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Lucros, migrações e cenas

por henrique pereira dos santos, em 19.05.24

Os bancos lucram 560 mil euros por hora enquanto as famílias fazem enormes sacrifícios para conseguir ter uma casa.

Este tipo de conversa é muito popular, o PC, por exemplo, usa-a muito, embora o BE (que prefere investir em "borlas fiscais" como nariz de cera), o Livre e alguns sectores do PS, e a esmagadora maioria das redacções de jornais, rádios, televisões também se dedicam à divulgação militante desta cassete pirata.

O lucro é o salário do capital, portanto falar de lucros de uma entidade em absoluto para avaliar se os lucros são grandes ou pequenos, é como dizer que o grupo Pingo Doce, por exemplo, paga todos os anos 2 mil milhões de euros em salários, concluindo-se que os seus trabalhadores são todos regiamente pagos, sem discutir por quantas pessoas, e de que maneira, são distribuídos esses tais dois mil milhões (na verdade não faço ideia se o valor anual de salários pagos é este e já vou explicar de onde o inventei, para deixar clara a larga margem de erro potencial deste valor).

Portanto, e em primeiro lugar, falar de lucros sem dizer qual a quantidade de capital necessário para os gerar e, consequentemente, qual é a remuneração desse capital, é simples aldrabice.

É o que é feito neste tipo de artigos com nomes catitas, como "Pingo Doce: «onde os lucros são doces e os salários amargos» em que se usam argumentações manhosas comparando maçãs com laranjas: "Em média, apenas 9% das despesas no sector do comércio se prendem com as remunerações dos trabalhadores. É uma fracção ínfima dos 590 milhões de euros de lucro que a Jerónimo Martins fez em 2022".

No caso citado é mesmo uma mentira evidente: os 9% de despesas do sector do comércio está muito longe de ser uma fracção ínfima dos 590 milhões de euro da Jerónimo Martins (a desonestidade da argumentação vai ao ponto de confundir uma das empresas do grupo com o grupo, para apimentar a coisa).

As vendas da Jerónimo Martins andaram pelos 25 mil milhões na altura deste artigo (actualmente parece que andam pelos trinta mil milhões). Se partimos das vendas como uma aproximação grosseira das despesas (se o lucro foi de 600 milhões, é apenas de cerca de 2,5% das vendas, portanto parece-me razoável não andar a perder tempo a ser mais rigoroso), e se aceitarmos que 9% são salários (aceitando que a percentagem de salários na generalidade do comércio é semelhante à da Jerónimo Martins, do que duvido, mas enfim), então os salários da Jerónimo Martins terão andando pelos 2 mil milhões no ano, quase quatro vezes mais que os lucros, e não uma ínfima parcela (vou esquecer que estavam a comparar todos os salários do sector do comécio como os lucros de um grupo comercial).

Claro que para quem considere que "propriedade é roubo" ou que a solução para as injustiças do mundo é a apropriação colectiva dos meios de produção, subscrevendo a tese de que toda a remuneração de capital é mais valia do trabalhador apropriada pelo patrão, nada do descrito tem interesse porque a única coisa que interessa é liquidar os lucros, impedindo que os trabalhadores sejam roubados pelo capital.

É certo que hoje o PC (e o resto da esquerda, com pequenas excepções de lunáticos) já não defende a apropriação colectiva dos meios de produção e muito menos a ditadura do proletariado como instrumento para obter essa apropriação, o que só seria exequível com um partido de classe fortemente empenhado em ser a vanguarda da classe operária (Catarina Martins chegou a qualificar o BE como essencialmente social-democrata).

Aparentemente, os operários, camponeses, trabalhadores, pequenos comerciantes e pequenos empresários, enfim, o povo, cedo começou a perceber que a tal vanguarda da classe operária, em todo o lado, era uma elite de funcionários partidários que perseguiam os seus interesses pessoais, mesmo que os disfarçassem com a retórica dos amanhãs que cantam.

O problema era que todos seriam felizes amanhã, sempre amanhã, mas hoje não havia conquilhas.

Seria normal que, não gostando do seu quotidiano e não vendo jeitos de o melhorar no futuro, o povo pusesse pés a caminho, que é o que fazem os migrantes, de maneira geral.

Os migrantes são pessoas que vendem a sua força de trabalho e as suas capacidades e não gostam do preço que conseguem obter, no sítio em que estão, com essa venda, achando que noutro lado qualquer o retorno que conseguem obter é maior.

