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Mas custa assim tanto?

por henrique pereira dos santos, em 15.04.24

A propósito do livro sobre identidade e família, alguém faz um elogio - não, não era concordância, era mesmo só o facto de ser interessante - ao texto de César das Neves e logo aparece outro alguém com uma fotografia de uma revista e a seguinte citação "Esta crise é uma oportunidade de bondade, de caridade e de solidariedade. Bendita crise que nos trouxe ao essencial".

O objectivo, como é bom de ver, era caracterizar César das Neves como um troglodita sem coração e sem respeito pelo sofrimento dos outros.

Conheço o suficiente de César das Neves (conheço-o pessoalmente, estou-lhe eternamento grato por umas discussões em que inclusivamente me fez um gráfico que usei na minha tese de doutoramento, não sou propriamente amigo dele, mas encontro-o socialmente em coisas de um dos meus irmãos que, esse sim, é bastante amigo dele) para saber que troglodita até posso compreender que lhe chamem, mas sem coração e sem respeito pelo sofrimentos dos outros, só desconhecendo totalmente o que escreve e diz publicamente.

Por isso perguntei qual era o contexto da frase.

Depois de alguma resistência, lá consegui o contexto da citação:

"o professor de Economia tem uma perspetiva positiva e considera mesmo que a crise pode ajudar-nos a “olhar para o verdadeiro Bem”: “Estávamos habituados a ver o Bem no sucesso económico, no dinheiro e na fama. Esta crise é uma oportunidade de bondade, de caridade e de solidariedade para com os outros. Bendita crise que nos trouxe ao essencial. As pessoas voltaram a olhar para os seus vizinhos, para a sua paróquia, para os mecanismos sociais… A família tinha deixado de ser importante e, agora, está a voltar a ser o lugar de ajuda mútua”

Resumindo, fiel ao registo frequentemente provocatório de César das Neves (para outros será apenas desassombrado), a frase, no seu contexto, elimina qualquer possibilidade de o caracterizar como alguém sem coração, sem respeito pelo sofrimento dos outros, obcecado com a mecânica da economia, independentemente das pessoas.

Mais, é uma argumentação que, podendo concordar-se ou não, em alguns aspectos, poderia ser subscrita pelos votantes e dirigentes do Bloco de Esquerda, na sua crítica a um capitalismo selvagem que aliena as pessoas, desviando-as do essencial para seguir bezerros de ouro.

O post não é sobre César das Neves, apenas o uso como exemplo de um modelo de discussão que campeia por aí, em especial nos jornais e na política (não são as redes sociais a baixar o nível, são as elites e os seus poderosos meios de comunicação de massas), que consiste em ouvir os outros, não para perceber os seus pontos de vista e os rebater, mas à procura de uma palavra, uma frase, um tom que me permita destruí-lo, independentemente do que o outro verdadeiramente pensa.

Custa assim tanto, sabendo que "a linguagem é uma fonte de mal entendidos", procurar nas palavras do outro o que verdadeiramente é o que ele pensa, em vez de usar as palavras, e a sua inerente ambiguidade, para distorcer o que o outro pensa de maneira a me ser mais fácil impor o meu ponto de vista?

Eu não vejo interesse nenhum em discutir argumentos que não existem na cabeça do outro, embora se possa encontrar uma interpretação do que ele diz para justificar a caracterização que interessa fazer do que ele pensa.

Fico sempre espantado com a quantidade de tempo e energia que tenho de perder a explicar a terceiros que o que eu penso é definido por mim e não por terceiros que se entretêem a explicar-me o que eu penso, a partir de interpretações criativas do que disse.


