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Meter notícias nos jornais

por henrique pereira dos santos, em 28.09.17

"Não é de bom-tom estar a meter notícias nos jornais com especulações sobre a vida interna do partido".

O extraordinário nesta frase de Rui Rio não é a sua relação com as questões internas do PSD, mas a naturalidade com que se encara a ideia de "meter" notícias nos jornais.

Claro que todos os jornais do mundo publicam coisas que lhes são trazidas pelas mais variadas pessoas ou instituições, isso é razoavelmente normal.

O que se espera é que a escolha de publicar ou não, de investigar ou não, o que chega à secretária do jornalista seja uma opção livre do jornalista, orientada pela sua ideia de interesse jornalístico e pelo escrutínio dos factos.

O exemplo que motivou o comentário de Rui Rio é, desse ponto de vista, muito elucidativo sobre a forma lamentável como os jornais portugueses trabalham (são os que conheço, provavelmente é uma questão geral no mundo), tanto mais que sobre esse assunto vi primeiro uma coisa no Observador, no dia seguinte mais ou menos a mesma coisa no Público e vi um título do Expresso que parecia apontar no mesmo sentido, ou seja, parece ser um assunto de interesse generalizado.

É mais ou menos indiferente se Rui Rio está ou não em campanha para mandar no PSD, se ganha ou perde essa guerra e por aí fora: o que for se verá e especular antes dos factos não tem qualquer interesse de especial (tal como a onda de comentários e afirmações sobre os resultados das autárquicas e seus efeitos futuros, antes de ocorrerem, apenas baseados em sondagens).

O que é relevante é que o tipo de coisas que vi nos jornais eram um conjunto de afirmações feitas por jornalistas, baseados em fontes anónimas com potencial interesse directo no assunto.

Não está em causa se é verdade ou não o que dizem essas peças, isso ver-se-á no futuro e, mais que isso, mesmo sendo verdade no futuro, nem sequer é linear que seja verdade hoje, mas sim o facto dos leitores serem impedidos de verdadeiramente fazer um juízo autónomo sobre o assunto na medida em que não sabem se quem segreda isto, ou quem segreda o contrário, o faz por ser uma fonte realmente independente ou até, dizendo o contrário do que seria o seu interesse, porque está convencida de que é verdade, ou o assessor de um dos interessados na matéria cujo objectivo seja mesmo condicionar o futuro "metendo" notícias nos jornais.

Todos os jornalistas que conheço são unânimes em reconhecer que o anonimato das fontes só é justificável quando a fonte pode correr riscos se for identificada (por um exemplo, um funcionário que relata um caso de abuso de poder do seu superior, um membro de um grupo criminoso que denuncia as actividades, etc.) e nunca, em caso algum, quando a fonte tem interesse pessoal directo na divulgação da informação (ou em moldar a forma como a informação chega ao público), como é o caso dos agentes políticos.

Eu sei qual é a resposta clássica dos jornalistas da área da política, em especial os que se especializaram no diz que disse dos bastidores políticos: se não respeitarmos o anonimato das fontes, não só não temos esta notícia em concreto, como ficamos em desvantagem em relação aos outros jornais para o futuro.

E, de qualquer maneira, dirão, não há grande problema porque os jornalistas não se prestam a fretes e não há razões para não ter confiança no que escrevem.

O problema deste argumento é que as regras existem exactamente para reduzir a possibilidade do jornalista ser enganado peas suas próprias convicções, tornando-o muito mais manipulável do que pensa.

E o meu problema é mesmo o de que não quero delegar no jornalista a confiança que reservo ao meu julgamento: eu tenho o direito a saber quem anda a dizer isto ou aquilo sobre os seus amigos e adversários para ser eu, e não o jornalista, a fazer o julgamento sobre a confiança que devo atribuir ao que é dito.

Como lembra bem esta citação, conhecer quem diz é tão importante como ouvir o que é dito: "“Aonde vos achais sei que dizeis sempre mal de mim; eu, pelo contrário, não perco ocasião de dizer louvores vossos: porém, quem a ambos nos conhecer, a nenhum de nós há-de dar crédito”.

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2 comentários

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De Anónimo a 28.09.2017 às 10:19

Contaram-me que existe um país em que uma fonte "altamente", muito bem colocada, informou que um banco ia fechar e que houve um canal de televisão que pôs a notícia no ar causando levantamentos massivos. E disseram-me que não está ninguém preso. Também me disseram que se alguém se referir a benesses de pessoas de certas etnias, o mundo da comunicação social entra em transe neurótico coletivo.
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De tric.Lebanon a 28.09.2017 às 21:36

a noticia foi colocada pelos passistas...para se fazerem de vitimas...ainda por cima, no Observador!!! mais passista não existe...

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