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Jorge Paiva e o debate público

por henrique pereira dos santos, em 26.11.18

"Outra atitude indecorosa é quererem convencer toda a gente que os eucaliptais não são tão inflamáveis como os ditos matos. Sou biólogo e botânico, por isso, durante os estudos universitários tive várias disciplinas de Zoologia, Botânica e Química. Além disso, como tive um grande professor de Química (Rómulo de Carvalho, o Gedeão), que me ensinou racionalmente as reacções químicas e como doutorei gente em plantas medicinais (grande parte são aromáticas), sei química suficiente para saber que as essências elaboradas pelos eucaliptos são muito voláteis e altamente inflamáveis. Por favor, não considerem que as pessoas não são minimamente instruídas ou que são estúpidas".
Este parágrafo está inscrito numa crítica ao "Manifesto por uma floresta não discriminada", evidentemente promovido pela indústria de celulose, mas subscrito por um sólido conjunto de pessoas e instituições (pessoalmente fui convidado a assinar o manifesto e não o fiz por discordar dele em duas questões de fundo, em especial por o considerar mais um texto de defesa de trincheiras que um texto de quem quer sair da sua trincheira para ir ter com a sociedade).
Nesse conjunto de pessoas estão uma boa parte dos académicos que mais estudam a ecologia do fogo em Portugal, cuja investigação é reconhecida internacionalmente.
O que Jorge Paiva faz neste parágrafo, é considerar que um conjunto de várias dezenas de colegas seus, académicos, adoptam a atitude indecorosa ao ter uma opinião diferente da de Jorge Paiva, considerando que os seus colegas estão a querer enganar pessoas que não são minimamente instruídas ou que são estúpidas.
Em si nada disto teria muita importância (Helena Freitas, por exemplo, vai bastante mais longe e acusa os seus colegas de fraude académica, dizendo que a ciência que produzem é martelada para responder a eventuais financiadores (esta alegação de financiamento é falsa para a maioria dos subscritores que mais ciência têm produzido no domínio da ecologia do fogo, mas isso é irrelevante): "o empenho dos académicos NACIONAIS que, por acaso, talvez vejam os seus trabalhos patrocinados pelo empresário")mas há um aspecto fundamental: Jorge Paiva é um homem superior, unanimemente reconhecido pela verticalidade da sua postura cívica e com um imenso prestígio pessoal e académico, inteiramente merecido.
Por esta razão, a quantidade de pessoas que acreditam cegamente no que diz Jorge Paiva, e formam as suas convições a partir de parágrafos como o citado de início, é enorme e tem influência real nas políticas públicas.
Só que Jorge Paiva sabe imenso de taxonomia, é um homem de uma energia extraordinária (aos 85 anos continua a publicar artigos científicos no seu domínio de especialidade), é prazer extraordinário ouvi-lo e ter a oportunidade de ir para o campo com ele, é de uma simpatia cativante, mas sobre a matéria que escreveu é um leigo que entende que o que aprendeu de química há 70 anos com o seu professor de liceu é suficiente para julgar que sabe mais de um assunto que não estudou que os seus colegas que o investigam diariamente.
E fá-lo usando um truque retórico que não é bonito: não querendo ou não podendo dizer que os seus colegas, que são reconhecidos internacionalmente como investigadores de topo na matéria, estão a dizer asneiras porque não sabem do que falam, prefere a insinuação de que pretendem fazer dos outros pessoas pouco instruídas ou estúpidas.
Só que, neste caso (e isso não é diminuir Jorge Paiva, é respeitá-lo o suficiente para o confrontar de igual para igual num assunto específico, como tenho a certeza de que prefere à lisonja e bajulação de muitos que o cercam) o que Jorge Paiva revela neste parágrafo é mesmo muito pouca instrução sobre ecologia do fogo, desconhecendo que nos fogos florestais os combustíveis são praticamente idênticos por serem todos dominantemente celulose (as pequenas variações químicas a que alude Jorge Paiva são praticamente irrelevantes em condições reais, razão pela qual a investigação de laboratório que segue essa linha de trabalho tem tão pouca aplicação prática para a gestão do fogo), pelo que o que realmente conta é a sua densidade e estrutura (isto é, a física é mais útil para compreender e gerir o fenómeno que a química), em especial em condições meteorológicas extremas, como são aquelas em que ocorrem os maiores incêndios (80% da área ardida num ano concentra-se em 12 dias, mais ou menos).
Duas coisas são bastantes tristes em tudo isto:
1) A facilidade com que se recorre à conversa dos interesses para evitar a discussão sobre os argumentos de substância, sem medo de, pelo meio, caluniar e difamar terceiros com alegações e insinuações nunca demonstradas;
2) O facto de nada disto ser característico desta discussão, mas ser um padrão geral que caracteriza o debate público, permitindo, por exemplo, que ainda hoje tanta gente insista na ideia pueril de que a austeridade é uma opção política e não uma mera consequência da falta de dinheiro.

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5 comentários

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De Anónimo a 26.11.2018 às 11:40

conheci o jorginho na casa da Arregaça no começo de 50
continua a pensar em termos de café angolano
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De Anónimo a 27.11.2018 às 09:04

? Que é que isso interessa?
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De Anónimo a 26.11.2018 às 13:35

Fui dos que andaram a ler o nome dos subscritores do manifesto à procura do seu nome, e fiquei admirado por o não encontrar. Ainda bem, agora o Henrique tem mais autoridade para rebater alguns que, sobretudo por crendices, penso eu, aparecem a combater o eucalipto.
No antigamente, duas crendices antagónicas sobressaíam sobre o eucalipto: uns a dizerem que as suas folhas eram medicinais, outros que os eucaliptos bebiam a água toda. Hoje quase só se fala mal do eucalipto, um pouco porque consome muita água e sobretudo porque provoca incêndios, havendo, até, quem defenda que o eucalipto arde espontâneamente, não carecendo de ignição. São poucos os que aparecem a dizer que o eucalipto, como as outras árvores, também absorve o CO2 e em grandes quantidades.
Isto tudo para lhe dizer que aprecio e de uma maneira geral concordo com as suas posições sobre este assunto.


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De Luís Lavoura a 26.11.2018 às 16:42

a ideia pueril de que a austeridade é uma opção política e não uma mera consequência da falta de dinheiro

Excelente frase.
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De João Forte a 29.11.2018 às 14:27

Ressabiado q.b. 

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