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John Lennon, o direitolas

por henrique pereira dos santos, em 11.04.24

Parece que alguém terá dito que valorizamos pouco a função de dona de casa da mulher.

Parece que muita gente considera esta informação insultuosa e a defesa do regresso a um passado de separação sexual do trabalho, uma ideia serôdia, portanto (a divisão sexual do trabalho é, na biologia evolutiva, considerada uma das razões do sucesso da nossa espécie, convém é não tomar as explicações sobre o passado como normativas para o futuro, as circunstâncias nunca são as mesmas e evolução com sucesso resulta da capacidade de adaptação a circunstâncias em permanente mudança).

Gostaria de dizer que me parece haver um erro na primeira frase dos post, mas esse erro não está na afirmação de que o trabalho de dona de casa é pouco valorizado, mas sim no facto de limitar a liberdade dessa escolha às mulheres.

Como praticamente toda a gente sabe, John Lennon escolheu ser househusband entre 1975 e 1980.

"In a long, pretty fantastic 1980 Playboy interview, when asked what he’d been doing, he answered, “I’ve been baking bread and looking after the baby.” The interviewer asked, “But what have you been working on?” to which Lennon replied, “Are you kidding? Bread and babies, as every housewife knows, is a full-time job.”" (espero que os manda chuvas aqui do blog, dominantemente gente conservadora e decente, não me expulsem por fazer uma ligação para uma entrevista na Playboy).

Há um conjunto de pessoas que achando que há valor social na valorização da família tal como a entendem, resolveu escrever um livro a defender as suas ideias, bastante diversas, aliás, porque os autores são muitos e cada um pensa pela sua cabeça.

Passos Coelho, na apresentação do livro que essas pessoas publicaram é bastante aberto na definição do que é uma família, como se pode ler aqui, ao contrário das parvoíces que a imprensa diz sobre essa intervenção, numa demonstração de como é impossível confiar na imprensa seja para o que for.

Na minha família, por exemplo, houve um tempo em que a minha mulher resolveu ser dona de casa e houve outro tempo em que uma das razões para eu decidir trabalhar a partir de casa, mudando as minhas circunstâncias profissionais, foi ter sentido que era bom haver um adulto mais presente numa casa de quatro adolescentes, nem sempre campeões da sensatez.

O tempo em que a minha mulher resolveu ser dona de casa permitiu que a minha sogra morresse em casa, quando lhe foi diagnosticado um cancro cerebral que rapidamente degradou as suas condições de vida e autonomia, permitiu-lhe apoiar a transição na vida do meu sogro, da situação anterior para uma reforma diferente da que pensaria, permitiu-lhe estar mais próxima dos nossos dois primeiros filhos nos primeiros tempos e quando resolveu deixar de ser dona de casa, a terceira foi para uma ama com dois meses, porque não havia escolas que aceitassem bebés tão pequenos.

Embora a imprensa aparentemente não tenha dado por isso, Passos Coelho, na apresentação do tal livro, fala exactamente o papel da família no apoio aos mayores "E se há uma despersonalização, que haja um tratamento digno que as pessoas reclamariam para si próprias se tivessem essa consciência. Quem melhor do que a família para o poder fazer. Nós precisamos, para tratar de problemas mais no limite, como são estes os da idade muito avançada, os de pessoas que têm doenças crónicas por vezes muito incapacitantes e muito graves problemas de saúde, que estão em caminhos irreversíveis, não quer dizer terminais mas irreversíveis, e que precisam de ter um tratamento muito especial. Eu já o disse e já o escrevi: por que razão as políticas públicas pretendem ajudar as pessoas a morrer em vez de lhes dar condições para que elas possam viver com dignidade humana?".

Se houvesse dúvidas sobre a forma deficiente como tratamos a velhice, a deficiência e o fim de vida, o desatino criado pela Covid teria acabado com essas dúvidas, da mesma forma que reconhecer o papel das creches não nos impede de reconhecer os problemas sociais decorrentes da necessidade de ter as crianças muito cedo nos "infectários".

Nada disto são problemas simples e muito menos simples são as respostas, mas pretender que é muito importante reconhecer o papel dos cuidadores informais no apoio à deficiência, mas não há nada a discutir no reconhecimento do papel social dos cuidadores (se lhe chamarmos cuidadores tradicionais já podemos fazer a discussão racionalmente, ao contrário do que acontece se fizermos notar que tradicionalmente os cuidadores de primeira linha estão na família?) da infância e da velhice, parece-me estultícia e um desperdício de valor social.

E se houver valor social na dedicação a essa função, podemos discutir a liberdade de alguém decidir que é essa a função que quer assumir e não a de agente económico directo?

