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Instrumentalizar a vítima e inflamar o trauma

por henrique pereira dos santos, em 28.08.23

O título deste post surgiu por acaso, quando me apareceu à frente um texto, que tem associada uma ligação para um sketch bem bom, e que lá para o fim usa o título deste post (na verdade é o post que usa a frase do texto, com uma pequena alteração, como se pode verificar).

O autor é Pedro Gomes Sanches, que desconheço por completo mas a quem agradeço o título.

Recapitulemos.

Um presidente de uma federação de futebol tem umas atitudes resultantes da mais completa falta de noção (falta de noção não é crime, se fosse Marcelo estaria preso há muito, diria eu), uma delas (das que se conhecem) envolve uma terceira pessoa.

Na sequência, umas quartas, quintas e sextas pessoas resolvem fazer um charivari e a terceira pessoa envolvida só pede que a deixem em paz, não gostou do que aconteceu, mas está mais interessada noutros assuntos (como ganhar um campenonato do mundo).

Acontece que, ao lado do mais completo silêncio sobre a forma como os nossos sistemas jurídicos tratam deste caso descrito por Helena Matos, há muita gente que acha que não se pode passar ao lado do que se passou, por ser inadmissível (eu até acho que é, mas se a terceira pessoa envolvida pede que a deixem em paz, quem sou eu para a obrigar a reagir de outra maneira?), portanto é perfeitamente legítimo "instrumentalizar a vítima e inflamar o trauma", obrigando-a a ter a sua vida virada do avesso, contra a sua vontade, porque calhou ser a bandeira perfeita para fazer avançar uma agenda socialmente relevante, na opinião dos seus promotores e, provavelmente, de muito mais gente.

Já contei esta história e volto a ela.

Era eu dirigente intermédio no ICN e entra uma colega minha no meu gabinete, mesmo não sendo da minha unidade orgânica e nunca tendo trabalhado comigo, conhecíamo-nos de olá, olá e nada mais.

Vinha falar comigo depois de ser aconselhada por outras colegas a quem tinha contado uma cena inacreditável de assédio, que tinha começado num andar e tinha acabado com ela posta fora do edifício do ICN, à força.

Conhecia bem o idiota, sabia que era um prepotente de primeira ordem - tinha tentado forçar-me a fazer coisas que eu não queria fazer, nada pessoal, questões funcionais e profissionais, mas tinha tido azar porque rapidamente percebeu que eu não tinha medo dele (ele não sabia que sempre que ele levantava a voz eu dava uns passos atrás para ficar fora do alcance do braço e olhava à volta para identifcar caminhos de fuga, portanto medo, talvez tivesse, mas ele não sabia), o que tornava inúteis os mecanismos de coação que usava - não lhe conhecia a forma particular de prepotência de usava com as mulheres, mas não tive a menor dúvida de que a história, por bizarra que fosse, e era, traduzia o que se tinha passado.

A minha primeira pergunta foi para saber se havia terceiras pessoas que pudessem ter sido testemunhas e havia duas: a funcionária, externa, da segurança da entrada do prédio, que nunca iríamos pôr na posição de arriscar o seu emprego e o chefe directo da funcionária, a quem ela tinha telefonado a meio da cena, que era (e é) um Pilatos que lavaria as mãos com certeza.

Portanto, era a palavra da minha colega, contra a palavra do idiota, cujas fundas ligações ao poder era sólidas, percorriam toda a cadeia hierárquica até chegar a Sócrates, na altura a tutela política do instituto.

Foi então que expliquei à minha colega que se me estava a perguntar o que eu faria naquela situação, eu sabia responder, eu faria queixa e comprava uma guerra, quaisquer que fossem as probabilidades de ganhar ou perder, incluindo as probabilidades de ter efeitos futuros funestos para mim.

Mas isso seria a minha opção que sempre fui parvo e socialmente incompetente, incapaz de gerir equilíbrios sociais assentes em coisas a que sou bastante sensível, como a injustiça ou a prepotência.

Se o que me estava a ser perguntado era o que deveria a minha colega fazer, provavelmente a minha resposta era diferente, porque era a palavra de um contra o outro, e o mais natural é que acabasse completamente isolada e prejudicada, com o trauma inflamado e sem nenhum resultado prático útil, fosse para quem fosse.

Hoje diria que cometi um erro, porque na altura não conhecia o histórico que vim a conhecer, contado por várias outras colegas, de atitudes semelhantes do mesmo idiota (que espero que com a idade tenha ganho algum juízo, que a gente entretém-se com esperanças vãs, para não variar da cabeça).

No que tenho a certeza é de que não cometi, e espero nunca vir a cometer, o erro de instrumentalizar a vítima e inflamar o trauma, só porque me daria jeito ter mais uma bandeira para consertar o mundo, beneficiando dezenas de pessoas imateriais à custa da pessoa concreta que estava à minha frente.

