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"Margem de certa maneira"

por henrique pereira dos santos, em 28.01.21

Ontem fiz um post no Facebook reproduzindo um comentário de Luis Lavoura num dos meus posts:

"Eu não estou especialmente interessado em que a mortalidade diminua. Desde que quem morre sejam velhinhos que estavam em lares sem fazer nada, ou então em casa a viver da sua pensão, não fazem cá muita falta (a não ser, naturalmente, para os seus familiares e amigos) e não lamento a sua partida. A morte faz parte - é de facto uma parte imprescindível - da vida. O que estou é interessado em que desçam as infeções por sars-cov-2, para ver se o governo deixa de nos morigerar a vida com restrições. E suspeito bem que estejamos já, de facto, no princípio da descida, tal como eu esperaria uma semana após o fim do frio e da seca."

Sabendo que este comentário é inevitavelmente chocante, tive o cuidado de o integrar com um comentário prévio que me falava do que me parece ser amoralidade, ou pelos uma moralidade não canónica, de muitos comentários de Luis Lavoura, acrescentando que para mim me era muito mais útil quem dizia o que mais ninguém dizia que dezenas de outros comentários dentro do nosso quadro habitual de pensamento.

O posto gerou uma série de reacções que essencialmente divido entre:

1) os que genuinamento se chocaram e acharam igualmente chocante que eu repetisse este comentário, porque fazem uma leitura legítima, desconhecendo a originalidade da intervenção pública de Luís Lavoura (que, já agora, conheço pessoalmente há muitos anos, nunca fomos nem deixámos de ser amigos, conhecemo-nos e tratamo-nos cordialmente) - a esses procurei chamar a atenção para o erro de leitura de considerar que o comentário pretende definir uma norma em vez de simplesmente exprimir uma opinião radicalmente pessoal, para o erro de leitura que consiste em confundir uma atitude de deixar seguir o curso da natureza com a defesa de uma atitude activa de eliminação de pessoas e ainda explicando que a chave do interesse do comentário para mim é o parêntesis "a não ser, naturalmente, para os seus familiares e amigos";

2) os mestres-escola e missionários que me quiseram explicar como qualquer pessoa se deve comportar em sociedade ou me aconselharam a retirar o post - a esses pocurei explicar que as comunidades mais ricas são as que conseguem integrar a divergência e a liberdade de opinião, sobretudo da opinião que choca de frente com a nossa identidade ou as nossas convicções, lembrando a distância que existe entre palavras e acções;

3) e, inevitavelmente, os grunhos que optam por insultar tudo o que mexe, ou as almas sensíveis que se recusam a olhar para a crueldade do mundo, convencidos de que se ninguém disser que o mundo é o que é, ele passa a ser o que gostaríamos que fosse.

Nem de propósito, hoje de manhã encontro esta reportagem no Observador: "Maria ocupa uma das oito camas que existem em cada um dos vários blocos montados no Arena Portimão, aberto há duas semanas para acolher doentes com Covid-19. O vírus não a afetou tanto quanto a outros e, na sua cabeça, já só falta o dia em que lhe vão dizer que está livre da doença e que pode regressar à casa onde vive com a filha. Mas nos seus registos médicos há outra indicação: esta idosa já pode ter alta, mas a filha, única familiar próxima e a sua cuidadora há anos, morreu de Covid-19 e não vai estar em casa para a receber. É preciso encontrar uma solução e, depois, comunicar tudo isto a Maria".

E é nesse ponto que me interessa concentrar: eu não estou disponível para receber Maria em minha casa.

Porque não tenho dinheiro? Porque não tenho tempo? Porque não sou capaz de prestar os cuidados necessários?

Não, na verdade porque não quero.

Há dezenas de boas razões para eu não querer, o meu equilíbrio familiar, as minhas obrigações contratuais - nunca tinha verdadeiramente pensado que o Estado, ou mais rigorosamente, o nosso consenso social, diz exactamente o mesmo que Luís Lavoura, para tratar da minha família há um conjunto de normas que, com todas as limitações que têm, facilitam essa circunstância, mas para tratar de um desconhecido, não -, razões financeiras e até a sensação de que resolver o problema de Maria é uma gota de água num problema imenso, e muitas outras razões que mascaram a verdadeira razão: não quero. E mais uma dezenas de razões moralmente discutíveis, como a de não querer trocar a minha vida actual por outra que tem uma desconhecida como centro, como aconteceria se recebesse Maria em minha casa.

Não sou o único, ninguém, até agora, salvo algum santo que tenha existido, abriu as portas de casa para receber um só das centenas de desconhecidos que estão abandonados, quer nos hospitais, quer nos lares (abandono é abandono, seja lá onde for), porque na verdade a nossa prática corresponde ao comentário chocante de Luís Lavoura, por mais que tentemos descansar a nossa consciência das mais variadas maneiras, incluindo a clássica afirmação de que é o Estado que tem de resolver estas situações (como se atribuir responsabilidades alterasse um átomo da situação de Maria).

