Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Manuel do Rato

por henrique pereira dos santos, em 24.03.19

Dizem-me que morreu hoje o Manuel do Rato.

O Manuel não se chamava assim, era Manuel Quental, mas era da casa do Rato, tal como o meu pai era o João do Aidinho por ser da casa do Aidinho, e eram dois grandes amigos, separados por milhares de quilómetros durante muitos anos.

Grande parte do que escrevo hoje sobre paisagem tem raízes mais fundas em conversas com o Manuel que na minha licenciatura e doutoramento em arquitectura paisagista.

O António, seu filho mais ou menos da minha idade, era o meu grande amigo quando eu estava no Covelo. Naquela altura o trabalho era bem a sério e bem cedo, de maneira que lá ia eu com o António para a rega, esbandeirar o milho, vindimar ou com as vacas para o monte, na posição privilegiada de quem não tinha obrigações mas dava uma mão, quanto mais não fosse para libertar o António mais cedo do trabalho para irmos ao que nos interessava.

Nunca soube se realmente o Manuel não percebia as entradas e saídas do António pela janela do quarto para corrermos as festas todas das aldeias ali à volta, ou se percebia muito bem o que se passava mas, desde que ao romper da manhã o António pegasse ao trabalho e o Manuel pudesse manter intocada a sua posição de pai severo e autoritário (e se era autoritário), deixava correr as coisas por saber que a vida é o que é.

Muito do interesse que fui ganhando em compreender o mundo rural nasceu à volta da mesa daquela casa, uma travessa para todos, cada um com o seu talher (nas primeiras vezes ainda vinha um prato para mim, que estaria habituado a outra maneira de fazer as coisas, mas rapidamente essa deferência da Ana passou à história) o jarro de vinho que se tinha ido encher à adega servia a todos directamente (aí sim, eu tinha direito a um copo de água, eu não bebia vinho, uma esquisitice que se aceitava à conta das manias da cidade, mesmo que se estranhasse tanto que quando a minha avó me viu beber água, com seis anos, me perguntou se eu estava doente) e falava-se sobretudo do trabalho que ainda era preciso fazer, da vaca que tinha a pata magoada, da chuva que faltava ou vinha a mais e milhares de outros assuntos que fazem a vida de um agricultor que sabe que o sustento da família depende do trabalho de todos e da orientação que ele lhe dava.

O Manuel era um homem culto (penso que teria a quarta classe, não mais, não tenho a certeza), lia bastante, era correspondente da Tribuna de Lafões (não tenho a certeza, hoje, de qual dos jornais regionais era correspondente, mas penso que era deste), era louvado, fazia avaliações de terrenos por muito lado e era um homem a quem se pedia conselho, por saber, por ser inteligente, muito inteligente, e por ter um sólido bom senso.

Numa das últimas vezes em que conversei com o Manuel, a Ana, já cega e que tinha passado um sofrimento horrível durante umas horas em que, sozinha em casa, desencaixou um osso que a impedia de procurar ajuda e não havia ninguém para ouvir os gritos, já tinha aceitado ir para o lar em Valadares, a quatro quilómetros de casa, e até estava muito satisfeita por afinal ter lá muitas raparigas do seu tempo.

O Manuel resistia a ir também para o lar, apesar das dificuldades em andar e outras mazelas próprias de quem tinha quase 90 anos, mantendo-se estoicamente sozinho em casa (com visitas frequentes das filhas e do António) e dizia-me, a rir-se de orgulho: vou visitar a Ana, desde que foi para Valadares, não lhe falhei um dia, e lá subia meio a custo para o trator, fazia os quatro quilómetros para Valadares, e voltava depois para a casa de onde não queria sair.

A última vez que o vi já foi mesmo no lar, quando finalmente se rendeu à evidência de que essa era a melhor solução para todos, começando por ele próprio.

A Ana morreu há meses e o Manuel deve ter achado que já lhe estava a faltar há demasiados dias.

Obrigado Manuel, eu duvido que acredite nisto, mas com poucas pessoas aprendi tanto.

Autoria e outros dados (tags, etc)



Comentar:

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.



Corta-fitas

Inaugurações, implosões, panegíricos e vitupérios.

Contacte-nos: bloguecortafitas(arroba)gmail.com




Notícias

A Batalha
D. Notícias
D. Económico
Expresso
iOnline
J. Negócios
TVI24
JornalEconómico
Global
Público
SIC-Notícias
TSF
Observador

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • João Sousa

    Extrapolar resultados (ou sondagens) de uma eleiçã...

  • Anónimo

    Grosso modo, os 5 partidos com um intervalo = ou &...

  • Luís Lavoura

    um infeliz acidente rodoviário é coisa para nunca ...

  • António

    Nem sei como há ainda quem leve o BE a sério. Um p...

  • António

    Às tantas o PSD ainda ganha. Com o PSD tão próximo...


Links

Muito nossos

  •  
  •  
  • Outros blogs

  •  
  • Links úteis


    Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2015
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2014
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2013
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2012
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2011
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2010
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2009
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2008
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D
    157. 2007
    158. J
    159. F
    160. M
    161. A
    162. M
    163. J
    164. J
    165. A
    166. S
    167. O
    168. N
    169. D
    170. 2006
    171. J
    172. F
    173. M
    174. A
    175. M
    176. J
    177. J
    178. A
    179. S
    180. O
    181. N
    182. D

    subscrever feeds