Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Miguel Esteves Cardoso, a minha homenagem

por João Távora, em 31.10.23

MEC.jpeg

Se eu fosse um bom escritor, ou simplesmente um escritor de sucesso, se começasse a ser alvo de muitas homenagens, ficava desconfiado. Ia logo fazer um check up ao hospital e dobrava o valor do meu seguro de vida. Digo isto a propósito das homenagens que ultimamente se vêm fazendo ao Miguel Esteves Cardoso (MEC); primeiro em Abril com o Grande Prémio de Crónica e Dispersos Literários, da Associação Portuguesa de Escritores e mais recentemente no fim de semana passado, no Festival Escritarias em Penafiel, onde lhe foi prestada uma justa homenagem, acontecimento que o Bruno Vieira Amaral descreve nesta divertida crónica. Tenho para mim que, merecedor de homenagem é qualquer escritor que, em Portugal, tenha vivido da escrita uma vida inteira.

Estava eu em plena adolescência quando o MEC despontou nos jornais. Tomei contacto com as suas crónicas primeiro na revista Música & Som finais dos anos 70 e algum tempo mais tarde no jornal Sete. Além de desvendar à rapaziada cá do burgo pérolas desconhecidas da Pop anglo-saxónica, fazia-o com uma inaudita irreverência, que a sua escrita elegante salientava. O seu estilo, bem-humorado, desavergonhadamente auto-referencial, era pleno de sarcasmo e de assumidas contradições. Era uma linguagem que caia bem a um miúdo de 17/18 anos como eu e, mais importante, era uma pedrada no charco do estilo cinzento e demasiado formal que as redacções progressistas traziam agarradas do tempo do Estado Novo. Quase todos os artistas a quem MEC teceu loas e jurou amor eterno foram esquecidos pela implacável passagem do tempo. Era afinal só música Pop.

Depois veio o Expresso, o sucesso da coluna “A Causa das Coisas”, que em tempos de alguma prosperidade, da generalização da TV a cores foi abraçada fanaticamente por uma recém-chegada burguesia sôfrega por novas referências estéticas e comportamentais, entediada da interminável revolução, definitivamente sem amanhã e sem cantares. Veio o tempo de O Independente, que desvendava uma direita em T-shirt e calças de ganga, que chegou com o sucesso do Rock Português e do Herman José, e muitos liberais em mangas de camisa recém-licenciados – estava enterrada a revolução e era permitido aos “reaccionários” finalmente entrar na festa, beber uns copos e dançar no Bananas ou no 2001. Desses tempos alucinantes, guardo com especial saudade a campanha Eleitoral que o MEC protagonizou em 1987 como cabeça de lista do PPM por um lugar no Parlamento Europeu. Apesar da sua total falta carisma na rua e de jeito em frente às câmaras de televisão, a sua eleição esteve por um fio com os votos nas cidades. Foi uma campanha alegre, que teve por mérito tirar a gravata e o bigode retorcido ao cliché dos monárquicos cuja mensagem nesses dias passou bem-humorada e rejuvenescida. A ideia de monarquia também pode ser Pop.

Confesso que comprava quase todas as semanas o jornal O Independente e ainda hoje guardo uma colecção completa da revista K, tenho na minha estante várias colectâneas de crónicas que convidei os meus filhos a ler, e no Natal passado deleitei-me a folhear a edição revista e aumentada da Escrítica Pop. Mas nas últimas décadas deixei de seguir o MEC, cuja escrita deixou de me interessar. Confesso que esperava muito mais desta estrela da minha juventude, que acabou por se parecer demasiado com a maioria das estrelas Pop que se esquecem, na melhor das hipóteses em duas gerações. Desconfio que o nome de um grande escritor só sobrevive se mergulhou nos incontornáveis temas da tragédia humana.

Dizem que a culpa da desilusão é de quem se deixa iludir, e eu concordo. O que é certo é que as horas de prazer de leitura que o MEC me concedeu, essas, a mim ninguém me tira. Estou convencido de que um niilista como o MEC não se chocaria nada com esta minha perspectiva.

Obrigado por tudo, Miguel.


29 comentários

Sem imagem de perfil

De Impronunciável a 31.10.2023 às 19:26

Foi na conversa da sua época, que estava na moda, de que Descartes tinha errado.

Foi o «corpo» que o derrotou.

