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Lisboetas e não

por João Távora, em 12.04.16

 

Lisboetas.jpg

 

Foi na tropa que entendi a importância da origem geográfica de cada um:

no quartel, todos os meus companheiros me perguntavam de onde eu provinha

e identificavam-se pela sua terra de nascimento,

cujo nome muitas vezes era adoptado como alcunha.

 

Não, a maioria dos habitantes de Lisboa não são lisboetas. Até podem gostar da cidade um bocadinho como sua, mas não são de cá: têm as raízes noutras paragens, sempre idílicas, que cultivam em visitas periódicas donde chegam como se viessem do paraíso. Na recente apresentação do seu livro Alentejo Prometido — uma pungente declaração de amor às suas origens —, Henrique Raposo lamentou o facto das suas filhas «se estarem a transformar em lisboetas». Foi essa ingratidão que inspirou esta crónica. De facto, como é sobejamente conhecido, a maioria da gente de Lisboa não é lisboeta. Em Lisboa, uma cidade de passagem e acolhimento, a maioria daqueles que nela actuam diariamente não nasceram aí, e boa parte deles recolhe ao fim do dia ou ao fim-de-semana aos seus lugares originários.

Um lisboeta não é, tão-pouco, aquela figura criada pelo imaginário tripeiro de Pinto da Costa ou Rui Moreira, que vive entrincheirado no Terreiro do Paço a conspirar contra a «província», de que se afasta como filho ingrato. O lisboeta que se preze enquanto tal, não tendo de ser necessariamente um «puro-sangue», como eu, terá no mínimo que ter nascido na cidade e já não possuir uma «terra» dos seus ascendentes onde ir baptizar os infantes num fim-de-semana prolongado, ou regressar periodicamente nas férias para reencontrar os seus familiares. Quando era pequeno assisti não poucas vezes a diálogos entre guarda-freios da Carris sobre idas à «terra» tratar das vinhas ou trazer sacas de batatas, mas para um lisboeta de gema, a nostalgia do regresso não o desloca ao Minho ou ao Alentejo, mas lança-o directamente para o vasto mundo imenso que da Torre de Belém se vislumbra oceano adentro. Enquanto isso não se realiza, vai a Sintra com a família visitar a tia velha, e de caminho traz umas queijadas.

Também importa delimitar geograficamente Lisboa até à circunvalação da cidade. Um lisboeta não é de Massamá, Odivelas ou do Estoril aprazível para onde vim morar, mas que sentirei sempre como um certo exílio, ainda que dourado, com a praia quase à porta.

Como é bom de ver, não sobra muita gente a quem chamar lisboeta. Mas esse reduzido número de pessoas tem um traço tão marcado quanto inédito: ama a sua cidade, o seu bairro e as suas ruas com a profundidade intensa dos fadistas e poetas – também eles, não obrigatoriamente lisboetas...

Foi na tropa que entendi a importância da origem geográfica de cada um: no quartel, todos os meus companheiros me perguntavam de onde eu provinha e identificavam-se pela sua terra de nascimento, cujo nome muitas vezes era adoptado como alcunha. Filho, neto e bisneto de lisboetas, também eu fui aí nascido e criado em Campo de Ourique, «a minha aldeia». O meu avô paterno, engenheiro civil, ajudou a construir a igreja de Santo Condestável. Tem um jardim com coreto, um mercado agora muito em voga (a que chamávamos praça), uma escola primária e outra do ciclo (que frequentei), e um odor inconfundível, que respiro com deleite, sempre que lá vou. Irónica, digamos assim, foi a «ascensão» da família do meu pai que me trouxe aquele planalto da cidade: do Palácio de Santos, hoje Embaixada da França (onde os meus bisavôs ainda moraram), à Calçada da Estrela, e depois à Travessa do Patrocínio, onde o meu avô, acabado de casar, se fixou depois de mais de duas décadas exilado pela república, até ao generoso 3.º andar em Campo de Ourique onde cresci, passaram menos de 100 anos – é o que se chama subir na vida!

