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"Melões à Famalicão"

por João-Afonso Machado, em 25.07.14

As gentes de Barcelos dos saudosos tempos rurais da minha Avó falavam muito da extensão dos meloais nas suas terras: a perder de vista, sempre propensos à gulodice de visitantes nocturnos, na mira de levarem consigo o produto do esforço dos seus cultivadores. Daí a vigilância posta neles – maravilha do Faroeste minhoto! – em altos palanques e armas de fogo de carregar pela boca, prontas a disparar sobre os intrusos. Nessa altura, não aprendera ainda a gostar de melões, mas achava-os indispensáveis a uma região assim aventureiramente parecida com a América e todas as peripécias que nesta, e na minha imaginação de infante, ocorriam. Entre malandrins e assaltantes e toscas paliçadas defensivas.

Nos dias de hoje, o que está a dar são os desconchavos perpetrados em inarticuladas caixas multibanco… Até ver, os meloais poderão, por isso, dormir tranquilamente. O mais certo, aliás, é serem agora de dimensões assaz menores. Tanto quanto cresceu o meu apetite por melões e a possibilidade de o satisfazer mediante honestas aquisições por essas bermas de estrada fora.

Adiante. Remonta também a quase três décadas a minha amizade com o Aires Mesquita. (Isto ainda a propósito de melões). Frequentámos então o mesmo curso de empresários agrícolas, conquanto só ele se tenha mantido fiel à prática dessa religião. Eu debandei outras paragens profissionais, seguramente mais tolas, e o nosso reencontro num qualquer dos últimos verões, ficou logo assinalado pela amável oferta de um soberbo melão seu. Não sem que antes me contasse todas as peripécias e o sucesso da sua exploração. O Aires permaneceu um homem simples, conversador e desprendido, um triunfador na sua serena resistência de lavrador. Talvez não exactamente por necessidade material, certo é, a partir de Julho, ir gozando a sombra dos arvoredos de Sinçães, junto à Biblioteca Municipal, onde todos os dias um atrelado dos seus tractores exporta melões para as mãos de quem já sabe onde os encontrar da melhor qualidade.

Apraz-me constatar a agricultura minhota – em especial a famalicense – tem raízes para persistir e caules para ramificar. E no vagar da minha conversa com o Aires Mesquita fui lendo confiança no futuro dos lavradores a sério ou, se quiserem, dos nossos empresários agrícolas com cabeça – sobretudo com cabeça… - tronco e membros.

Nas cercanias da cidade, para os lados de Gavião, moram os seus hectares de cultivo – uma mão cheia deles. Creio não errar – o negócio reluz entre melões e vinhos comme il faut (e eu afianço). Com espaço, sempre, para tardes prolongadas de cavaqueira amena em roda do seu atrelado, quando ali passo, a caminho da Biblioteca, recordando os divertidos momentos vividos no nosso curso, os colegas dessa epopeia decorrida entre o Sameiro e a Apúlia, catorze semanas de algumas inesquecíveis histórias.

Porque insisto tanto nos melões do Aires? Porque prezo a amizade e os amigos que vou mantendo. Mas, também, porque admiro a lhaneza e a tenacidade dos homens da lavoura. Esses que não foram em cantos de sereia e não fecharam as portas das suas explorações. E souberam, entretanto, ler os sinais do tempo e adaptar-se. Assim folheando agora resultados palpáveis, coerentes, a consentirem-lhes viver condignamente. Se calhar, muito acima do bem-estar médio da generalidade de nós. Merecem-no! Pelo seu louvável esforço em manter a terra e valorizá-la, como se impõe a qualquer proprietário que se preze.

 

(Da rúbrica De Torna Viagem, in Cidade Hoje de 24.JUL.2014).

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