É que John Lennon era um trabalhador liberal com recursos suficientes para assumir, conscientemente e por opção, o papel de househusband, mas a verdade é que essa opção, nas actuais circunstâncias, não é uma escolha livre, é uma imposição social - com isso posso eu bem, ninguém tem de se sujeitar à opinião que os outros têm sobre as suas opções de vida e alguém que queira ficar em casa e tratar da família não tem de prestar contas a terceiros por essa opção, absolutamente legítima - e é, sobretudo, uma inevitabilidade económica: as famílias precisam dos dois ordenados e a sociedade considera que a opção pela dedicação à família não tem qualquer interesse social, razão pela qual se organiza para garantir creches gratuitas mas nem sequer põe a hipótese de entregar o mesmo valor a qualquer família que decida ficar com os filhos em casa (em full ou part-time).

Há quem ache que vale a pena discutir isto, e há quem prefira convocar fantasmas do passado, para evitar qualquer discussão sobre o papel da família, qualquer família, na sociedade.


10 comentários

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De balio a 11.04.2024 às 09:50


o papel da família, qualquer família


No post anterior o João Távora não fala de "qualquer família" mas sim de "família tradicional".
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De Anonimo a 11.04.2024 às 10:42

É tão verdade que um agregado familiar precisa de 2 salários (se bem que nos "antigamentes", embora a mulher ficasse em casa, muitas famílias tinham mais que um salário, pois os filhos trabalhavam), como a sociedade precisar que o agregado tenha 2 salários.
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De balio a 11.04.2024 às 11:21


como a sociedade precisar que o agregado tenha 2 salários


Exatamente, muito bem observado.


O facto é que atualmente há tanto trabalho para fazer que, se não fosse ambos os membros de um casal trabalharem, ficaria montes de trabalho por fazer.


O mundo não pode passar sem o trabalho remunerado feminino.
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De Jorge a 11.04.2024 às 14:33

Quando as baratas tontas da extrema esquerda feminista perceberem que estão a fazer o papel que os extremistas islamicos fazem com os livros dos Salmond Rushdi  eles calam-se. Ou não.  Há doenças incuráveis.  Lol
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De Filipe Costa a 11.04.2024 às 15:19

"Parece que alguém terá dito que valorizamos pouco a função de dona de casa da mulher."


Se for um casal homossexual, quem é a dona de casa? 
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De marina a 11.04.2024 às 15:52

o problema é a mulher que se quer dedicar à família , que não quer entregar o cuidado dos filhos a estranhos , ficar descalça em caso de divórcio ou outra eventualidade. suponho que haverá solução. 
a bem dizer , hoje em dia , a mulher quer queira quer não , por questões de subsistência ,  é obrigada a integrar o mercado de trabalho e a deixar a família para 2^plano.
a mercantilização de funções  da esfera familiar , como o cuidado dos filhos ou dos idosos , sempre me fez confusão.   há que assegurar financeiramente  que a mulher se possa dedicar à família se assim o quiser.  isso é que é liberdade.
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De balio a 11.04.2024 às 15:53


Como praticamente toda a gente sabe, John Lennon escolheu ser househusband entre 1975 e 1980.


Não fazia ideia.


Mas então pergunto: enquanto Lennon era dono-de-casa, que fazia a mulher? Trabalhava para ganhar dinheiro? Ou viviam ambos dos rendimentos do trabalho anterior? (Que, no caso de Lennon, não deviam ser poucos.)


Atualmente há não poucos casais em que é a mulher que ganha (mais) dinheiro. Eu conheci uma mulher assim: trabalha em computação e ganha muito, o marido que é músico ganha pouco ou nada. Ela alimenta não somente os filhos mas também o marido.


(Não sei se o João Távora chamaria a tais casos "famílias tradicionais" ou não.)
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De marina a 11.04.2024 às 22:47

tenho dois amigos que escolheram ser eles as donas de casa para acompanhar os filhos. um deles a mulher tem uma clinica veterinária , o outro a mulher tem um salão de estética. e são uma família tradicional no sentido em que um dos progenitores abdicou do seu emprego para cuidar dos filhos. digamos que a "modernidade " da instituição fundamental para fazer frente ao estado se deveria ficar por aqui , tanto dá que seja o homem ou a mulher a proporcionar a socialização primeira  e mais importante das pessoas.  muito triste   a coisa das creches e o deixar que qualquer um formate a cabeça das crianças.
caso não saiba os primeiros 3 anos são fundamentais no desenvolvimento de uma criança. , é num instante que a estragam.
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De jo a 11.04.2024 às 16:28


A lida da casa é dura, ninguém duvida disso, não se percebe porque tem de ser exclusivo das mulheres.
O que eu não consigo perceber destas teorias todas é como é que o casamento de pessoas do mesmo sexo, e a adoção por casais homossexuais ataca a família tradicional.O facto de dois homessexuais casarem não tem influência no meu casamento, não sou homossexual nem casado com ninguém que o seja.
Parece haver aqui um desejo muito maior de regular o outro do que se preocuparem consigo próprios. Ou então têm medo que a mulher fuja com outra, não sei.
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De Anónimo a 11.04.2024 às 21:32

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