O azar deles é que a vontade de fugir da vanguarda que amanhã, sempre amanhã, iria trazer a felicidade, era generalizada, o que punha em causa os interesses pessoais da elite que decidia os preços das maçãs, os ordenados, a remuneração do capital e tudo isso.

Como consequência, as fronteiras foram fechadas com recurso à repressão, na enésima demonstração de que o Estado não é o garante do bem comum, mas um instrumento de repressão nas mãos das classes dominantes.

É assim que um dos países mais desenvolvidos da América Latina, com melhores indicadores económicos e sociais (independentemente das suas enormes desigualdades e grau de corrupção) antes de uma revolução socialista, Cuba, depois de dezenas de anos de aplicação da lógica de perseguição ao capital, acabou por, este ano, pedir ajuda alimentar ao programa alimentar da ONU.

E é assim que destinos de migração, relativamente modestos, é verdade, mas ainda assim, destinos de migração, como Angola e Moçambique (neste caso com uma situação mais complexa que inclui uma intensa emigração de alguns grupos para o trabalho nas minas da África do Sul, paralelo à imigração de outros grupos para o país), passaram a origens de migrações intensas ao fim de umas dezenas de anos de guerra ao capital (sim, também de outras guerras, mas na base dos regimes estava a guerra ao capital).

E isto é válido pelo mundo inteiro, de tal forma que os principais destinos de migração do Mundo (Suíça, Canadá e Estados Unidos, por esta ordem, em imigração per capita de residentes) são todos países fortemente protectores do capital, e de acumulação de capital, ao contrário das origens dessas migrações, onde é difícil encontrar governos cujo amor pelo capital (em abstracto, o capital de cada um dos dirigentes desses países é diferente, aí sim, de maneira geral há um amor imenso pelo capital) seja permanentemente cultivado e desenvolvido.

No dia em que o PC conseguisse reduzir os lucros da banca a zeros, com o argumento de o distribuir pelas famílias que passam por enormes dificuldades para ter uma casa, o resultado não era as famílias acederem mais facilmente a casas melhores, o resultado era que o capital faria exactamente os mesmo que as pessoas que consideram que mais vale vender a sua força de trabalho noutro sítio, migrando, o que diminuía o capital disponível para produzir casas, limitando ainda mais a oferta.

O equilíbrio só voltaria quando as vítimas dessas políticas, tipicamente os mais pobres, acabassem também eles a engrossar os contingentes de migrantes para sítios em que a adequada remuneração do capital e do trabalho acaba a gerar mais riqueza para todos.


19 comentários

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De Anónimo a 20.05.2024 às 11:06

Mas só se muda quem pode,  i.e., só é possível mudar-se e pôr-se a andar para procurar uma vida melhor e safar-se (inclusive emigrar) quem vive em regimes abertos e livres (democracias). 
Tal não seria possível a quem estivesse sob aquele conhecido regime que é o «Farol que ilumina o caminho da luta de todos os trabalhadores», pois depressa o comité central mandaria travar-lhes o passo e controlar fronteiras com métodos repressivos.


Se dúvidas houvesse sobre o que pretendem partidos como o BE e o PCP _ se lhes dessem o mando e o poder _ bastaria  ouvir as suas respostas evasivas, quando questionados sobre os regimes totalitários de certos países : nunca mostram uma opinião clara, para não se exporem e por isso optam pela ambiguidade porque são incapazes de condená-los categoricamente ; do mesmo modo são também comedidos no que toca a elogios, igualmente para não se comprometerem e assim esquivarem-se a revelar a sua admiração por esses regimes que gostariam de poder replicar. 


Podem usar aquele tom de voz quase ciciado e ter um ar sereno, mas... atenção, tudo é estudado: por detrás daquela pose contida de quem nunca perde o controlo, escondem-se ímpetos extremistas e revolucionários. Por inacreditável que pareça, esta gente não brincaria em serviço, se lhe dessem o poder.
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De Anonimus a 20.05.2024 às 12:24

Nao consta que a Síria seja uma democracia. 
Em Portugal nada impede um indivíduo de mudar, a não ser que este seja um estatista, regido pelo imobilismo.
O meu banco mudou unilateralmente as condições contratuais, e muito disse-me que era livre de denunciar contrato, só não o faz quem não quer.

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