Por mim, não faço qualquer julgamento moral sobre as opções dos outros na forma como tratam quer os que lhe são próximos, quer os desconhecidos, para lá das situações limite de abandono e maus tratos, e continuo a preferir que haja gente que, mesmo de forma chocante, me confronte com o facto de eu não ser tão bom como às vezes acho que sou, mesmo já descontando o facto da vida me ir ensinando a baixar as expectativas sobre a minha bondade e firmeza moral.

Eu percebo o conforto de simplesmente nos deixarmos ir na corrente, mas não estou disponível para crucificar quem me amarra à margem, de certa maneira, independentemente do desconforto e do choque que isso possa provocar.



11 comentários

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De Plinio a 28.01.2021 às 16:19

Não me leve a mal, mas se o ilustre morresse, de facto a mim também não me fazia falta nenhuma, faria com certeza aos seus familiares e amigos. E quanto aos números da infecção parece que ainda estão a subir, hoje quase 17 mil. Quanto ao resto saúde e cordiais cumprimentos!
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De balio a 28.01.2021 às 17:27


os números da infecção parece que ainda estão a subir, hoje quase 17 mil


É a prova concludente de que os métodos que o governo usa (confinamento) para acabar com a epidemia são completamente ineficazes.
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De Plinio a 28.01.2021 às 19:09

E a Grécia como explica? Tem meia dúzia de casos menos de metade dos nossos mortos. O bicho não gosta de gregos? É que tal como nós são dos países com população mais envelhecida!
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De balio a 28.01.2021 às 16:22


Agradeço ao Henrique por me dar conta de uma discussão no Facebook (rede que não frequento!) sobre a minha pessoa, e de uma notícia no Observador (jornal que não leio!) também interessante. Agradeço também a gentileza que teve em (na medida do possível) defender-me.

Já agora, a notícia no Observador, tirando-lhe a parte do covid, é assaz trivial: há pessoas mais jovens que tratam de pessoas mais idosas, e por vezes acontece que a pessoa mais jovem morre antes da pessoa mais idosa, e depois, que se faz com a pessoa mais idosa? Neste caso a pessoa mais jovem morreu de covid, mas poderia ter morrido de outra causa qualquer e o problema seria exatamente o mesmo.
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De Tiro ao Alvo a 28.01.2021 às 17:54

 

O Estado, a meu ver, devia apenas ser responsabilizado pelos casos de pessoas sem família, sem quem lhes possa prestar o necessário apoio. 

Por outro lado, penso eu, as famílias que acolhem e tratam os seus mais velhos, deveriam ser apresentadas como exemplo e beneficiarem de apoios estatais generosos.

Mas a maré parece correr na direcção da luta pelo reconhecimento do "cuidador informal", não essencialmente dos mais velhos, mas sobretudo aos deficientes, esses sim, é que deviam beneficiar de apoios estatais, que serviriam para pagar aos seus cuidadores. Os idosos deveriam é ter pensões de valor suficiente para possibilitar que algum ou alguns seus familiares assumam a responsabilidade de cuidar deles.

Mas só depois de esboçada a lei é que o Estado reparou que são centenas de milhares os candidatos a "cuidadores informais" e que, do ponto de vista financeiro, o Estado não está em condições de satisfazer toda essa gente…

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De Anónimo a 28.01.2021 às 17:54

Suponho que seria um grande desafio para o Prof. António Damásio se pudesse estudar o sistema límbico do Balio e as suas básicas (ou ausentes) emoções...
Nitidamente um caso de estudo...
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De João Brandão a 28.01.2021 às 18:44

Sobre o comentário que tomou para tema desta crónica, qualquer pessoa sensata dispensar-se-á de comentar ‘aquilo’, para além de que, a par de outras ´pérolas’ que o personagem autor vai por aí deixando, permite perceber qual o quilate do mesmo personagem. E grande coisa não é certamente …

 

Já quanto a HPS e ao seu esforço para defender ‘aquilo’, só demonstra o pouco apreço que tem pelas pessoas, especialmente as mais velhas, que deviam ser suas semelhantes.  

Dizia-se há anos atrás, à guisa de detracção, que na, por alguns ainda muito venerada, união soviética, os velhinhos eram mortos com uma injecção atrás da orelha.

No dichote a que alude, isso não é proposto, mas fica lá muito bem expressa a desconsideração que o dito personagem dedica aos nossos maiores e HPS vem no seu escrito desculpar isso. Lamentavelmente …

Diz-me com quem andas …

 

Se assim entender, esteja à vontade para me incluir no grupo dos tais grunhos e ficaremos talvez a perceber melhor porque lhes chama isso … 

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De henrique pereira dos santos a 28.01.2021 às 19:44

O seu comentário é perfeitamente civilizado.
É pena que comente sem saber interpretar um texto, mas não se pode ter tudo
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De João Brandão a 28.01.2021 às 20:46

Não fui eu que denunciei as minhas baixas expectativas quanto á minha própria firmeza moral e outras coisas.
Está no texto de que é autor e tornou público!