Refugiou-se no «corpo» como um panegirico, como uma espiritualidade.

Confundiu o corpo com o espírito.

Sem imagem de perfil

De Ricardo a 01.11.2023 às 08:24

Há sempre uma especie de estado de espírito,inclusive quando sentado no wc de uma qualquer redação(ou de cócoras na mata do Buçaco).
Sem imagem de perfil

De Agite-se agite-se a 31.10.2023 às 20:44

Tout passe,tout casse tout lasse.
Porque é que o rapazinho seria diferente?
Entristece-me ver a sofreguidão com que tenta ser diferente em tudo o que lhe apresentam para brilhar.
É já modo de vida, ninguém escapa aos efeitos da 2ª Lei da Termodinâmica.
Sem imagem de perfil

De passante a 01.11.2023 às 00:47

tenta ser diferente


Nunca lhe ocorreu não ser progressista. Era blasfémia a mais, desde para aí o século XVIII não há conservador empedernido que não trabalhe para o progresso.
Sem imagem de perfil

De Cá não há bar a 01.11.2023 às 08:11

Exactamestes e completamestes.
Sem imagem de perfil

De César a 31.10.2023 às 20:52

O João e eu devemos ser da mesma geração. Além de sermos monárquicos, presumo que conservador e, last but not least e para provocar " graças a Deus não nasci lampião".
Lembro- me bem desses tempos. Dos fantásticos anos 80, das crónicas mordazes e profundamente satíricas mas com elegância, da 'Causa das Coisas"  de " Os meus problemas" e outros. Livros que ainda tenho e revisito para me rir.
Um tempo onde pensar não era proibido nem emitir uma opinião metia os ofendidinhos por tudo à beira de um ataque de nervos. Bons tempos. Abraço.
Sem imagem de perfil

De Impronunciável a 31.10.2023 às 20:59

Não é verdade. Nascer Benfiquista é um Bem Sagrado, uma Benção Redentora.

Sem imagem de perfil

De César a 31.10.2023 às 21:35

Lampiões? Não obrigado. Tinha desgosto
Sem imagem de perfil

De Bilder a 01.11.2023 às 08:17

Tem que entrar sempre a bola ao barulho? Sinais dos tempos. 
Sem imagem de perfil

De César a 01.11.2023 às 10:13

Entra o que eu quiser. O comentário é meu. Não gosta...come só as batatas ou deita-se ao largo. Passar bem
Sem imagem de perfil

De Cá não há bar a 01.11.2023 às 10:39

A ementa de hoje é então bola com batatas? Se forem fritas escolho só as batatas que tenho problemas de digestão.
Sem imagem de perfil

De Impronunciável a 31.10.2023 às 21:07

O problema das "palavras", é irem sempre dar ao "nada" da vida. Só através do impronuncialismo se pode dominá-las com algum proveito.
Sem imagem de perfil

De Cá não há bar a 01.11.2023 às 08:28

E com o tal impronuncial-ismo o que acontece a todos os outros ismos??
Sem imagem de perfil

De Impronunciável a 01.11.2023 às 09:48

1 – Desaparecem.

2 – Porque no Impronuncialismo desaparece a «categoria da Diferença» (os sinais distinção para nomear e descrever o real/existência, que constroem a percepção e a cognição da espécie humana).

3 – O Impronunciável … é. É, no silêncio de si, apenas. Está para além da evidência, e permanecerá para além de cada fim individual ou coletivo. Antecede o significado. E impossibilita ser totalmente captado pelo pensamento. O que o define, ou representa, é sempre uma ofensa que se lhe faz.

Sem imagem de perfil

De Anastácio Quintela a 31.10.2023 às 21:52

"nesta divertida crónica"
Faltou acrescentar: "Paga".
Imagem de perfil

De Costa a 31.10.2023 às 23:13

Uma lástima, BVA ter içado a bandeira branca perante o repugnante, indefensável e ilegal AO90. Foi então que o deixei de ler. Acontece que a forma também conta. 
Como pude agora, de novo, comprovar.
Sem imagem de perfil

De Ricardo a 01.11.2023 às 08:33

A forma conta sempre, especialmente quando o conteùdo não presta.
Sem imagem de perfil

De Impronunciável a 01.11.2023 às 03:52

O novo – o que há-de ter a próximahomenagem” – fará como as palavras o mesmo dos que o antecederam.

