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O título deste post surgiu por acaso, quando me apareceu à frente um texto, que tem associada uma ligação para um sketch bem bom, e que lá para o fim usa o título deste post (na verdade é o post que usa a frase do texto, com uma pequena alteração, como se pode verificar).
O autor é Pedro Gomes Sanches, que desconheço por completo mas a quem agradeço o título.
Recapitulemos.
Um presidente de uma federação de futebol tem umas atitudes resultantes da mais completa falta de noção (falta de noção não é crime, se fosse Marcelo estaria preso há muito, diria eu), uma delas (das que se conhecem) envolve uma terceira pessoa.
Na sequência, umas quartas, quintas e sextas pessoas resolvem fazer um charivari e a terceira pessoa envolvida só pede que a deixem em paz, não gostou do que aconteceu, mas está mais interessada noutros assuntos (como ganhar um campenonato do mundo).
Acontece que, ao lado do mais completo silêncio sobre a forma como os nossos sistemas jurídicos tratam deste caso descrito por Helena Matos, há muita gente que acha que não se pode passar ao lado do que se passou, por ser inadmissível (eu até acho que é, mas se a terceira pessoa envolvida pede que a deixem em paz, quem sou eu para a obrigar a reagir de outra maneira?), portanto é perfeitamente legítimo "instrumentalizar a vítima e inflamar o trauma", obrigando-a a ter a sua vida virada do avesso, contra a sua vontade, porque calhou ser a bandeira perfeita para fazer avançar uma agenda socialmente relevante, na opinião dos seus promotores e, provavelmente, de muito mais gente.
Já contei esta história e volto a ela.
Era eu dirigente intermédio no ICN e entra uma colega minha no meu gabinete, mesmo não sendo da minha unidade orgânica e nunca tendo trabalhado comigo, conhecíamo-nos de olá, olá e nada mais.
Vinha falar comigo depois de ser aconselhada por outras colegas a quem tinha contado uma cena inacreditável de assédio, que tinha começado num andar e tinha acabado com ela posta fora do edifício do ICN, à força.
Conhecia bem o idiota, sabia que era um prepotente de primeira ordem - tinha tentado forçar-me a fazer coisas que eu não queria fazer, nada pessoal, questões funcionais e profissionais, mas tinha tido azar porque rapidamente percebeu que eu não tinha medo dele (ele não sabia que sempre que ele levantava a voz eu dava uns passos atrás para ficar fora do alcance do braço e olhava à volta para identifcar caminhos de fuga, portanto medo, talvez tivesse, mas ele não sabia), o que tornava inúteis os mecanismos de coação que usava - não lhe conhecia a forma particular de prepotência de usava com as mulheres, mas não tive a menor dúvida de que a história, por bizarra que fosse, e era, traduzia o que se tinha passado.
A minha primeira pergunta foi para saber se havia terceiras pessoas que pudessem ter sido testemunhas e havia duas: a funcionária, externa, da segurança da entrada do prédio, que nunca iríamos pôr na posição de arriscar o seu emprego e o chefe directo da funcionária, a quem ela tinha telefonado a meio da cena, que era (e é) um Pilatos que lavaria as mãos com certeza.
Portanto, era a palavra da minha colega, contra a palavra do idiota, cujas fundas ligações ao poder era sólidas, percorriam toda a cadeia hierárquica até chegar a Sócrates, na altura a tutela política do instituto.
Foi então que expliquei à minha colega que se me estava a perguntar o que eu faria naquela situação, eu sabia responder, eu faria queixa e comprava uma guerra, quaisquer que fossem as probabilidades de ganhar ou perder, incluindo as probabilidades de ter efeitos futuros funestos para mim.
Mas isso seria a minha opção que sempre fui parvo e socialmente incompetente, incapaz de gerir equilíbrios sociais assentes em coisas a que sou bastante sensível, como a injustiça ou a prepotência.
Se o que me estava a ser perguntado era o que deveria a minha colega fazer, provavelmente a minha resposta era diferente, porque era a palavra de um contra o outro, e o mais natural é que acabasse completamente isolada e prejudicada, com o trauma inflamado e sem nenhum resultado prático útil, fosse para quem fosse.
Hoje diria que cometi um erro, porque na altura não conhecia o histórico que vim a conhecer, contado por várias outras colegas, de atitudes semelhantes do mesmo idiota (que espero que com a idade tenha ganho algum juízo, que a gente entretém-se com esperanças vãs, para não variar da cabeça).
No que tenho a certeza é de que não cometi, e espero nunca vir a cometer, o erro de instrumentalizar a vítima e inflamar o trauma, só porque me daria jeito ter mais uma bandeira para consertar o mundo, beneficiando dezenas de pessoas imateriais à custa da pessoa concreta que estava à minha frente.
As proporções sociais que atingiu a história que resultou da falta de noção do presidente da federação espanhola de futebol, face à ausência de comoção face a problemas bem reais como os descritos por Helena Matos, é o mesmo tipo de viés dos que acharam que os abusos sexuais na igreja eram úteis para fazer avançar a agenda da modernização da igreja, o que tornava moralmente aceitável menorizar o problema global do abuso sexual de menores através do esquecimento de que o que se passou (e passa) na Igreja não ter nada de específico, sendo muito provável que uma investigação do mesmo tipo no desporto, nos escuteiros, nos campos de férias, nas escolas, etc., viesse a ter conclusões semelhantes.
Aparentemente andamos com os critérios de análise e relevância dos assuntos um bocadinho baralhados.
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