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O título do post é o título do livro que acabei de ler, escrito por João Miguel Tavares.
Bem sei que o meu interesse possa ser maior que o de outras pessoas porque estive muito perto de Sócrates durante pouco menos de dois anos, quando ele era secretário de estado do ambiente e eu era vice-presidente do ICN, organismo que, não sendo tutelado por ele, ainda assim acabava por implicar proximidade em muitas circunstâncias.
Dito isto, o livro é muito interessante, João Miguel Tavares escolheu escrever o livro apenas com base em fontes abertas de informação - o que lhe interessava mais era perceber as circunstâncias que permitem a uma pessoa como Sócrates passar entre os pingos da chuva durante tantos anos e com tanto êxito - e escreve-o quase como um policial, fazendo o que faz um arqueólogo que avalia os indícios que encontra numa gruta sobre uma comunidade que existiu há cinco mil anos para construir uma história consistente, coerente e credível.
Aconselho vivamente a leitura, tanto mais que João Miguel Tavares tenta evitar (aqui e ali não consegue, como ninguém conseguiria) leituras especulativas e se atém ao que realmente é publicado, procurando ligar pontas de forma distanciada e racional.
Aqui e ali há coisas que eu interpretaria de forma diferente, como é normal.
Por exemplo, João Miguel Tavares diz que Sócrates, de maneira geral escolhia pessoas com base na sua lealdade e competência, baseando-se nos dados que coligiu e consegue encontrar em fontes abertas.
Eu tenho uma visão menos benigna dos que rodearam Sócrates e o levaram num andor.
Com a informação pessoal que tenho e não consigo demonstrar (portanto, inutilizável por João Miguel Tavares, dado o seu critério de apenas usar fontes abertas publicadas), quando Sócrates se aproxima de alguém é porque tem um interesse concreto nessa pessoa (esse interesse pode ser inteiramente legítimo, por exemplo, querendo acabar com as lixeiras no país, pretende aproximar-se dos dirigentes das ONGs de ambiente, para alargar a sua base de apoio).
A entrada de alguém no seu círculo de relações mais estáveis e de confiança faz-se usando, sucessivamente, três métodos: 1) Procura seduzir e convencer as pessoas (mais uma vez, nada de ilegítimo nisto, é normal que um dirigente de uma ONG de ambiente se sinta atraído e dê o seu apoio a um político que julga que pode realmente alterar o panorama das lixeiras em Portugal); 2) Se a primeira abordagem não resultar ou não for suficiente, procura comprar a pessoa (outra vez, nem sempre ilegítimo, ascender socialmente é um desejo mais que razoável e a proximidade a um político com futuro não é condenável, sob nenhum aspecto, quando digo comprar não estou, necessariamente a falar de trocas ilegítimas); 3) Se as duas primeiras abordagens falham, usa em último caso, sem qualquer complexo, a coacção, para obter o que quer.
Deste processo resulta uma selecção do seu círculo de confiança com base em duas características, sim, que se podem confundir e às vezes se sobrepõem com as identificadas por João Miguel Tavares, mas que acho menos benignas: uma fidelidade canina, mais que lealdade e, sobretudo, uma relação descomplexada com (por esta ordem), a verdade, a lei e as regras.
Sendo certo que a combinação destas duas características resulta no afastamento de quem não seja suficientemente competente para as executar sem falhas, isto é, limita muito a incompetência social e a outra, das pessoas envolvidas.
O facto do país ter votado como votou em António Costa, depois do desastre socrático, um exemplo típico de relação descomplexada com a verdade, a lei e as regras, é uma boa demonstração da tese de João Miguel Tavares: o problema não é ter havido um Sócrates, o problema é nós termos esta relação com a verdade, a lei e as regras, que limita a nossa capacidade de escrutínio das pessoas e das instituições.
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