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Miguelista fiel e íntegro

por Daniel Santos Sousa, em 30.08.23

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Um "miguelista dissidente" de antes quebrar que torcer, tão arreigado à causa legitimista como crítico de um tempo que perdia as certezas, no que Daudet chamava "le Stupide XIXe Siècle". Quem sentir curiosidade por um fidalgo da casa real, homem profundamente culto e espírito guerreiro, que até aos 90 anos de idade permaneceu miguelista ferrenho, fiel à bandeira branca da tradição, que jamais abandonou a causa do seu rei, pode aqui conhecer o que é a verticalidade do carácter contra os usurários do regime.

António Ribeiro Saraiva é a inteligência ligada à honra, mas também erudição, capacidade de trabalho, resistência e integridade. Foi poeta de notável estripe (companheiro poético de nomes maiores como Feliciano Castilho nos tempos de Coimbra), jurista, político e jornalista de renome. Nas convulsões da guerra civil foi diplomata que não esgotou energia, mesmo depois da tragédia de Évora Monte, para defender a legitimidade de D. Miguel.

Foi testemunha de um século de estupidez e revoluções, o qual olhou com lucidez profunda e erudição invejável. Nos seus textos recordava como Portugal tivera a mais perfeita das constituições, produto de séculos e de gerações e que só por ignorância se podia atacar um miguelista como anti-constitucional quando o que preconizavam era a defesa da verdadeira constituição do reino. Nas premissas essenciais reclinava-se para os fundamentos da escola histórica e para a doutrina do constitucionalismo britânico.

Como Edmund Burke defendia que a Constituição inglesa era a melhor porque produto dos séculos, da história e da tradição, também Saraiva analisa a constituição histórica portuguesa na sua completa originalidade, pois que "os ingleses nunca se deixaram cair nos absurdos, nem de se porem a fazer uma Constituição(...)", escreve em carta a Sebastião de Almeida e Brito.

Afinal, um miguelista na defesa das constituições históricas do reino poderia reivindicar uma mesma acepção de que a sociedade é sem dúvida um contrato entre aqueles que já viveram, os que estão vivos e os que estão para nascer. Noutras palavras, sublinha Ribeiro Saraiva em carta a Servio Fabricio Junior, "a nossa nobre e antiga Constituição, posta em sua prática e pristino vigor, com as demais Instituições, a ella consentaneas, tão sabias, tão antigas, tao belas(...)". A génese do conservadorismo português está mais no miguelismo do que na partidocracia do constitucionalismo liberal. Em circunstâncias mais benignas e equilibradas o miguelismo poderia ter evoluído para uma espécie de "partido Tory", ou mais consentâneo seria dizer, o "partido constitucional velho português" como outro contemporâneo miguelista, José Martiniano Vieira invocou lembrando que "todo o realista é verdadeiramente constitucional". 

António Ribeiro Saraiva morreu no exílio em Inglaterra, onde ainda hoje se encontra sepultado, recusando-se a aceitar uma linha dinástica que acusava de usurpadora. Viveu até ao fim da vida longe da pátria que tanto amou, mas mantendo-se fiel à bandeira pela qual toda vida teceu armas em nome das três verdades vencidas: Deus, Pátria e Rei.


7 comentários

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De Anónimo a 30.08.2023 às 20:53

13-03-1835:


« ... eu fiquei olhando para o fogo e aumentando-se-me mais e mais a tristeza, até que exclamei: "Oh Deus! como estou triste! Quanto melhor me fôra nunca ter vindo fora do meu país!" e se me arrasaram os olhos de lágrimas. »
Do Diário (1915)



Hoje havemos de chorar por estar dentro de um país que já não é de portugueses.
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De Partebilhas a 30.08.2023 às 23:02

Excelente texto.

Porém e na minha opinião, não há referências ao apoio  da maçonaria ao movimento liberal e jacobino encabeçado por Pedro I do Brasil quando provocou uma medonha guerra civil para colocar no trono de Portugal uma princesa brasileira.