21 comentários

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De Anonimo a 15.04.2024 às 10:13


Ainda dizem que os portugueses não lêem. País em peso lê o livro "do Passos". Como sou o único que ainda não o li, não poderei opinar sobre o conteúdo.
O resto é o resto, dois grupos extremistas, que desprezam a sociedade ocidental actual, e que querem a toda a força (pela das armas, pela do silêncio, etc) moldá-la à sua imagem, sem qualquer possibilidade de desvio moral ou ideológico.
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De O apartidário a 15.04.2024 às 10:40


Mais um pertinente e interessante artigo no Observador 


https://observador.pt/opiniao/o-que-e-o-conservadorismo/
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De O apartidário a 15.04.2024 às 18:39

Um trecho do artigo acima linkado:


"O conservadorismo não é um sistema de pensamento articulado e global sem hesitações e dúvidas que tudo permita esclarecer por simples remissão para postulados tidos por certos e inquestionáveis. Nada disso. O conservadorismo não é bem uma ideologia que queira retirar da razão abstracta a reconstrução da vida humana, ao contrário das ideologias modernas. O conservadorismo é uma atitude de crítica, não de cepticismo, perante os resultados concretos dos sistemas de ideias políticas mais em voga; a candura optimista do liberalismo que conduziu à lei da selva, o marxismo que levou à criminalidade organizada e o socialismo democrático que conduziu ao terrorismo fiscal e à astenia da sociedade civil. Todos eles prometiam uma vida melhor e confiavam no progresso em nome de ideias infalíveis. Ficavam maravilhados com as avançadas democráticas e com as prodigiosas realizações da técnica e pensavam que a vida humana é um caminho auspicioso para uma espécie de paraíso terrestre no qual as contradições mais ásperas seriam resolvidas no regaço do bem-estar e da concórdia racional. Bastaria romper com a malvada ordem existente até então. O ponto mais alto desta vulgata é o marxismo com a substituição da lei da necessidade pela da liberdade num mundo colectivizado, igualitário e próspero. Mas também o liberalismo confia no bem-estar global resultante apenas das magníficas virtudes e talentos de cada um conducentes, mesmo que ele não dê por isso, ao benefício de todos. O pensamento socialista democrático, por sua vez, aposta num discurso pretensamente emancipatório que quer «libertar» a humanidade dos malefícios que as trevas do passado lhe causaram e que a burguesia hoje reproduz. Antes das luminárias esquerdistas só havia escuridão e a humanidade tem tudo a aprender com tão lustrosas cabeças nascidas para a luz. É preciso fazer tábua rasa do passado e confiar nos seus ensinamentos. Tudo isto não é senão teologia laicizada."
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De balio a 15.04.2024 às 10:54


A família tinha deixado de ser importante e, agora, está a voltar a ser o lugar de ajuda mútua


Sob o ponto de vista desta frase, a crise na habitação é bem vinda, porque força os filhos com 30 anos de idade a permanecerem em casa dos pais, ou a ela regressarem, desta forma reforçando os laços de entreajuda familiar.


Em geral, toda a pobreza material é boa, porque força as pessoas a pedir e dar ajuda.


Bem aventurados os pobres, porque deles é o Reino dos Céus.
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De henrique pereira dos santos a 15.04.2024 às 11:09

Muito obrigado pela demonstração prática do post
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De Anonimo a 15.04.2024 às 11:32

A caridade sempre foi mais "importante" que a solidariedade
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De Albino Manuel a 15.04.2024 às 12:23

Desta discussão toda sobre o livro a conclusão que retirei é simples: esse tipo de direita, beata e de sacristia, é minoritária no espaço sociológico da direita. Noutros tempos ditariam as regras da moral. Agora, usando um termo inglês, são uns weirdo. A verdade é que a larga maioria da sociedade já não lhes liga: não liga a malta de esquerda porque as capelas são outras e não liga a maioria da malta de direita porque tem outras preocupações na vida.


Quanto às qualidades pessoais de César das Neves desconheço e não me posso pronunciar. Mas posso assegurar, por experiência, que as pessoas com pior índole ética que conheci foram precisamente católicos de sacristia. Podem ser muito católicos, podem saber de cor as orações, podem brigar por questões de liturgia, podem fazer a maratona anual a Fátima, mas foram das pessoas que encontrei na vida com mais ruim fundo. Pode ser que o céu seja deles, mas se são eles a companhia dispenso. Antes a morte eterna. Pelo menos aí acabou tudo.




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De henrique pereira dos santos a 15.04.2024 às 15:01

É preciso ser uma pessoa que manifestamente não presta para este nível de baixeza
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De Albino Manuel a 15.04.2024 às 15:48

Fale por si. São do pior que encontrei - e conheci-os de perto. 