E não se preocupe com a capacidade de interpretação das outras pessoas, antes, confira o que escreve.


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De Anónimo a 29.01.2021 às 03:31


 O HPS é capaz de reconhecer e escrever "o comentário CHOCANTE " e com essa "valoração"  revela possuir uma escala de valores que utiliza para fazer as suas medições éticas e os seus juízos morais. Logo, posso conclui que alguma firmeza moral terá...
 No caso de LL não existe um resquício sequer que demonstre uma formulação desse tipo, o que torna os seus raciocínios bastante curiosos e invulgares, porque se por um lado pende para uma inteligência mais racional, fria, por outro, a inteligência emocional quase não tem expressão nele, impedindo-o de alguns sentimentos como por ex. a compaixão pelos outros, ou a capacidade de saber reconhecer, valorar e discernir o quão "chocante" é  a enormidade do que disse e pensa.  LL não o diz por maldade, tenho a certeza, mas porque não tem consciência disso, não consegue envolver-se de forma empática, é uma impossibilidade nele. Diria apenas que não tem competência emocional.  Se é bem ou mal, apenas ele, que é inteligente, saberá se isso tem efeito (ou não) na sua vida quotidiana.
A diferença está portanto nos detalhes, na simples palavra "chocante" de que um tem consciência e o sente e o outro que não seria capaz de ter essa perspectiva.
Quanto ao resto, optou por confrontar, de forma brutal e crua, "as almas sensíveis" com a sua própria hipocrisia. Teve, pelo menos, a honestidade de nem a si mesmo se poupar. Preferiu desmascarar e chocar. Não discuto o seu estilo desarmante. Mas não será certamente a forma mais "bondosa" nem piedosa de dizer verdades inconvenientes. O abandono e a fragilidade dos idosos que não queremos ver, não é essa, afinal, a realidade mais butal? Mas, ao fim e ao cabo, denunciar as faltas próprias e alheias não fere sempre? 
AP
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De Elvimonte a 28.01.2021 às 23:56

Alguma racionalidade no meio disto tudo. Todas as epidemias acarretam um excesso de mortalidade. Em períodos normais o grosso da mortalidade centra-se em redor da esperança média de vida, no caso português cerca 82,5 anos.


Óbitos COVID-19 por faixa etária e sexo: http://prntscr.com/xrx77a
(fonte: https://covid19.min-saude.pt/ponto-de-situacao-atual-em-portugal/)


Óbitos no período 2017-2019 por idade: https://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_indicadores&indOcorrCod=0004162&xlang=pt&contexto=bd&selTab=tab2


Alguma diferença relevante na distribuição dos óbitos por faixas etárias? Não. Qual o significado desse facto? Que as pessoas que estão a morrer da COVID-19, em termos etários, não se distinguem das que morrem habitualmente de outra causa qualquer.


Per capita e tendo em consideração a esperança média de vida, quanto tempo esperado de vida é que a COVID-19 roubará? Não conheço números para Portugal, mas para o RU os estudos apontam para que as consequências da disrupção da actividade económica e do sistema de saúde roubem cerca de 7 vezes mais tempo esperado de vida do que a COVID-19. Com menos 121 000 cirurgias e 1 200 000 de consultas hospitalares até Novembro em Portugal, os números não deverão ser muito diferentes. 


Quantas pessoas morrem anualmente em Portugal? Cerca de 105 000, média calculada a olho entre 2002 e 2016 (em 2019 morreram 111 793 pessoas).
(fonte: https://www.pordata.pt/Portugal/%C3%93bitos+de+residentes+em+Portugal+total+e+no+primeiro+ano+de+vida-15) 


Se, num período de um ano, a COVID-19 tiver sido responsável por 15 000 óbitos, qual o significado? Em termos percentuais, isso significa um acréscimo de 14% relativamente à media anual. Em termos temporais, pode dizer-se que o ano teve mais 7,4 semanas, i.e. 59,4 semanas em vez das normais 52.


Off topic, o que faz falta em Portugal, para se diminuir a mortalidade? Uma atitude pro-activa, dando prioridade às medidas farmacêuticas que vão emergindo de estudos científicos, nomeadamente: uso de vitamina D (meta-análises e ensaio clínico) e ivermectina (meta-análises e ensaio clínico Principle em curso) em protocolos profilácticos e terapêuticos e da recentemente aprovada  colchicina, fruto de ensaio clínico partilhado entre gregos e canadianos. Tudo assuntos de que por cá não se fala. 


 

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