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Infarmed - retrato dos oportunistas

por José Mendonça da Cruz, em 22.11.17

Enquanto todo o funcionalismo público é embalado com promessas de descongelamento de carreiras, tão irresponsáveis como obscuras, cerca de 400 funcionários do Infarmed foram vítimas directas e tomaram súbita consciência da soberba, do cinismo, da opacidade e da incompetência com que um colectivo de oportunistas desgoverna o país.

Compreendo o esforço que os mansos e os aliados da geringonça nos media fizeram ontem e fazem hoje para secundarizar a notícia da mudança do Infarmed para o Porto. Às indignações de ontem por questões de lana caprina teriam que suceder hoje, perante isto e comparativamente, aberturas de telejornais arrasadoras, reportagens especialmente condenatórias, títulos de primeira página ululantes e fúrias sagradas. 

Caso tivessem honra e espinha os alegados jornalistas não deixariam de registar e classificar os passos deste extraordinário processo.

Primeiro. Um chefe de governo e um presidente de câmara negoceiam um acordo que arruina as já módicas hipóteses de acolher em Portugal a sede de uma agência europeia. Lisboa poderia alimentar esperanças; o Porto não tinha nenhumas. O interesse nacional era evidente, mas os dois homens trataram do seu, e ficaram satisfeitos.

Segundo. Os mansos dos media alimentaram até à última hora a ilusão dessa vitória impossível. Mas o mesmo chefe de governo e o mesmo autarca, bem conscientes do logro, acertaram sigilosamente uma compensação para a derrota: o Porto não teria a agência, obviamente, mas ficaria com o Infarmed.

Terceiro. Sem conhecimento da direcção, sem conhecimento dos funcionários, sem conhecimento do público, sem consideração dos prejuízos financeiros, de funcionamento e de credibilidade é anunciado que uma instituição respeitada nacional e internacionalmente é mudada de sopetão da primeira para a segunda cidade do país. Costa chama a isto «descentralização» -- algo normal para quem chama «fim da austeridade» ao aumento de impostos indirectos que absorve largamente as supostas reposições de rendimentos.

Quarto. Aos 400 funcionários do Infarmed e respectivas famílias, chocados com a conspiração e a ligeireza do decreto, o ministro da saúde explica de que raça é o seu governo: se os trabalhadores não gostam, arranjam-se outros.

Temos, portanto: uma decisão ao arrepio do interesse nacional; opacidade e negociações de bastidores; outra decisão ao arrepio de considerações financeiras e do prestígio de uma instituição; e, por fim, um ministro que -- para ser-se tão brutal como ele - manda os trabalhadores à merda.

Visto isto, como reagem os mansos e os vendidos dos media?

A Sic faz a cobertura... do governo, entenda-se. Abre o telejornal das 13 referindo que os trabalhadores do Infarmed foram surpreendidos, após o que dá voz a um antigo director, ao autarca do Porto e ao ministro da Saúde para explicar que isto é descentralização, que é bom para todos, que tudo foi sopesado. Às 20 horas fez ainda melhor: só chegou a tempo do período de perguntas e respostas da conferência de imprensa dos funcionários do Infarmed. Chegou tarde porque antes teve que: a) deter-se demoradamente sobre a 5ª derrota do Benfica na Champions; b) misturar as críticas da Comissão Europeia ao OE com sonhos sobre o cargo estrangeiro de Centeno; e c) truncar afirmações do PR, de forma a que «o caminho que serve os portugueses», que Marcelo disse ser o da «sensatez orçamental», parecesse ser o caminho de Costa. 

A TVi é mais tímida. Fez um directo à porta do plenário dos trabalhadores, mais gaguejadamente e com a habitual menor competência, e passou pressurosamente à premente e fugidia questão da seca.

A RTP serviu o dono. Sem tempo para transmitir as objecções dos funcionários do Infarmed, às 20 horas, cortou o directo e anunciou que convidara para uma entrevista sobre o tema o autarca do Porto, Moreira.