 

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De passante a 31.08.2023 às 00:38

Obrigado por ensinar as verdades soterradas pelo entulho que nos despejam em cima.


Com os anos, aprendi a desconfiar de "libertadores", sobretudo quando invadem à cabeça de um exército de mercenários estrangeiros. Mas é a ortodoxia que temos, e temo que "truth is the daughter of time" seja um sentimento piedoso, e estejamos condenados a camadas sucessivas de mentiras interesseiras.
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De margarida palma a 31.08.2023 às 01:17


Ribeiro Saraiva é uma figura muitíssimo interessante. Miguelista sempre, não se inibe de criticar o Rei e o seu comportamento com implacável coragem - para compreendermos o ambiente da época e o desapontamento dos realistas com o rumo que o governo seguia e procedimento do jovem monarca, é preciosa a sua descrição da ida ao palácio de Queluz, vindo de Inglaterra, chamado com urgência por correligionários para falar com D. Miguel no intuito de lhe abrir os olhos para erros que estavam a ser cometidos .A sua desilusão é partilhada, por exemplo pelo Duque de Cadaval, que entretanto abandonara o governo - tudo isto nos conta Ribeiro Saraiva nas suas Memórias, de leitura imprescindível para quem quer entender este tempo longínquo. Depois virá a guerra, o exílio, a estadia em Roma, a relação nem sempre pacífica com o Papa... e mais tarde D. Miguel surge em Inglaterra, já com a imagem do príncipe exemplar que os seus partidários irão conservar , e Ribeiro Saraiva irá gabar-se de ter construído essa nova imagem. Teria sido assim? Talvez, simplesmente, tivessem passado as verduras da mocidade, quem sabe? De qualquer modo, "àquela Monarquia" que poderia ter sido, Ribeiro Saraiva foi sempre fiel e nunca aceitou a outra, a que foi, apesar de serem grandes os reis que se seguiram. 
Muito obrigada pelo seu texto, por recordar este homem notável.
 P.S.  Já agora  - D. Maria II era portuguesa, portuguesa nasceu e portuguesa morreu, tão nova!     
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De balio a 31.08.2023 às 16:09


a tragédia de Évora Monte


Évora Monte é a localidade onde foi assinada a concessão (que D. Miguel, mal chegado ao exílio, prontamente transformou, mentirosamente, em "convenção") pelo qual D. Pedro, magnanimamente, em vez de tratar D. Miguel e os seus soldados e oficiais como traidores, fazendo passar alguns deles pelas armas, como seria normal naquele tempo, lhes concedeu a liberdade de irem às suas vidas, e em particular concedeu a D. Miguel a liberdade de se exilar, com a condição (que D. Miguel, traiçoeiramente, prontamente renegou, mal chegou ao exílio) de não continuarem a conspirar contra a legítima realeza da sua filha D. Maria.


Ou seja, para D. Miguel Évora-Monte não foi nenhuma tragédia, mas sim uma salvação, um indulto. Em vez de ser fuzilado, foi-lhe permitido ir em paz para o estrangeiro.


É bom que a história seja corretamente escrita, e não falsificada. Em Évora-Monte as tropas de D. Miguel estavam já completamente vencidas e incapazes de resistir; o seu líder não negociou uma convenção, antes lhe foi concedida uma graça.
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De João-Afonso Machado a 31.08.2023 às 19:09

Balio não diga disparates.  Evoramonte fioi o fim da guerra civil


Leia sff o II volume di Portugal Contemporâneo di Oliveira Martins. 
Cumprimentos 
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De balio a 01.09.2023 às 09:40


Pior a emenda que o soneto: agora, "o fim da guerra civil" foi uma "tragédia".


O que eu digo é: Évora Monte não foi, ao contrário do que está escrito no post, tragédia nenhuma. Foi o fim gracioso de uma guerra civil, na qual o vencedor concedeu, magnanimamente, ao vencido a graça de ir em liberdade para o exílio.

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