica, tanto alcoolismo, e tantos velhos lançados à caridade ou despejados nas enxovias imundas a que chamavam "asilos de velhos".... 
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De João Távora a 11.10.2015 às 19:38

Lamento que não entenda a minha escrita, defeito meu certamente Rui Barata de Tovar.


Cordeais cumprimentos.
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De Barata de Tovar a 11.10.2015 às 21:43

Claro que percebi a sua escrita, meu caro; é um texto em português escorreito. O que eu não entendo é onde vai retirar as conclusões que tira. Na minha idade já se vai tendo alguma perspectiva das coisas e acredite que as relações familiares, não sendo perfeitas, nunca foram tão bem como agora, da mesma forma que as pessoas nunca foram tão civilizadas como agora, garanto-lhe. 
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De João Távora a 12.10.2015 às 16:29

A instituição familiar continua hoje a dar provas da sua importância crucial e estruturante, sou bem explicito nisso. 
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De Barata de Tovar a 13.10.2015 às 20:57

O João Távora é explicito é a dizer que a família está em risco e trata os jovens como desmiolados e os pais idem, todos numa espécie de girândola de prazer. Já assisti a sermões dominicais do género, por parte de padres mais tradicionalistas ou mais "carismáticos", e não gostei. Pois eu digo e repito que tenho cada vez mais orgulho nas gerações mais novas do que a minha, nos jovens, nas crianças, nos seus jovens pais, no cuidado com que acompanham os filhos, na escola, em casa, coisa que raramente se via nas gerações anteriores, como a minha e de meus Pais, na generalidade e com honrosas excepções. Eramos um país boçal, analfabeto e iletrado, total ou funcionalmente, mesmo entre as classes altas, descuidado para com os seus filhos e os mais velhos, frequentemente falhos de afeto, num ciclo que se perpetuava. Não tome a sua família, que acredito que fosse excelente, como o modelo do país. Gosto muito mais do meu País, e sobretudo das pessoas, agora.

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