O Público online escolhe para manchete a Bósnia; o Diário de Notícias, a prisão de agentes da GNR.

E, assim, ao menos 400 funcionários públicos ficam a saber o que muita gente sabia e outra vai aprendendo lentamente: que o governo que espolia a economia privada para alimentar as suas clientelas é capaz do mesmo desprezo por eles, funcionários públicos; e os alegados jornalistas que trazem o funcionalismo nas palminhas só o trazem assim enquanto e nos estritos casos em que isso favoreça a sua parcialidade, o seu interesse e a geringonça.

 

 



8 comentários

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De Anónimo a 22.11.2017 às 17:22

Penso que foi nesta notícia que um dos canais apresentou hoje o sucedido e no fim, a rematar, noticiou que um sujeito qualquer elogiou o governo pela corajosa decisão. Há-de arranjar-se sempre um Santos Silva qualquer que nos dê a mão e a bênção. Contexto? Zero! Porca miséria.
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De Anónimo a 22.11.2017 às 18:24

Quando um governo e ministro da pasta estão-se cag...do para regularizar um concurso de professores que prejudica centenas deles com médias superiores aos que ficaram com o lugar, e que  foram afastados das suas escolas para centenas de Kms das suas casas e como solução, diz-lhes; Esperem 1 ano e concorram!
O tal Márcio Nogeira, PC e BE mostram aqui a sua falta de escrúpulos e de carácter.
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De Tiro ao Alvo a 22.11.2017 às 19:09

Aqui está um bom exemplo do mau patrão, que se comporta como dono, inclusive dos seus empregados/servidores.
Todavia, os governos não são donos dos serviços públicos, estando apenas a fazer as vezes deles, dos verdadeiros donos, que somos nós, os contribuintes.
Se queres ver o vilão, mete-lhe a vara na mão.
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De Anónimo a 23.11.2017 às 10:44

Isto é engraçado. Andamos anos a ouvir a direita a dizer que a função pública e o Estado em geral deve ser reduzida, que temos funcionário a mais, que os funcionários são uns priveligiados em relação aos privados. Os funcionários públicos deviam ter o mesmo estauto dos privados, incluindo redução do salário quando a produtividade é reduzida, despedimentos mais livres, etc, Não é assim? Ou não era assim? A mesma direita agora, porque lhe dá jeito, indigna-se muito porque 400 funcionário em Lisboa são deslocados para o Porto. Isto é muito engraçado.

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De Anónimo a 23.11.2017 às 11:02

Chapéu ao Porto Canal (a cujo dono sou total e intrinsecamente adverso) que transmitiu na íntegra a conferência de imprensa dos trabalhadores (racional e com muito que meditar sobre as reais consequências).
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De Anónimo a 23.11.2017 às 14:42

Que post a tresandar a ódio, irracional e extremista.
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De Rui a 23.11.2017 às 15:10

Era só o que faltava o Estado não poder mudar a localização de serviços públicos por isso causar inconvenientes aos trabalhadores. 
Se causa incómodos a famílias em Lisboa indisponíveis para se mudar, certamente poderá causar alegrias a famílias no Porto que poderão ter familiares empregados nos lugares que ficarem disponíveis.


Espero que seja uma medida a repetir com muitos outros organismos e que se dê prioridade às zonas do país em que o rendimento é menor pois nesses locais os empregos públicos são bem mais importantes do que em Lisboa onde o rendimento médio é superior à média Europeia. 
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De Anónimo a 24.11.2017 às 11:23

Lisboa não tinha hipótese nenhuma. Nenhuma.

https://www.politico.eu/article/real-winner-of-race-for-the-european-medicines-agency-guido-rasi/


E o governo ( e Rui Moreira) acham os portuenses uns camelos a quem se podem prometer uns castelos no ar. Triste.





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