Em Campo de Ourique, e seu redor, viviam muitos dos meus primos, tios e amigos da escola, e era daí que o autocarro n.º 9 saía para a Avenida da Liberdade, onde viviam os meus outros avós. Ainda conheci e ouvi histórias da minha bisavó Valentina que, na primeira década do século, precocemente viúva, foi ocupar o 1.º Esq.º do prédio 232, a um quarteirão da Rotunda. Da varanda, assistiu ela às escaramuças que nos impuseram a revolução republicana.
Lisboa corre-me nas veias, portanto.

Podemos distinguir um lisboeta na rua pelo seu olhar blasé de quem já viu o outro lado da Lua: normalmente veste com sobriedade, tanto mais que não vai em modas antes delas estarem já bem experimentadas e quase em declínio. No fundo, o lisboeta de Lisboa é filosoficamente um monárquico, descendente de fidalgos arruinados, republicanos desenganados ou anarquistas desiludidos, acalentando sempre orgulho na sua ascendência, seja de fadistas, professores primários, jornalistas ou de modestos lojistas. Desconfiado de grandes aparatos, e principalmente da alegria dos vizinhos que vão e vêm das festas «na terra», dos seus filhos com demasiados piercings e tatuagens e filhas de cabelo azul-eléctrico, têm nos seus genes a secreta certeza de que as revoluções, as suas ou as dos adversários, nunca serviram para nada; que a vida é o que é. Mas o bom lisboeta toma sempre partido e não recusa uma boa discussão de política no café do bairro, e se for necessário cita o seu antepassado de que mais se orgulha.

O lisboeta não esconde o ensejo de um emprego estável, na função pública de preferência, à moda das rendas novecentistas enviadas da província, que lhe permitiam pagar o alfaiate e umas compras num Chiado afrancesado. Gosta de jardins, cafés e esplanadas para ler jornais ou namorar, e conhece os vizinhos com equidistância; é católico, agnóstico ou ateu com a determinação de quem optou em pleno discernimento, que na capital as disputas existenciais têm séculos de discussão, nas cortes, no partido, no clube recreativo, no parlamento e na taberna.

Os lisboetas pronunciam um português mortiço e tendem a omitir as vogais abertas, talvez para poupar energia, talvez por timidez. Distinguem-se dos vizinhos por um entusiasmo reservado, pelo andar mais lento e por um sorriso triste de quem imaginou ter herdado fortunas indivisas dos tetravôs das índias. O lisboeta, para lá das «questões futebolísticas» (às quais já não dá grande valor), não entende o rancor nutrido pelas gentes do Porto, afinal uma cidade bonita e acolhedora — e onde nasceram tantos progenitores de futuros lisboetas.

Depois, há que reconhecer que um lisboeta não se distingue pela sua cor dos olhos ou da pele: há-os com as mais variadas origens e culturas. No entanto, reconheço que há uma ameaça na «consanguinidade» lisboeta. Para não perderem o brilho nos olhos, os alfacinhas deverão abrir-se ao casamento com forasteiros — foi o que fiz. Já os meus filhos cresceram em São João do Estoril e não entendem a mística da grande cidade, que sentem como hostil e suja, e desconfio que a acham tão velha e fora de moda como o Pai, que é um monárquico militante, se atafulha em jornais, livros e discos de vinil e lhes conta histórias de outros mundos. Talvez um dia, por um qualquer acaso, retornem para lá viver e entendam a alma da minha cidade e os tiques deste inveterado lisboeta que também lhes está no sangue.

Acontece que os lisboetas nasceram e cresceram impregnados de história, calcorreiam-na todos os dias através das ruas antigas, passeios puídos, prédios velhos e monumentos históricos com os quais se foram familiarizando diariamente, por osmose. Da rua do Arsenal ao Bairro Alto, das calçadas íngremes da Lapa aos escritórios centenários da baixa pombalina, da igreja de São Domingos à rua de Santa Marta, ao Hospital de S. José, do Largo do Chafariz de Dentro às ruelas de Alfama até à velha Sé de Lisboa, do fatídico Terreiro do Paço (onde mataram o Rei), da inevitável Avenida Almirante Reis que já foi Rainha D. Amélia, do Jardim da Estrela aos do Castelo, o lisboeta corporizou, sem dar por isso, o relativismo do momento, a estreiteza da modernidade e das suas disputas tantas vezes risíveis.

