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«Jornalistas» premiados quando deixam de sê-lo

por José Mendonça da Cruz, em 03.02.21

Chegou hoje a Portugal, vinda da Alemanha, uma missão de médicos, pessoal de saúde, e equipamento para auxiliar Portugal, o país com os piores registos de infecções e óbitos do Mundo. A equipa terá como base o Hospital da Luz, um hospital privado

O Público afirma que Costa «aceitou o auxílio» alemão. (1)

Antes de uma reportagem sobre o caos no Serviço Nacional de Saúde, ontem, no jornal das 8 da noite da Tvi, José Alberto de Carvalho recita que há caos «e nem podia ser de outra maneira», devido à gravidade da situação.

Hoje, no jornal das 13 horas da Sic, Bento Domingues abre com a notícia do início da vacinação de maiores de 80 anos e de 50 com comorbilidades, e o repórter, presente em mais uma acção de propaganda a cargo de primeiro-ministro e ministra da Saúde, publicita que, «antes mesmo de entrar», António Costa quis saber como estava a decorrer.

Depois, Domingues fala «do colapso do SNS devido ao alastramento da pandemia».

Estes quatro apontamentos são -- como nas redacções televisivas se diz a propósito de tudo -- emblemáticos do vergonhoso tratamento dos factos pelas televisões e respetivas redacções, que viraram costas ao jornalismo e ao serviço público, e abraçaram, serviçais e reverentes, a desculpabilização e a propaganda do Governo. A propaganda acontece sempre que o Governo os chama. A desculpabilização é, hoje, um acto reflexo destes «jornalistas»: somos os piores, mas Manaus está mal; chegou o caos, mas a culpa é dos portugueses; há mortes no aeroporto, mas também há 2 anos na Bélgica...; o SNS colapsou, mas é tudo culpa da pandemia; há desorganização, fraudes e atraso na vacinação (2), mas as câmaras seguem, zelosas e entusiastas, as virtuosas presenças de primeiro e segundos ministros nos eventos para que forem convocadas.

 Com desinformação, com a-informação (que são as não-notícias com que se tapa as notícias graves e verdadeiras), e com omissão pura e simples, os fake jornalistas -- e mais que fake, falsários -- estendem um manto diáfano de fantasia (sejamos sérios: é um manto pardo e doloso) sobre as notícias que descredibilizam o poder, e procuram deliberadamente ajudar o poder suscitando palmas para feitos menores ou simplesmente ficcionados.

«Aceitou o auxílio». Não, Costa não aceitou o auxílio, pediu-o juntamente com a ministra da Saúde, e o pedido de auxílio foi aceite. Todavia, devemos esperar que os fake jornalistas venham a sublinhar repetidamente que «não somos caso único» ou que «outros países foram auxiliados...». Quando a notícia já não pode ser ocultada, relativiza-se a notícia.

«E nem podia ser de outra maneira.»  Mentira. Podia e devia ser de outra maneira. Podia ser de outra maneira se os socialistas se tivessem abstido da medida demagógica e irresponsável de impor um horário de 35 horas -- iniciativa que os fake jornalistas nunca escrutinaram, e cujas consequências graves de redução de recursos e aumento de custos nunca investigaram ou noticiaram. Podia ser de outra maneira, se o Governo tivesse tomado a tempo as medidas que o agravamento previsto -- e que conhecia -- da situação tivessem sido tomadas. Podia ser de outra maneira se primeiro-ministro e ministra da Saúde não fossem incompetentes e socialistas, e tivessem articulado serviço público, serviço privado e serviço social da Saúde, não por confisco (como gostariam os extremistas de PC e Bloco), mas por negociação séria e atempada. Podia ser de outra maneira se o PS não tivesse poluído todos os ramos da administração pública, e também os da Saúde, com gente armada de cartão cor-de-rosa e nenhuma recomendação, competência ou curriculum.

Quando a crise económica deflagrar -- e ela vai deflagrar brutalmente, como só não sabem ou fingem não saber os fake jornalistas -- pivôs como Carvalho dirão certamente que «nem poderia deixar de ser assim porque foi a pandemia».

«antes mesmo de...» É um reflexo canino. A qualquer gesto banal do PM, de um ministro, de um secretário de Estado, de um director-gerad, de um aparatchik, os fake jornalistas babam de admiração e júbilo. Tudo é um feito, uma epopeia, uma saga. 