As proporções sociais que atingiu a história que resultou da falta de noção do presidente da federação espanhola de futebol, face à ausência de comoção face a problemas bem reais como os descritos por Helena Matos, é o mesmo tipo de viés dos que acharam que os abusos sexuais na igreja eram úteis para fazer avançar a agenda da modernização da igreja, o que tornava moralmente aceitável menorizar o problema global do abuso sexual de menores através do esquecimento de que o que se passou (e passa) na Igreja não ter nada de específico, sendo muito provável que uma investigação do mesmo tipo no desporto, nos escuteiros, nos campos de férias, nas escolas, etc., viesse a ter conclusões semelhantes.

Aparentemente andamos com os critérios  de análise e relevância dos assuntos um bocadinho baralhados.


49 comentários

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De Anónimo a 29.08.2023 às 18:11

E Ayuso, uma vez mais, exemplar...
JSP
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De balio a 30.08.2023 às 10:45


Podemos ver a coisa pelo lado oposto.
Se Jenni Hermoso está a ser instrumentalizada contra a sua vontade, e sendo ela uma mulher perfeitamente adulta (33 anos de idade), porque tolera ela isso? Porque não se manifesta contra a exploração de que está a ser alvo, supostamente contra a sua vontade e para seu sofrimento e prejuízo? Porque não se demarca? Porque não abandona, por exemplo, a sua filiação no sindicato que, alegadamente, está a explorar o seu caso?
Não fazendo ela nada disso, só podemos concluir que a exploração do caso está a ser feita de acordo com a vontade dela ou, pelo menos, não contra essa vontade.
Ou seja, não há, de facto, qualquer exploração da vítima, mas tão-somente exploração do acontecimento, da ocorrência que, digamos assim, a vitimou. Ou seja, o beijo está a ser explorado, mas Hermoso não está. Pelo contrário, o beijo está a ser explorado por vontade de Hermoso, ou pelo menos não contra essa vontade.
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De henrique pereira dos santos a 30.08.2023 às 14:12

Contra a sua vontade é invenção tua, não é argumento meu.
Há muitas maneiras de instrumentalizar pessoas, incluindo o condicionamento da sua vontade.
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De balio a 30.08.2023 às 15:22


Um liberal, como eu, tende a considerar, à partida, que, quando as pessoas exprimem a sua vontade, essa vontade deve ser tida em conta, ainda que se possa acreditar que as pessoas estejam a ser instrumentalizadas.


Ademais, em minha opinião, as jogadoras não estão, de facto, a ser instrumentalizadas. Elas têm os seus desejos, que passam por serem mais respeitadas e, muito em particular, por ganharem tanto quanto os seus colegas masculinos. Esse é o objetivo, declarado e expresso, do sindicato delas - não é segredo nenhum. Para darem força a esta sua causa, elas estão a fazer um braço-de-ferro contra Rubiales e contra a "Real" Federação (que de real nada tem, o rei não mete nela prego nem estopa). Trata-se de uma causa delas e de uma tática delas. Não estão a ser instrumentalizadas, estão tão-somente a lutar pela sua causa.
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De henrique pereira dos santos a 30.08.2023 às 18:04

Se era para acabares a dizer o mesmo que eu - que o se está a passar não tem nada com o que se passou ou com a jogadora, mas com a manipulação do que se passou e da jogadora para fazer avançar uma agenda política e social - para que raio não disseste logo isso desde o princípio?
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De balio a 30.08.2023 às 18:14


Se o Henrique pensa o mesmo que eu, pois bem, fico satisfeito.
Eu frequentemente tenho dificuldade em perceber aquilo que o Henrique pensa; interpreto-o mal. No caso em questão, pelo título do post julguei que o Henrique pensava que Hermoso era uma vítima que estava a sofrer de um trauma, trauma esse e vítima essa que estavam a ser manipulados, melifluamente, por terceiros. Eu não penso nada disso. Pelos vistos, afinal o Henrique também não. Ainda bem.
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De henrique pereira dos santos a 31.08.2023 às 08:17

Eu não tenho opinião sobre se é uma vítima ou não, nem tenho de ter.
Ela é que tem de ter essa opinião, e sobre isso eu não escrevi nada.
O que tenho escrito é sobre as quartas, quintas e sextas pessoas que montaram um circo idiota com base no pressuposto de que a senhora é uma vítima de uma agressão sexual resultante de um abuso de poder, quando ela própria pediu para a deixarem em paz.
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De Anónimo a 30.08.2023 às 16:42