Dirá aquilo que ainda não foi dito.

Como se todos os ditos não dissessem o mesmo, por outras palavras.

Sem imagem de perfil

De Bilder a 01.11.2023 às 08:14

Uma espécie de baralhar para voltar a dar. 
Sem imagem de perfil

De Impronunciável a 01.11.2023 às 08:18

Que nós damos, a nós-mesmos, na ilusão de de nós sairmos.
Sem imagem de perfil

De Impronunciável a 01.11.2023 às 04:18

As palavras – enquanto forem o encadeado do “antes, agora, depois” – nunca dirão nada que não seja o tudo, e o inverso.

Serão sempre o verbo que necessitará de “princípio, meio e fim”.

Serão sempre o mesmo substantivo, que adjetivará seja o que fôr.

Caídas na plurissignificação, condenadas à polissemia, nunca conseguirão deixar de ser “humanas”. De nos terem inventado.

Sem imagem de perfil

De Ricardo a 01.11.2023 às 07:50

No princípio era o verbo...
Sem imagem de perfil

De Impronunciável a 01.11.2023 às 08:16

É exactamente essa, a nossa prisão nelas.
Sem imagem de perfil

De Impronunciável a 01.11.2023 às 08:42

... enquanto forem o encadeado do “antes, agora, depois” (as letras por esta ordem, e não por aquela)...
Sem imagem de perfil

De urinator a 01.11.2023 às 08:55

dizem que este idoso é judeu. até ver os antiIsrael andam a apalpar o terreno
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 01.11.2023 às 09:06


Andou há dias na terra dos burros, Arrifana de Sousa, a passear na calçada a dizer que aquilo parecia Ox-qualquer-coisa. Foi difícil distinguir um culambista entre culambistas.
Que fazer, o engranxanço tem destas coisas!

Comentar post


Pág. 1/2



Corta-fitas

Inaugurações, implosões, panegíricos e vitupérios.

Contacte-nos: bloguecortafitas(arroba)gmail.com



Notícias

A Batalha
D. Notícias
D. Económico
Expresso
iOnline
J. Negócios
TVI24
JornalEconómico
Global
Público
SIC-Notícias
TSF
Observador

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • henrique pereira dos santos

    Percebeu mal. Devemos viver da justa remuneração d...

  • Anónimo

    Se bem percebi devemos viver de esmolas, dada pelo...

  • Anónimo

    Grato pelas informaçõesMuito Obrigado

  • Anónimo

    Para avivar a nossa memória, aqui vai um texto que...

  • Anónimo

    Por outras palavras É mas é como se Não fosse.Mas ...


Links

Muito nossos

  •  
  • Outros blogs

  •  
  •  
  • Links úteis


    Arquivo

    1. 2026
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2025
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2024
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2023
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2022
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2021
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2020
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2019
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2018
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2017
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2016
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2015
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D
    157. 2014
    158. J
    159. F
    160. M
    161. A
    162. M
    163. J
    164. J
    165. A
    166. S
    167. O
    168. N
    169. D
    170. 2013
    171. J
    172. F
    173. M
    174. A
    175. M
    176. J
    177. J
    178. A
    179. S
    180. O
    181. N
    182. D
    183. 2012
    184. J
    185. F
    186. M
    187. A
    188. M
    189. J
    190. J
    191. A
    192. S
    193. O
    194. N
    195. D
    196. 2011
    197. J
    198. F
    199. M
    200. A
    201. M
    202. J
    203. J
    204. A
    205. S
    206. O
    207. N
    208. D
    209. 2010
    210. J
    211. F
    212. M
    213. A
    214. M
    215. J
    216. J
    217. A
    218. S
    219. O
    220. N
    221. D
    222. 2009
    223. J
    224. F
    225. M
    226. A
    227. M
    228. J
    229. J
    230. A
    231. S
    232. O
    233. N
    234. D
    235. 2008
    236. J
    237. F
    238. M
    239. A
    240. M
    241. J
    242. J
    243. A
    244. S
    245. O
    246. N
    247. D
    248. 2007
    249. J
    250. F
    251. M
    252. A
    253. M
    254. J
    255. J
    256. A
    257. S
    258. O
    259. N
    260. D
    261. 2006
    262. J
    263. F
    264. M
    265. A
    266. M
    267. J
    268. J
    269. A
    270. S
    271. O
    272. N
    273. D