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Manuel Carmo Gomes, os jornais e as escolas

por henrique pereira dos santos, em 07.04.21

Manuel Carmo Gomes volta à carga hoje.

Um artigo de que é co-autor, já com mais de um mês e ainda em revisão na Nature, largamente noticiado por volta de 4 e 5 de Março, faz a manchete do Público de hoje "Com ritmo de vacinação ainda lento, reabertura total das escolas pode levar a quarta vaga de covid-19".

Note-se que o próprio Público (com base na Lusa) já tinha dado a mesma notícia no dia 4 de Março, com a pequena diferença de Manuel Carmo Gomes fazer, há um mês, a mesma previsão, não especificamente com as escolas mas com o desconfinamento.

De resto, Manuel Carmo Gomes tem uma fixação no ensino presencial há muito tempo, sem qualquer base factual.

Nunca responde às perguntas, não dos jornalistas, que nunca as fazem, mas de muitas outras pessoas que no espaço público alertam para os problemas de ter as escolas fechadas, perguntando onde está o efeito do fecho das escolas para férias de Natal nos dados, e como se explica que a súbita subida de contágios e do Rt com que se inicia o surto de Janeiro tenha ocorrido ainda com as escolas fechadas, nas férias de Natal.

Manuel Carmo Gomes justifica-se com raciocínios crípticos como este: [as dificuldades de Janeiro] "Teriam sido evitadas se tivéssemos tomado medidas em Novembro que evitassem termos chegado ao Natal ainda na zona dos 3500 casos por dia. Era desejável que estivéssemos em menos de 2000 casos/dia no Natal. Tenho muitas dúvidas acerca da eficácia de um Natal «proibido» em Portugal, por isso prefiro colocar as coisas desta forma. Teríamos também amenizado a situação se, logo a partir de dia 5 ou 6 de Janeiro, quando nos apercebemos da situação em que estávamos, tivéssemos tomado logo as medidas que só vieram a ser tomadas após o Conselho de Ministros do dia 21 de Janeiro". Note-se que esta pequena entrevista no blog da Fundação Francisco Manuel dos Santos é de 15 de Fevereiro, ou seja, a ideia do fecho das escolas está sempre implícita, quaisquer que sejam as circunstâncias.

Por que razão Manuel Carmo Gomes (e a sua criação mediática, Carlos Antunes) é ouvido tão frequentemente, sem nunca haver qualquer contraditório, nos jornais?

Penso que a minha experiência com os fogos e a imprensa me ajuda a compreender.

Não sou, nunca fui, especialista de fogos, faço questão de o dizer frequentemente (aliás, quando a mesma Fundação Francisco Manuel dos Santos me pediu um artigo sobre fogos, indiquei dois ou três nomes alternativos que sabiam muito mais do assunto que eu e, mantendo a Fundação a sua opção de querer um artigo meu, fiz questão de deixar bem claro que não era especialista no assunto), mas frequentemente pedem-me opiniões sobre fogos.

É certo que já antes escrevia sobre a relação entre a paisagem e o fogo - a primeira vez que me convidaram para falar numa iniciativa académica cheia de especialistas no assunto, perguntei pela razão de me convidarem, não sendo eu um académico nem tendo trabalho de investigação sobre fogos e explicaram-me que (na altura, hoje não é bem assim) eram raras as pessoas que falavam de fogos à escala da paisagem - mas foi imediatamente depois do fogo de Pedrogão que passei ao estatuto mediático de especialista no assunto.

Na altura, escrevi rapidamente um artigo que Ana Fernandes me pediu (apesar de ter sido feito a correr, até saíu bem) porque fiz uma opção ética diferente da maioria dos especialistas no assunto que se recusaram a falar a quente, em cima da morte de dezenas de pessoas: eu recusei-me a deixar o espaço mediático livre para os Jaime Marta Soares desta vida.

Lembro-me bem de um dia ter convencido uma excelente jornalista de televisão a ir ouvir Paulo Fernandes sobre o assunto, a Vila Real. Quando lhe perguntei que tal tinha corrido, respondeu-me que tinha aprendido imenso, que a visita de campo tinha sido fantástica, mas não conseguia aproveitar nada da entrevista com o Paulo porque a completa negação comunicacional do Paulo a impedia de passar o resultado numa televisão.

Felizmente o Paulo melhorou muito nesse aspecto - era mesmo muito mau a comunicar, o que hoje está longe de ser verdade. Mas enquanto ia melhorando nesse aspecto, era muito mais fácil para qualquer jornalista falar comigo, que tenho uma capacidade de comunicação maior (provavelmente para o que contribui o facto de saber menos e ter menos hesitações, menos dúvidas e não ter uma reputação académica a defender, o que me faz ser mais indiferente ao facto de às vezes dizer asneiras de palmatória).

Infelizmente para todos nós, parte do interesse da imprensa em Manuel Carmo Gomes tem esta origem: fala sempre muito bem, de forma muito estruturada e é sempre agradável ouvi-lo, independentemente de dizer coisas certas ou erradas.

Basta ouvir Henrique Barros, com um discurso bem mais confuso, uma dicção bem menos escorreita, com hesitações, para perceber como é atractivo, para um jornalista, ouvir antes Manuel Carmo Gomes ou Filipe Froes, pessoas que dão sempre a impressão de nunca terem dúvidas e raramente se enganarem, ao contrário de Henrique Barros, que sabe muito mais e tem muito mais experiência que os outros dois em matéria de epidemias.

Parte não é isto, parte é mesmo ostracização, o que é mais bem ilustrado com Jorge Torgal, que até comunica bem, mas diz coisas menos dramáticas e isso é evidentemente menos interessante para uma imprensa focada na alimentação incessante do drama, do horror que nos espera amanhã, se não nos portarmos convenientemente.

Por tudo isto, Manuel Carmo Gomes continuará, sem contraditório, a sua campanha permanente contra a abertura de escolas, como qualquer fanático para quem o mundo tem apenas uma dimensão: no seu caso, a urgência em diminuir contactos que, erradamente, Manuel Carmo Gomes confunde com contágios.

E nem o facto das previsões que Manuel Carmo Gomes fez no princípio do Março, sobre os efeitos do desconfinamento (é bom lembrar, já vamos com três semanas de aligeiramente das medidas, mas vamos com quase mês e meio desde que foi toda a gente para a rua no fim de semana de 27 e 28 de Fevereiro), estarem longe de confirmar o seu ponto de vista o vai fazer mudar de ideias: quando os casos subirem qualquer coisa, como é fatal que subam, lá aparecerá a dizer, mais de um mês depois, que resultou da abertura das escolas apesar de, na sua opinião, ter sido apenas preciso uma semana para o fecho escolas impactar a descida de casos.

E quando em Maio voltarmos à linha base do Verão, com números baixos de casos, folga nos serviços de saúde e um ou outro pico local, o discurso vai ser o de que é preciso aproveitar essas condições para esmagar o vírus e, por isso, é preciso apertar mais as regras, aumentar a testagem e quebrar as cadeias de contágio.

Não há discussão racional possível com base em abstrações.

Sem a realidade concreta do mundo real, tudo, e o seu contrário, é possível de ser explicado logicamente.

E, no mundo real, ter escolas fechadas é a demonstração da nossa incapacidade enquanto sociedade.



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