Mesmo habitada por tantos fantasmas, Lisboa tem uma alma extraordinária, um jogo de luz e sombras que é mágico. Com as suas colinas e ventos, renova-se de ar novo e empolgante todos os dias, ampliado pela animação daqueles muitos que chegam e nela se instalam, ou a visitam ocasionalmente.

É com este sangue novo, entusiasmo e muita ilusão que a cidade se reconstrói diariamente das cinzas. Lisboa só é o fim da linha para quem vem do Estoril. 

 

Publicado originalmente no jornal i



6 comentários

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De ali kath a 13.04.2016 às 09:04

como Lisboeta também subi na vida.
comecei num R/C, passei por um 4º, 6º e agora 11º tudo esq.
o melhor é o Tejo, o pior são os índios 
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De Pedro a 13.04.2016 às 18:29

João Távora, já que é tão peremptório a dizer que "Não, a maioria dos habitantes de Lisboa não são lisboetas.", devia ser, digo eu, um bocadinho mais rigoroso. É que a maioria dos habitantes de Lisboa de há duas ou três gerações pouco ou nada já liga à terra de origem dos seus pais. para além que o retrato que aí faz dos verdadeiros lisboetas, os da bayer, são, parece-me o retrato que quer fazer de si, incluindo a dita "sobriedade" no vestir, e tudo o resto que está nesse parágrafo em particular, onde faz a classificação dos "lisboetas", como se fosse o Lineu a fazer a classificação de uma espécie. Lisboetas há muitos e de muitas qualidades. Não me diga que nenhum quer a revolução e todos pensam que "a vida é como é?". É que a maior parte dos revolucionários foram lisboetas... 
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De João Távora a 13.04.2016 às 22:17

Claro que esta prespctiva está impregnada de subjectividade. Pena que o "Pedro" não veja mais longe. 
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De Pedro a 14.04.2016 às 09:06

"Mais longe", até onde? Não entendi. Eu estava a contestar a sua opinião sobre o que são os "lisboetas". Entendi agora que não vale a pena porque está "impregnada de subjetividade", e por isso não há diálogo possível. É como eu dizer que o Odivelas vai ganhar a Champions. Se alguém me diz que não, eu chuto para canto dizendo que a minha opinião está impregnada de subjetividade. Pronto, está bem.
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De Paulo Medeiros a 11.06.2017 às 13:04

Nao estou muito de acordo com a definiçao que o meu caro Joao faz dos lisboetas, pelo facto de que todo aquele que seja natural e faça a sua vida quotidiana na capital, na pratica, e realmente lisboeta. Devo acescentar que Lisboa, como local de passagem e acolhimento de gentes que a tem demandado, de norte a sul e ilhas, sempre foi um grande caldeirao cultural, ou um melting pot se quisermos. No meu caso, eu, natural dos Açores, neto de um continental, casado com uma beira, assisto diariamente ao facto de estar a criar duas lisboetas, para quem a terra dos progenitores pouco mais e que um simbolo afectivo ja distante e sem efeitos praticos nas suas personalidades e quadros identificativos. Na verdade, nem lhes desperta curiosidade digna de mençao, uma vez que toda a sua rede relacional se desenrola em Lisboa.
A descriçao do lisboeta que o caro Joao faz no seu artigo traz-me a mente uma imagem algo romantica e novelesca. Nao me leve a mal, mas tem de ver que a definiçao de lisboeta se tornou muito difusa devido a factores muito variados, como a localizaçao geografica, meio profissional, socializaçao, sobretudo, dai nao podermos, com rigor, traçar uma imagem padrao.
No mais, escreveu um excelente texto. Obrigado pela oportunidade, e os meus melhores cumprimentos.
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De Barata de Tovar a 14.04.2016 às 13:36

Caro João Távora, sinceramente lhe digo que também não entendi muito bem a sua definição de lisboetas. Mas deixe-me que lhe diga que a gente da província sempre foi muito mais conservadora e sóbria do que os "lisboetas", sejam lá eles quem forem que o João Távora julgue que são. 

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