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Isto vai acabar mal

por João Távora, em 02.05.16

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António Costa soube sempre ao que vinha quando cavalgando a sua geringonça destronou a coligação vencedora das eleições legislativas de Outubro passado. Acontece que contra todas as previsões e num ambiente de pré-guerra civil, o País fora resgatado pelo governo PSD e CDS da iminente falência protagonizada por uma governação socialista de um modelo económico falhado e decadente, dependente do Estado e profundamente condicionado pela adesão a uma moeda “estrangeira”. Estancado o deficit e reconquistada a credibilidade de Portugal perante os mercados, iniciadas algumas tímidas mas dolorosas reformas, permaneciam por resolver a crise de dívida privada escondida nos bancos e a lenta transformação da economia portuguesa fundada em serviços e na construção civil, asfixiada por impostos.
Assim chegamos ao actual “estado da arte”, com um governo liderado por um partido derrotado nas eleições que por força da sua fraqueza política se vê na contingência de substituir a governação do País pela gestão do curtíssimo prazo, com manobras dilatórias e uma agenda esquerdista para o entretenimento das clientelas de que a sua sobrevivência depende. Entretanto a resolução de todas as ameaças e debilidades estruturais que ensombram a nossa economia permanecem sem qualquer abordagem séria.
A impressão que fica é que vivemos nestes dias perigosos uma espécie de nova "acalmação" como a que foi tentada pelos partidos e pela coroa em desespero após o regicídio de 1908. Então, a tentativa durou dois anos até chegar a revolução e o caos dos republicanos. A nova "aclamação", apadrinhada por Belém e pela CGTP, não sobreviverá muito tempo à realidade: as coisas são o que são, vivemos em cima de uma bomba relógio.

 

Publicado originalmente no Diário Económico.



12 comentários

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De jo a 05.05.2016 às 12:04

Custa um bocado a compreender o seu conceito de "governo natural".
Às eleições anteriores concorrerem três blocos, presume-se com agendas políticas diferentes.
Se o PS viabilizasse a PàF, colocando os seus eleitores a apoiar o anterior governo, tudo bem. Se a esquerda viabilizasse o PS já não pode ser. Porquê?
Por causa do programa eleitoral? Mas o PSD nas eleições de 2011 fez campanha contra a austeridade do PS, jurou que não baixava salários nem cortava subsídios e após as eleições aliou-se com o CDS, formou governo e rasgou as promessas feitas. Então na altura os programas não contaram?
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De Fernando S a 05.05.2016 às 13:14

Não falei em nenhum governo "natural" ...
Antes pelo contrario, admiti como constitucionalmente legitimas diferentes hipóteses de governo, incluindo a actual, do PS viabilizado pela extrema-esquerda.
O que não se pode é dizer que o governo actual é formado por quem venceu politicamente as eleições.
O PS perdeu as eleições, ficou claramente atrás do PàF (e mesmo do PSD).
O PCP e o BE continuam a ser partidos fortemente minoritários, isoladamente e mesmo somados.
As eleições foram ganhas pelo PàF, uma coligação pré-eleitoral e que suportou o governo anterior durante toda uma legislatura.
O mais que se pode dizer é que esta vitória, por não ter sido com maioria absoluta, não foi suficiente para garantir ao PàF uma maioria parlamentar para formar um governo sem precisar da abstenção ou do apoio do PS.
O que se passou a seguir foi um arranjo oportunista entre partidos com programas muito diferentes e tradicionalmente opostos.

O que se passou agora não tem qualquer semelhança com o passado, nem sequer com o que aconteceu em 2011.
Não é verdade que o PSD tenha feito "campanha contra a austeridade".
Quando muito, o PSD criticou o tipo de austeridade aplicado pelo governo do PS.
Na verdade, no essencial, o PSD anunciou que iria aplicar a austeridade tal como estava prevista no memorando da Troika.
E foi, com os ajustes que são normais e inevitáveis numa realidade critica em evolução, de resto sempre partilhados pela Troika, o que foi feito.
A aliança post-eleitoral com o CDS foi perfeitamente normal e expectável tendo em conta a grande proximidade entre as linhas e os programas politicos dos dois partidos, de centro-direita, pró UE, pró Euro, pró Nato, pró economia social de mercado, etc, bem como a experiência passada de colaboração entre eles.

O que não foi normal nem expectável foi, como agora, um partido de centro-esquerda, o PS, pró UE, pró Euro, pró Nato, pró economia social de mercado, etc, ter feito uma aliança parlamentar com partidos de extrema-esquerda, anti UE, anti Euro, anti economia de mercado, etc, com os quais sempre tinha estado em oposição no passado, assumida de parte e de outra ainda poucos dias antes.
O único aspecto que parece aproximar estes partidos é o de serem contra a austeridade.
Mas é uma afinidade tirade a ferros ...
Ninguém é em principo a favor da austeridade ... Esta pode é ser uma necessidade momentânea.
De resto, a própria coligação PàF também defendia o progressivo fim da austeridade e tinha inclusivamente começado a agir nesse sentido em 2015 (recebendo até por isso algumas criticas de sectores mais liberais e de algumas instituições internacionais).
De resto, apenas alguns meses de governo já permitiram perceber que o governo actual não vai pôr fim à austeridade e que a este respeito existe claramente uma divergência entre o PS por um lado e o PCP e o BE pelo outro. 
Confirma-se assim aquilo que já se sabia, isto é, que o programa e a politica do PS estão muito mais próximos dos do PàF do que dos partidos da extrema-esquerda. 
Mesmo assim, como a aliança entre o PS e a extrema-esquerda é puramente oportunista, para impedir a coligação vencedora das eleições de governar e, deste modo, permitir ao PS chegar ao poder a troco de dar à extrema-esquerda uma maior influência na definição das politicas do governo, não é de esperar nos próximos tempos alguma ruptura na maioria parlamentar que leve à queda do governo. 
Como disse o actual PM há dias ... "a geringonça funciona" !!    
Mesmo que o preço a pagar seja o que se está a adivinhar e a vêr progressivamente, o aumento do risco e da probabilidade de um  afundanço do pais !!!...

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