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Medidas não farmacêuticas

por henrique pereira dos santos, em 11.05.20

"NPIs alone are unlikely to prevent or contain a pandemic, as they do not affect susceptibility to, or infectivity from, viral infection. It is for this reason that, if NPIs are discontinued prematurely, infection may quickly return to its normal transmission patterns, leaving the ultimate impact of the outbreak unchanged. However, if implemented properly, NPIs have the potential to delay and flatten pandemic peaks in a way that reduces mortality and alleviates stress on the health care system."

Esta citação, que tenho usado em vários posts (se não me engano) sintetiza o que era o consenso científico sobre as medidas não farmacêuticas antes dos ventos de loucura tomarem de assalto as sociedades ocidentais.

Dentro deste consenso reconheciam-se os limites das medidas não farmacêuticas - em caso algum servem para prevenir ou conter pandemias - mas admitia-se que se aplicadas correctamente, tinham potencial para diminuir o pico da epidemia e, por essa via, evitar a sobrecarga dos serviços de saúde e as mortes por falta de resposta destes serviços.

Note-se que as medidas não farmacêuticas são imensas e imensamente variadas, desde as comprovadamente mais eficazes, como lavar as mãos, desinfectar superfícies e isolar doentes, até às novidades nunca testadas e cuja eficácia ninguém demonstrou até hoje (modelações não são demonstrações) como o sequestro generalizado de populações saudáveis em casa.

Mais recentemente, uma série de modelações matemáticas (nunca demonstradas empiricamente), admitem que se possa suprimir um surto tomando medidas de confinamento generalizado que permitam uma redução de contactos sociais por volta dos 70 a 80%.

Apesar de em lado nenhum estar demonstrado que tenha havido uma redução de contactos sociais desta dimensão - os indícios mais favoráveis apontam para reduções de mobilidade na ordem dos 80%, em algumas circunstâncias, o que está longe de corresponder a redução de contactos sociais da ordem dos 80 a 70% - (adenda, há de facto este estudo que não é um estudo de mobilidade)mais um conjunto de modelações e interpretações de dados sugerem que foi assim que se limitaram os surtos europeus, apesar das variações regionais de incidência parecerem apontar noutros sentidos.

Por essa razão e com base no pressuposto do consenso acima - if NPIs are discontinued prematurely, infection may quickly return to its normal transmission patterns, leaving the ultimate impact of the outbreak unchanged - quase todos os países estão a fazer desconfinamentos cheios de cautelas e restrições, como se pode ver aqui, nesta peça do Observador.

Para se observarem efeitos deste desconfinamento nos números de casos são precisos mais ou menos 7 a 10 dias, e duas semanas para se verificarem na mortalidade.

A verdade é que há vários países europeus com medidas relevantes de desconfinamento tomadas já a meio de Abril e nada, rigorosamente nada, nos seus dados sugere um "quickly return to its normal transmission patterns".

Mais relevante ainda são as diferenças hilariantes do desconfinamento progressivo de país para país, sem que se perceba qualquer lógica sólida de identificação de medidas que se estima terem menos ou mais impactos, em muitos países.

Nos países que não tratam os seus cidadãos como crianças que precisam de ser protegidas com horários diferenciados para sair de casa - as regras espanholas são talvez o maior absurdo que consegui ver - fazem-se análises e produz-se informação, serenamente, como na Noruega, em que a autoridade de saúde admite, agora, que o fecho de escolas possa ter piorado e não melhorado a evolução da epidemia.

Pois mesmo assim, porque há uns senhores muito importantes que resolvem dizer que mais vale mais segurança que menos segurança, esquecendo-se que cada medida que reforça a segurança num lado aumenta a insegurança noutro e que cabe ao poder legítimo ponderar as decisões em função de tudo o que está em causa e não apenas de um objectivo que já não se sabe qual é, continuamos nisto de inventar patetices sobre patetices por causa das dúvidas existenciais desses senhores.

