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MEC lobista imprudente

por Vasco M. Rosa, em 28.03.14

Miguel Esteves Cardoso — que eu muito amo e admiro — cedeu hoje a fazer lobbing na sua crónica do Público pela Porto Editora, que o publica, pressionando directamente o SEC Jorge Barreto Xavier a conceder 225 000 € para a feira do livro na Invicta. 

Uma feira do livro é o maior negócio possível para os editores: vendem sem comissões de livreiros (35 ou mais %) nem (a 90% dos casos) recibo, pelo que recebem o IVA dos livros sem pagá-lo. É por isso um banquete para os grandes grupos editoriais concentrados e concentracionários (isto fica para depois mas é claro de ver!), que pela penúria do mercado parecem aflitos por ocasiões desse tipo, ainda por cima subsidiadas até ao tutano e além desse, como se a verdadeira vida livreira duma cidade se sustentasse durante um ano através desse balão (ou botija) de oxigénio que são duas ou três semanas de mercado ao ar livre, sem maiores despesas.

O que uma cidade precisa é de livrarias e de bibliotecas!!!!

Se a CMP e a SEC querem ajudar o Porto a ler mais, concedam facilidades fiscais a pequenos livreiros que queiram recuperar velhas e lindas lojas abandonadas, que a cidade do Poto providencialmente ainda tem. Além disso, com muito menos que 300 000 euros — ah, muito muito menos —, compravam excelentes livros, nacionais e estrangeiros (brasileiros, por exemplo, e por uma vez, sem exemplo...), coisa que todos sabemos não acontece de todo, ou acontece a patamares ou prateleiras mínimas.

O livro é um negócio. É risco, é indústria, e o MEC sabe como ninguém que não é a quantidade de livros que importa, antes a qualidade. Então, queridíssimo Miguel, o que deverias proclamar é a compra de livros muito muito bons para as bibliotecas do Grande Porto, e que os grandes grupos editoriais, um dos quais comprou a Assírio e Alvim para a espezinhar na sua exibição na feira do livro de Lisboa (sei que não viste esse ultraje!), se façam à vida com os meios que têm, os quais, sejamos sinceros, resultam no igualmente escandaloso monopólio diacrónico dos livros escolares. 

E uma pequena nota para protestar contra o que MEC chama «nacionalidade literária» — supondo que as editoras portuguesas valorizam clássicos nacionais. Meia dúzia de linhas e uma dúzia de nomes bastariam para exibir o flagelo e a indiferença que elas concedem aos grandes escritores portugueses.

Miguel, os teus «bons e informados amigos» não te deveriam enganar.

 

O grande abraço, de sempre,

Vasco

 

 

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