Balio, provavelmente, porque bem lá no fundo, a jogadora sente que não repudiou veemente o beijo, nem demonstrou suficientemente o seu incómodo, conforme, aparentemente,  o sugerem as imagens (talvez por ter ficado surpreendida pelo gesto inesperado ou talvez até por pudor), mas admito _ o que só prova a sua honestidade e que sente algum escrúpulo de consciência (dilema moral) em acusar o Rubiales. 
Confesso que no princípio admiti que a Jenni devia estar enfurecida e ofendida com o atrevimento do gesto, mas que estaria a autocontrolar-se para não "estragar" o momento de apoteose, a celebração da vitoria e para mais tratando-se dum evento público, filmado e visto por milhões de pessoas. Supus, portanto, que a jogadora estaria a reservar-se para reagir a seguir, logo que estivesse num ambiente mais reservado. Aguardei, pois, com certa curiosidade, como iria ela manifestar-se e mostrar, sem rodeios, o seu repúdio e ofensa pelo gesto (imperdoável) de Rubiales. 
Já dentro do autocarro, longe dos olhares da multidão, num ambiente privado e protegido, onde poderia comentar à vontade sobre o sucedido e dar asas à sua indignação, nada disso aconteceu, afinal... 
Surpreendentemente o seu estado de espírito não foi aquele que se esperaria. Assim mostra o vídeo.
Tudo o resto que veio a acontecer, parece-me que foi bem orquestrado e encurralaram a Hermoso num dilema moral. Só assim se explica a sua reacção. Sinal dos tempos! 
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De balio a 30.08.2023 às 18:06


Já dentro do autocarro as jogadoras troçam de Rubiales, que consideram um tanso, um mulherengo e um machista, mas inofensivo, pois elas estão, de facto, devido ao sucesso que obtiveram, muito acima dele.

Mais tarde, algumas dessas jogadoras, eventualmente a maioria delas, resolvem aproveitar a palermice (imperdoável) de Rubiales para fazerem pressão sobre a Federação de Futebol, para que ela as trate e as pague melhor.


Não sei se terão sucesso ou se merecem tê-lo. Sei que Rubiales deve cair, porque se portou muito mal. Não somente pelo beijo, mas por aquele gesto ordinário de levar a mão aos testículos aquando do golo. Rubiales é um ordinarão parvo, merece ser posto num canto, e sê-lo-á. As jogadoras sabem-no.
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De henrique pereira dos santos a 31.08.2023 às 08:19

Essas conclusões todas sobre Rubiales foste buscá-las à sentença de um tribunal que culmina um processo com todas as regras e mecanismos de defesa dos acusados ou são a tua opinião de que ser mal-criado é um crime sem remissão e que essa tua opinião deve servir de base para que as pessoas sejam sancionadas por se portarem mal?
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De balio a 31.08.2023 às 10:46


Rubiales não tem nenhum direito protegido por lei de continuar a ser presidente da "Real" Federação Espanhola de Futebol. Não é pois preciso um tribunal, com todas as regras e mecanismos de defesa, para o tirar desse posto. Basta que quem o pôs lá de lá o retire.
Ser malcriado não é um crime, mas é justificação para que certas pessoas sejam afastadas dos postos que ocupam.
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De balio a 31.08.2023 às 11:45


O Henrique está confundir um contrato de trabalho com uma posição para a qual se é nomeado.
Quem tem um contrato de trabalho somente pode ser despedido se cometer algo contra esse contrato. Eventualmente, pode recorrer ao sistema de justiça se fôr despedido sem justa causa.
Quem foi nomeado para uma posição pode ser demitido dela por quem o nomeou, a qualquer momento, e não pode recorrer ao tribunal. Basta mostrar que não é pessoa adequada para a posição.

Rubiales está (creio eu) na segunda condição, não na primeira.
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De Anónimo a 31.08.2023 às 10:07

Balio,Balio! desde quando as pessoas são postas a um canto por se "portarem mal" ou fazerem "gestos ordinários" ? Por essa ordem de ideias todos os "ordinarões parvos", os malcriados e grosseirões do futebol e não só (e olhe que são muitíssimos!!!) iam parar aos tribunais e... condenados!
E olhe que não seriam só as pessoas do mundo da "bola"... repare bem nas atitudes de certas figuras públicas e na linguagem de fino recorte dos políticos grosseirões da nossa praça... têm sido muitos os episódios e as frases memoráveis (pelas piores razões)! Certamente estará lembrado dos termos insultuosos usados por governantes de riso alvar, para achincalhar opositores. E olhe que não caíram!
Mas até nem seria má ideia _  aí estou de acordo consigo!_ pôr toda essa tropa fandanga no seu lugar, ou seja, como diz, «a um canto», por indecente e má figura.
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De balio a 31.08.2023 às 12:02


desde quando as pessoas são postas a um canto por se "portarem mal" ou fazerem "gestos ordinários"?


Podem não o ser e em muitos casos não o são. Mas devem sê-lo.


Rubiales fez três (não uma nem duas) coisas inaceitáveis:
(1) Beijou nos lábios uma mulher sem autorização dela;
(2) Pôs um braço em volta dos ombros da rainha;
(3) Agarrou os genitais com a mão em público, ainda por cima bem perto da rainha e das princesas (que são menores de idade).
Qualquer das três coisas é uma grosseria que mostra que ele é inadequado para o lugar que ocupa. Quem o pôs lá deve, pois, retirá-lo de lá.
(Note-se que Rubiales é um antigo jogador de futebol, mas licenciado em Direito. As grosserias que ele cometeu são compreensíveis num jogador de futebol, mas inaceitáveis num licenciado, especialmente em Direito.)

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