«do colapso do SNS devido ao alastramento da pandemia». Mentira. O colapso do SNS não se deve ao misterioso «alastramento», deve-se aos factores acima. E deve-se ainda, e em grande medida, ao facto de os fake jornalistas terem abandonado brio e curiosidade em favor da reverência e do aplauso ao poder socialista. Quem, se não fake jornalistas, continuaria a acusar, policiar, denunciar, apontar a dedo, criticar, desprezar normais cidadãos que se passeiam junto ao rio ou fazem surf nalguma praia, e, do mesmo passo, omitiria (seja por dolo, seja por incompetência inaudita) o número de mortes a mais por motivos não-Covid, ou seja, por motivos de incompetência e da letalidade do mau serviço público? E os fake jornalistas também nunca farão perguntas simples como esta: a equipa alemã que acorre em auxílio fica sediada no Hospital da Luz, um hospital privado, porquê?

Os fake jornalistas têm dois ódios, «as redes sociais» e o Correio da Manhã, o jornal e a televisão. Não são ódios de estimação, são ódios compreensíveis. É que «redes sociais», ou seja blogs, podcasts, tweets e sms desmascaram e já desmascararam muitas vezes manobras, omissões e desinformação destes fake jornalistas, que só muito mais tarde (ou nunca) «apuraram» coisas embaraçosas ou fatais para o poder socialista. O tema do curriculum de Sócrates é só um caso entre muitos; o défice de Sócrates que tinha «caído a pique em Fevereiro», segundo noticiava o Expresso, ante de saber-se que batia recordes, ou «FMI que já não vem», segundo o mesmo semanário, dias antes de o FMI vir, são outros, tão graves como anedóticos. 

 O Correio da Manhã, o jornal e a CMTV, transmitem o Portugal que os fake jornalistas (e os fake políticos, e os fake intelectuais) fingem que não existe ou gostariam que não existisse. Correio da Manhã, jornal e CMTV, dão o país sem manto de fantasia (com miséria, venalidade, sangue, e suor e maus cheiros, também, evidentemente), escrevem e falam das coisas e das causas. É gritante, agora, a diferença da cobertura noticiosa que fazem, sem rodriguinhos nem desculpas, em relaçãoàs televisões reverentes e obsequiosas. E -- para maior desgosto dos fake jornalistas -- congregam inteligência, escrutínio, cultura e bom senso, como é evidente para quem leia ou ouça Octávio Riberio, ou Eduardo Dâmaso, ou Miguel Ganhão,ou João Pereira Coutinho, ou Eduardo Cintra Torres, ou Francisco José Viegas. E, como agora com SNS, jornal e CMTV preferem, à propaganda do Governo, escrutinar, reportar, entrevistar e obter o comentário de quem vive de mais perto ou protagoniza a crise.

Redes sociais e CM são recompensados com audiência e público. E os fake jornalistas, são punidos? Não. Enquanto houver poder socialista, alguém que divulgou notícias erradas e enganosas, porém agradáveis para o poder,  pode sempre ser recompensado com a presidência da Lusa; alguém que pôs a seriedade de lado pode ter direito a uma avença (ao menos, até ser descoberto); e alguém que além de amigo foi cúmplice, alertador e bombeiro de Sócrates pode sempre contar com bom progresso na carreira. Basta que em vez de jornalistas escolham ser fake e falsários.

(1) Ainda agora Costa tweeta que o governo português «aceita a oferta» alemã. Se a voz do dono se pronuncia com tal despudor, porque haviam os fake jornalistas de estragar a fábula?

(2) Boris Johnson anunciou hoje que estão vacinados 10 milhões de ingleses. E a população de Portugal é ...



8 comentários

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De Anónimo a 03.02.2021 às 16:39

só uma pequeníssima (insignificante) correção... repor as 35 horas.
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De Anónimo a 04.02.2021 às 11:21

Exactamente! Acabaram-se as vacas voadoras.
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De Marques Aarão a 03.02.2021 às 18:45

O que não pode ser de outra maneira, é quando o jornalismo é descaradamente pago para servir o interesse oculto (para quem não quer ver) do abestado dono. 
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De Antonio Maria Lamas a 03.02.2021 às 19:01

 Nascer entre brutos, viver entre brutos e morrer entre brutos é triste.
Já dizia o Rodrigo da Fonseca, e dizem agora milhares de portugueses.
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De Anónimo a 03.02.2021 às 22:09

Eu, um dia, hei-de ver estes biltres julgados e presos, como criminosos, pelo mal que fizeram ao país. Deus não dorme.
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De Anónimo a 04.02.2021 às 11:16

Toda a gente devia VER, na sicN, o programa de ontem do José Gomes Ferreira. Este país está a saque. E foi tomado de assalto!
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De Anónimo a 03.02.2021 às 22:20

Jornalismo de mercenários, "os olhos e ouvidos" destes déspotas. 
Um dia a gente enche-se...
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De A.K. a 04.02.2021 às 00:20

Magnífico post e concordo na generalidade.

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