Tem um bom exemplo recente em França: uma freira da Bretanha expulsa como não se faz a um cão do convento dominicano onde vivia há 35 anos. Razões? Não se conhecem. Um cardeal canadiano fez uma visita ao convento, esteve lá uma semana, e de repente rua, a meio da noite. Ficou a viver do rendimento mínimo, coisa de gente de esquerda. Suspeita-se que terá sido por uma querela teológica sobre São Tomás de Aquino e que tudo não terá passado de uma vingança de uma outra amiga do cardeal. Levado a tribunal o convento vai ter de lhe pagar 180 mil euros de indemnização. 180 mil euros por uma vida arruinada. O Vaticano resmungou mas o certo é que continua sem se saber o que aquela mulher fez.


Como este podia apontar outros exemplos. São incapazes de amor ao próximo ou de sentir neste um seu igual. Nisso os protestantes são bem mais honestos. Mas como lhe disse hoje já quase ninguém quer saber deles. Por alguma razão as igrejas fecham e outras estão às moscas. 
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De Albino Manuel a 15.04.2024 às 15:53

Em tempo: César das Neves é o mesmo que anda por aí há anos a protestar contra o aumento do salário mínimo porque é mau para os pobres. Baixinho, baixinho é que ele é bom, para aumentar a competitividade. Depois espantam-se da emigração. 
Já não seria mau que a universidade dele pagasse impostos, mas está protegida pela concordata.
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De henrique pereira dos santos a 15.04.2024 às 17:36

Não, não é. Tem uma ideia diferente da sua sobre o salário mínimo, semelhante à que durante muitos anos tiveram (e alguns ainda têm) os países nórdicos.
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De Carlos a 15.04.2024 às 19:38

O Albino Manuel julga-se dono da verdade, mas não é.
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De Anonimus a 16.04.2024 às 06:07

E quem discorda dele já é?
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De Francisco Almeida a 16.04.2024 às 11:14

Se são assim sendo católicos, já pensou quanto pior seriam se o não fossem?
P.S. - Pensava que os albinos só tinham os olhos vermelhos.
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De marina a 15.04.2024 às 15:59

só é pena que sejam necessárias crises agendadas e provocadas para conquistarem mais território económico  para perceber que a felicidade não reside no consumo e no mercado .   os benefícios que retiramos  do sistema que se montou não compensam de forma alguma , para os comuns mortais , os custos. quem ganha são os titãs da finança e as empresas gigantes, montes delas só vendem veneno , como o mac , a coca e afins , o resto fica a ver passar navios e a empobrecer como pobre assalariado à mercê dessa gente.
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De Anonimus a 15.04.2024 às 17:51

Mac e coca ou PC e haxixe?
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De marina a 15.04.2024 às 21:24

sim , sempre prefiro o pc e o haxixe pc de computador ...
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De marina a 15.04.2024 às 22:59

bem , se quer saber a minha onda é esta : comunismo libidinal , já estou muito à frente 


https://outraspalavras.net/movimentoserebeldias/a-hipotese-do-comunismo-libidinal/
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De Anonimo a 16.04.2024 às 09:48


"o que eu penso é definido por mim e não por terceiros que se entretêem a explicar-me o que eu penso"


Ou seja, é imune a qualquer estímulo externo. Conheço muita gente assim. Ou melhor, que pensa que é assim (no fim são os mais manipuláveis)
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De henrique pereira dos santos a 16.04.2024 às 10:03

Eu também conheço muita gente assim, incapaz de interpretar textos simples
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De Miguel Pimentel a 16.04.2024 às 23:00

Ontem, por um acaso da minha atividade profissional, tive oportunidade de ouvir a entrevista de PPC, no decurso de uma viagem de trabalho.
Um testemunho muitíssimo interessante sobre um dos períodos mais difíceis do pós 25 de Abril. (goste-se ou não se goste, como diria o Marques Mendes). 
Quando está manhã vi o cabeçalho da notícia do observador, o sentimento foi de nojo profundo pela horrenda desonestidade do artigo. 

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