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Marta Temido e nós

por henrique pereira dos santos, em 25.11.21

Não, não me interessa tanto o que parece que escandalizou toda a gente (eu incluído), a tal história da resiliência (por favor, podemos parar de confundir resiliência, que é a qualidade de voltar ao estado inicial depois de uma deformação, com resistência, que é a capacidade de resistir a qualquer coisa adversa?).

Nas declarações de Marta Temido há coisas que me parecem bem mais relevantes, não por dizerem alguma coisa sobre Marta Temido, mas por dizerem bastante sobre nós.

"Nós sabemos que o limite de trabalho suplementar ... de 150 horas, não é possível de ser respeitado no nosso sistema de saúde".

O que está em causa é o facto do Código do Trabalho e da Lei Geral do Trabalho em Funções Públicas estabelecerem um limite de 150 horas anuais de trabalho por trabalhador. Mas, para resolver o problema da má gestão do Serviço Nacional de Saúde (ou a escassez de médicos que a Ordem dos Médicos continua a dizer que não existe, de cada vez que alguém tenta abrir mais um curso de medicina), há um aditamento à lei que cria uma excepção: "a realização de trabalho suplementar ou extraordinário no âmbito do SNS não está sujeita a limites máximos quando seja necessária ao funcionamento de serviços de urgência ou de atendimento permanente".

Ou seja, há uma regra geral na lei do trabalho, a que o Estado se exime no seu interesse próprio, uma ministra (esta ou outra qualquer) dá como adquirido que a excepção à lei é a normalidade e nós, nós todos, não nos perguntamos por que razão a regra existe no código do trabalho.

A regra é boa e deve existir para proteger os trabalhadores dos abusos dos patrões?

Então o Estado patrão deve "liderar pelo exemplo" e deixar-se de abusar do seu poder para se eximir ao cumprimento de regras que impõem aos outros.

A regra é estúpida e impede uma boa gestão de recursos humanos?

Então o Estado deve rever a regra.

Agora esta situação em que a regra é boa em tese, para os outros, mas má na prática, quando convém ao Estado, é que revela uma falta de exigência nossa em relação ao Estado que, infelizmente, nos caracteriza bem como sociedade.

Não admira por isso que Marta Temido, cujas demonstrações de falta de amor à liberdade são frequentes (da mesma audição "A melhor forma de atrair recursos humanos é conquistá-los para projetos de trabalho e não passar uma imagem, ou intensificar uma imagem, de que a instituição vive enormes dificuldades e num clima de confronto”, um bom retrato das suas prioridades, a realidade não interessa nada, o que interessa é garantir que enganamos as pessoas para as poder arregimentar), seja a ministra mais popular do Governo, apesar de ter liquidado as PPP na saúde que garantiam melhor assistência médica a mais baixo preço para o contribuinte, por exemplo.

O relevante neste exemplo não é Marta Temido (os ministros vão e vêm, apesar de muitos acharem que passam o tempo a tomar decisões históricas), mas sim a nossa falta de exigência em relação à actuação do Estado.

É muito triste que nos foquemos na parvoíce da resiliência, em vez de nos questionarmos por que razão existe uma regra geral no código do trabalho a que o Estado se furta porque, no seu papel de patrão, considera a regra impossível de cumprir.



14 comentários

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De JPT a 25.11.2021 às 10:53

O Estado, em Portugal, é, literalmente, um fora-da-lei. Não só torce as regras  a seu favor (as que pode torcer, porque há a chatice das directivas  e regulamentos comunitárias que está obrigado a transpor/aplicar) com assegura que não é julgado pela violação dessas regras, excluindo-se do âmbito de actuação das autoridades inspectivas (e que falta faz uma ACT num hospital público) e mantendo, dolosamente, um quadro minúsculo de juízes dos tribunais administrativos e tributários, de modo a que nenhum processo contra o Estado dure menos de uma década (ah, e recorrendo de tudo, até onde esse recurso é possível, mesmo que vai contra os factos provados e a jurisprudência consolidada).
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De balio a 25.11.2021 às 11:26


Eu diria que mesmo as boas regras podem admitir exceções...
Na vida é assim, há regras que, elas próprias, admitem exceções.
Por exemplo, alguns nutricionistas propõem dietas muito rigorosas, cheias de regras, mas que admitem que, nalguns dias, não se cumpra regra nenhuma.
Falando a sério, seria bom que, da mesma maneira que o Estado admite uma eceção para si próprio no âmbito das urgências do SNS, também pudesse admitir outras exceções, para outros patrões e noutros setores.
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De Anónimo a 25.11.2021 às 11:27

Apoiado. Vive-se uma partidocracia de esquerda, preenchida pelos iluminados de um espírito-santo socialista.
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De Carlos Sousa a 25.11.2021 às 11:43

Eu só gostava de saber quando é que os iluminados dão por finda esta paranóia. Ontem morreram 277 pessoas e a parvoíce das medidas pandémicas são só por causa de dezoito mortos, então e os outros? E a vida que estão a dificultar a todos?
Parem com a loucura, já chega.
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De Carlos a 25.11.2021 às 12:30

Nunca esquecer a redução do horário de trabalho para as 35 horas semanais  na função pública que, segundo o nosso PR, não iria ter aumentar os custos...
O Senteno e o Costa, para ganharem eleições, é que andaram a pregar esse milagre, mas o presidente Marcelo não foi capaz de os desmascarar.
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De Mosaicos em Português a 25.11.2021 às 13:22


Penso é que andam todos a apanhar papéis, sem saber já para que lado se hão de virar.
É verdade: desde que descobriram a palavra 'resiliência', passaram a utilizá-la a torto e a direito, quase sempre com o significado de 'resistência'.
É um perfeito disparate, apenas devido ao facto de, como a palavra é mais comprida, mais complicada, mais 'sofisticada', como alguns diriam, 'fica' melhor ouvirem-nos falar assim.
Talvez também não saibam o que é... equitenência?
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De Marques Aarão a 25.11.2021 às 15:03

Nos assuntos escaldantes de Marcelo nem vê-lo. Espero com curiosidade o que Sua Excelência tem para não dizer sobre a bronca das caçadas furtivas no campo de tiro de Alcochete.
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De António a 25.11.2021 às 20:49

Esta ministra e este governo em geral é que são resilientes. A quantidade de amolgadelas que já sofreram, e voltam à incompetência habitual.
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De Bilder a 29.11.2021 às 14:19

https://grandefantochada.blogspot.com/2021/11/a-pantomina-ainda-nao-acabou.html  com link para post Omicrom comicrom
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De Elvimonte a 26.11.2021 às 00:07

O Luiz Vaz que me perdoe...


Estúpida vai para a fonte Marta pela verdura; Vai tremida, e não segura.

Leva a cabeça ao pote, O testo nas mãos de pirata, Remdesivir de fina escarlata, Sainho de chamelote; Traz a vacina de cote, Mais bronca que a neve impura. Vai tremida e não segura. 





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De JPT a 26.11.2021 às 09:53

E com que cara é que eu digo à minha filha para não ser choramingas, se, pelos vistos, a táctica do "choro" como método de fazer os "mauzões" parar é usada ao nível governamental.

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