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"Mas tem de se fazer qualquer coisa"

por henrique pereira dos santos, em 21.03.20

Tenho ouvido este argumento vezes sem conta a propósito da epidemia actualmente em desenvolvimento.

Eu compreendo esta sensação de que perante um desastre temos de agir, é muito humana, é uma grande qualidade, mas quando tem utilidade fazer alguma coisa.

Quando a maré vaza é um erro nadar contra a corrente, o mais que podemos fazer é fincar os pés no chão, se for possível, ou nadar para o lado, para fugir da corrente, mas nadar contra a corrente só nos consome forças, sem qualquer utilidade.

Li hoje no Público o testemunho de uma família com um dos membros testado como positivo. Para meu espanto, estão a fazer todos os esforços para evitar o contágio dos restantes membros da família, e penso ser a indicação das autoridades, só que eu não entendo a vantagem de evitar o contágio dos restantes membros do agregado familiar, a menos que exista alguma condição médica específica de algum deles.

A não existir uma história clínica que coloque algum dos outros membros da família num grupo de risco, o mais racional seria que a família fizesse uma quarentena, com certeza, para evitar contágios de terceiros vulneráveis, mas que a fizessem em família, permitindo o contágio e a imunização de todos.

Este é um bom exemplo de como a falta de humildade de acharmos que controlamos o mundo nos pode levar à pura irracionalidade na gestão de uma epidemia que pode mais que nós.

É possível que em momentos iniciais de um surto se possa confiná-lo ou que se possa impedir a afectação de um país ou uma comunidade - temporariamente -, mas uma vez instalada a epidemia numa comunidade, a ideia de que podemos pará-la se tudo parar só é uma boa ideia em circunstâncias muito específicas.

Numa epidemia como a que está em desenvolvimento, de baixíssimo risco para pessoas abaixos dos cinquenta anos sem patologias associadas à respiração, e com uma definição bem clara dos grupos de risco, a opção por tentar parar o desenvolvimento da epidemia com medidas radicais como as italianas deve ser muito bem discutida, sem deixar que o medo tolde o raciocínio.

A Itália está fechada há onze dias e os resultados dessa opção não é visível nos números que vamos conhecendo, espera-se que ainda possa vir a ser no futuro. O que é visível nesses números é o progressivo abrandamento natural da epidemia, antes e depois dessas medidas. É natural que algumas medidas tomadas permitam diminuir a velocidade de propagação da doença, mas também é natural que a epidemia vá abrandando por si, as duas coisas estarão a actuar, sem que, neste momento, consigamos saber o peso relativo de cada uma na evolução da epidemia (a minha convicção é a de que a epidemia segue o seu curso, muito próximo do que seria sem grandes intervenções, mas só no fim disto tudo se poderá saber o que correu bem e mal).

As medidas que se justificam, nas circunstâncias que temos, são as de protecção rigorosa dos grupos de risco - o senhor Armando, que me vende os jornais e que com certeza está nos grupos de risco, embora não dos de mais alto risco, desconhecia, até ontem, que 70% das mortes são de homens, só para dar a noção de como não temos sido capazes de fazer chegar a informação aos tais grupos de risco, quanto mais acompanhá-los seriamente - e as que apresentam baixo custo económico e social, para um retorno elevado, como lavar as mãos frequentemente, reduzir contactos sociais, privilegiar o trabalho a partir de casa, evitar ou proibir aglomerações de mais de dez pessoas, etc., mas sabendo que a epidemia fará o seu caminho natural, com um rápido desenvolvimento inicial, um ponto de viragem e depois o seu desaparecimento progressivo (da epidemia, provavelmente não do vírus).

Então não podemos fazer nada nas próximas semanas?

Sim, podemos, proteger os grupos de risco e tratar, tanto quanto possível, os doentes.

Mas não podemos fazer nada para parar a epidemia?

Provavelmente não, o curso da epidemia é uma inevitabilidade e é mais que duvidoso que qualquer agravamento das medidas de confinamento das pessoas (incluindo as últimas que foram tomadas), altere o curso da epidemia, com o seu cortejo de sofrimento e morte inevitável.

