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Mas o dinheiro dos outros, sim

por José Mendonça da Cruz, em 21.11.16

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Olá, senhor contribuinte do Porto, de Vila Real, de Coimbra, de Castelo Branco, Coruche, Marvão, Beja, Portimão, Sagres, Marvão, Maçãs de D. Maria, Bragança, Góis, e Venda de Raparigas, olá senhor contribuinte de Lisboa, também: está contente? Está feliz da vida? Devia estar. Hoje o primeiro-ministro anunciou que os seus impostos -- a que ele chama o dinheiro «do Estado» -- servem para pagar a má gestão dos transportes de Lisboa, e que assim é que devia ser. Diz ele (que sabe muito melhor que vocês como usar o vosso dinheiro) que só por «fanatismo ideológico» ainda não fora assim, e que agora prevaleceu «o bom senso» dele.

Não estão felizes? Não acreditam? Então eu transcrevo do insuspeito e cada vez mais mainstream Observador:

 

O primeiro-ministro defendeu esta segunda-feira que a transferência da Carris para a Câmara de Lisboa mostra que o “bom senso prevaleceu sobre o fanatismo ideológico” e que o Estado não faz favor nenhum ao assumir a dívida existente.

“O Estado não faz nenhum favor, porque mantém-se responsável pelo que já é responsável, que é a dívida que criou”, afirmou António Costa, referindo-se ao valor que, no ano passado, ascendia a cerca de 700 milhões de euros. 

O primeiro-ministro intervinha na cerimónia da assinatura do memorando da passagem de gestão da rodoviária Carris para a Câmara Municipal de Lisboa, no Museu da Carris.

 

Perceberam? Não perceberam? Então eu traduzo:

O primeiro-ministro defendeu esta segunda-feira que a transferência da Carris para a Câmara de Lisboa mostra que prevaleceu o fanatismo ideológico e que o Estado não faz habilidade nenhuma ao assumir a dívida existente porque paga-a com o dinheiro dos impostos que sorve.

O Estado não faz esforço nenhum, porque mantém-se responsável pelo que já era responsável, que é a dívida que criou, e o dinheiro para a pagar não é meu, é dos contribuintes, afirmou António Costa, referindo-se ao valor que, no ano passado, ascendia a cerca de 700 milhões de euros. 

O primeiro-ministro intervinha na cerimónia da assinatura do memorando da passagem de gestão da rodoviária Carris para a Câmara Municipal de Lisboa, no Museu da Carris.

 

Então, felizes ainda? Sim? Não? Ou apetece-vos dizer como a criança a cujo pai António Faria assaltara a barca e roubara as galinhas que agora comia enquanto ia fazendo prédicas de beiços untados:  «Não cuides de mim, inda que me vejas menino, que sou tão parvo que possa cuidar que, roubando-me meu pai, me hajas a mim de tratar como filho.»

 

 

 



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