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José Sócrates: a ascensão

por henrique pereira dos santos, em 14.11.25

O título do post é o título do livro que acabei de ler, escrito por João Miguel Tavares.

Bem sei que o meu interesse possa ser maior que o de outras pessoas porque estive muito perto de Sócrates durante pouco menos de dois anos, quando ele era secretário de estado do ambiente e eu era vice-presidente do ICN, organismo que, não sendo tutelado por ele, ainda assim acabava por implicar proximidade em muitas circunstâncias.

Dito isto, o livro é muito interessante, João Miguel Tavares escolheu escrever o livro apenas com base em fontes abertas de informação - o que lhe interessava mais era perceber as circunstâncias que permitem a uma pessoa como Sócrates passar entre os pingos da chuva durante tantos anos e com tanto êxito - e escreve-o quase como um policial, fazendo o que faz um arqueólogo que avalia os indícios que encontra numa gruta sobre uma comunidade que existiu há cinco mil anos para construir uma história consistente, coerente e credível.

Aconselho vivamente a leitura, tanto mais que João Miguel Tavares tenta evitar (aqui e ali não consegue, como ninguém conseguiria) leituras especulativas e se atém ao que realmente é publicado, procurando ligar pontas de forma distanciada e racional.

Aqui e ali há coisas que eu interpretaria de forma diferente, como é normal.

Por exemplo, João Miguel Tavares diz que Sócrates, de maneira geral escolhia pessoas com base na sua lealdade e competência, baseando-se nos dados que coligiu e consegue encontrar em fontes abertas.

Eu tenho uma visão menos benigna dos que rodearam Sócrates e o levaram num andor.

Com a informação pessoal que tenho e não consigo demonstrar (portanto, inutilizável por João Miguel Tavares, dado o seu critério de apenas usar fontes abertas publicadas), quando Sócrates se aproxima de alguém é porque tem um interesse concreto nessa pessoa (esse interesse pode ser inteiramente legítimo, por exemplo, querendo acabar com as lixeiras no país, pretende aproximar-se dos dirigentes das ONGs de ambiente, para alargar a sua base de apoio).

A entrada de alguém no seu círculo de relações mais estáveis e de confiança faz-se usando, sucessivamente, três métodos: 1) Procura seduzir e convencer as pessoas (mais uma vez, nada de ilegítimo nisto, é normal que um dirigente de uma ONG de ambiente se sinta atraído e dê o seu apoio a um político que julga que pode realmente alterar o panorama das lixeiras em Portugal); 2) Se a primeira abordagem não resultar ou não for suficiente, procura comprar a pessoa (outra vez, nem sempre ilegítimo, ascender socialmente é um desejo mais que razoável e a proximidade a um político com futuro não é condenável, sob nenhum aspecto, quando digo comprar não estou, necessariamente a falar de trocas ilegítimas); 3) Se as duas primeiras abordagens falham, usa em último caso, sem qualquer complexo, a coacção, para obter o que quer.

Deste processo resulta uma selecção do seu círculo de confiança com base em duas características, sim, que se podem confundir e às vezes se sobrepõem com as identificadas por João Miguel Tavares, mas que acho menos benignas: uma fidelidade canina, mais que lealdade e, sobretudo, uma relação descomplexada com (por esta ordem), a verdade, a lei e as regras.

Sendo certo que a combinação destas duas características resulta no afastamento de quem não seja suficientemente competente para as executar sem falhas, isto é, limita muito a incompetência social e a outra, das pessoas envolvidas.

O facto do país ter votado como votou em António Costa, depois do desastre socrático, um exemplo típico de relação descomplexada com a verdade, a lei e as regras, é uma boa demonstração da tese de João Miguel Tavares: o problema não é ter havido um Sócrates, o problema é nós termos esta relação com a verdade, a lei e as regras, que limita a nossa capacidade de escrutínio das pessoas e das instituições.


10 comentários

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De anónimo a 14.11.2025 às 17:12

O PM J. Sócrates a seu tempo, e outros, todos politicamente incontroláveis e poderosos PMs foram, são, o resultado de esta imposição de um sistema eleitoral com votação exclusivamente partidária, nas Legislativas. Sistema esse óbviamente acarinhado durante 50 anos pelos partidos do poder "democrático", PS e PSD. 
Agora surgiu um André e o pessoal afecto aos dois donos da bola não se cala, pois sim, mas não se queixem....
  
Com eleições legislativas uninominais, em definidos círculos, um deputado ali eleito com conduta discutível será um problema a resolver apenas pelos eleitores de esse círculo eleitoral. Um problema local. 
 
Com eleições legislativas exclusivamente em partidos um eleito PM (pelos seus apaniguados) dificilmente será controlável por esses, os seus deputados, muito menos pelo eleitor. No caso de ser a pessoa errada para o cargo, será um incontrolável desastre ao nível de toda a República. 

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