Às vezes não tem mesmo de se fazer qualquer coisa perante a tragédia, tal como não perdemos tempo a parar o vento com as mãos.



9 comentários

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De Anónimo a 21.03.2020 às 18:26

o + importante é ter e manter boa saúde
ingerir proteínas animais e vegetais, vitaminas principalmente C, para manter a hemoglobina  próxima do valor máximo
a idade conta pouco
o vírus atacará no próximo outono
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De Anónimo a 21.03.2020 às 18:27


Pereira dos Santos,
como habitualmente uma muito boa prédica.
Tem que se compreender as 'simples' complexidades do fenómeno a que chamamos Vida (neste planeta). No início da minha idade adulta, criei a ideia de que a Vida é matéria inorgânica, desorganizada, que se passa a organizar.

Subscrevo que um agregado 'familiar' ou 'uni-residencial' deva permitir a disseminação 'interna' de qualquer infecção se os seus membros não tiverem altos riscos para com a decisão.
Se bem que com raízes e vidas profissionais bem diferentes, quase sempre concordo consigo. Se não concordar, o mais provável é que não o compreendi.
Abraço
ao
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De Anónimo a 21.03.2020 às 18:42

Será necessário comparar a taxa de aumento de infeções antes e após as medidas de quarentena a ver se vale a pena. 
Medidas como proibição de passear a mais de 200 m de casa (França e Itália) ou de proibir a deslocação para ir à pesca são irrelevantes e só geram stress... Ou procuram dar a sensação que se está a fazer alguma coisa...
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De Anónimo a 21.03.2020 às 21:24

Claro, e tal como na educacão, quando se trata de problemas de saúde temos 10 milhões de especialistas em saúde pública!
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De s o s a 21.03.2020 às 21:03

mesmo nao tendo percebido bem o paragrafo  em que a familia referida  permitiria o  seu contagio e assim adquiriam a imunizaçao, , apreciei a narrativa, a defesa de que a epidemia fará o seu percurso contra tudo e todos, pouco importanto  as barricadas levantadas. 
Portanto a epidemia é uma especie de barragem que rebenta , muita força no inicio, mas começa a morrer ( a força). 


Mesmo que pareça, nao  é ´meu intuito a ironia, mas se como uma manada de touros tresmalhados, inevitavelmente esmagavam quantos idosos  calcasse,  mas os nao idosos resistiriam e ate resultariam robustecidos. 


Até assumo o exemplo de parar o vento e isso, mas preciso, acho todos precisamos,  que seja o Poder a fazer o desenho. 
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De Luís Lavoura a 22.03.2020 às 11:10

A Itália está fechada há onze dias

Isto é falso. As fábricas italianas continuam a funcionar. Tal como, aliás, as portuguesas, em geral.

A China fechou tudo, incluindo as fábricas. A Itália, e a Europa, não.
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De zazie a 22.03.2020 às 18:34

E as outras doenças? e os acidentes? e quem precisa de fazer hemodiálise ou tratamento cancerígeno? Não acumula, porque fora o coronavirus é só saúde para toda a gente?


A dita imunidade de grupo aumenta com sacrifícios ainda maiores e mais caos e coisas como aquelas que nem se quer ver dos caixões em Bergamo?
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De zazie a 22.03.2020 às 18:38

Fazer alguma coisa é ganhar tempo até ao curso do bicho. Ganhar tempo para e lugar para tratar e vacina para prevenir.


Ganhar tempo para estudar o organismo dos que tiveram. Como é isso de ficar imune, ou se estamos a falar por comparação a coisas como sarampo e idênticas.
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De Anónimo a 23.03.2020 às 11:08

Caro Henrique, sou um grande apreciador dos seus posts! Deixo aqui um texto que considero bastante interessante sobre esta temática:


https://medium.com/@tomaspueyo/coronavirus-the-hammer-and-the-dance-be9337092b56

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