Eu até percebo quem defende que a tecnocracia é mais segura que a democracia, preferindo que António Costa se demita, de facto, das suas funções para as entregar a um qualquer Baltazar Nunes, o que me faz mesmo confusão são os outros, os que aceitam qualquer coisa que lhes queiram vender como segurança, como obrigar as creches a ter as camas dos meninos separadas por dois metros, sem que alguém explique o verdadeiro fundamento técnico dessa medida e qual a base para se admitir que as creches são um grande foco de infecção de uma doença que praticamente não afecta as crianças.

Esta resignação, esta anomia, eu não entendo e só aceito porque não tenho outro remédio se não aceitar que "nascer entre brutos, viver entre brutos e morrer entre brutos é triste".



7 comentários

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De Anónimo a 11.05.2020 às 12:31

Em tempos ouvi alguém dizer que todos nós somos filhos de Salazar.
Mas, já lá vai tanto tempo!
Será que nos ficou um gene? Ou alguém se está a aproveitar de quem espera e acredita tudo dos pais da nação?!
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De Luís Lavoura a 11.05.2020 às 12:47

Os nossos governantes estão a funcionar de modo totalmente auto-contraditório.

Uma política coerente reconheceria que é essencial construir a imunidade de grupo e que, portanto, agora que o pico inicial da epidemia foi aplanado e que se constatou que o serviço de saúde não colapsou, se deveria agora relaxar totalmente o confinamento, para que toda a gente se pudesse infetar.

Em vez disso, estão a seguir uma política sem sentido a sem futuro de procurar evitar que seja quem fôr se infete!

Eu diria que, atualmente, as infeções são boas e desejáveis e devem ser ativamente promovidas, para que as pessoas possam ir construindo as suas imunidades.
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De António Pires a 11.05.2020 às 15:34

 estão a seguir uma política sem sentido a sem futuro de procurar evitar que seja quem fôr se infete!



Inteiramente de acordo. O próprio discurso reinante ("proteger as pessoas"), em governantes e papagaios das televisões, vai nesse sentido. Como se as pessoas fossem protegidas por decretos e não por vacinas.
Só haveria que proteger os grupos de risco. 
Porém, quanto mais cuidadores nos lares de terceira idade tiverem sido infectados e posteriormente recuperado, assumindo que terão ficado imunes e enquanto estiverem imunes, melhor será a protecção dos utentes dos lares. Eles constituem uma blindagem à penetração do virus nos lares.

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De Luís Lavoura a 11.05.2020 às 16:10

Só haveria que proteger os grupos de risco.

Teoricamente, estou de acordo.

Porém, há que reconhecer que é muito difícil proteger (da contaminação) os grupos de risco sem proteger toda a sociedade. Isto porque as pessoas dos grupos de risco habitam, em grande parte, no meio das outras todas. Ademais, na nossa sociedade muito unida em torno da família, é normal filhos e pais interatuarem diariamente com avós. Quase todos nós estamos frequentemente, quando não mesmo diariamente, com pessoas idosas e/ou doentes da nossa família próxima.

Há muitas pessoas jovens ou de meia idade em Portugal que, de forma muito consciente e realista, não se querem infetar, não por sua causa, mas porque querem poder continuar a partilhar os dias com os seus pais ou avós.
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De António Pires a 11.05.2020 às 20:47

É uma questão de liberdade.
Eu não reconheço a nenhum governo autoridade para me impor um determinado comportamento para proteger a minha saúde. Podem aconselhar. Mas quem decide se me encontro com os meus filhos e netos sou eu.
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De Anónimo a 11.05.2020 às 13:07

rodrigo da fonseca magalhães, a raposa
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De Anónimo a 12.05.2020 às 18:08


"Nos países que não tratam os seus cidadãos como crianças...".
Não seria mais simples e eficiente os poderes públicos abrirem as praias e outros locais de lazer, apenas lembrando os cidadãos de que se a praia estiver cheia quando lá chegar, pura e simplesmente, procure outro local de lazer?.
Na Suecia resulta. Porque não em Portugal?.

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