Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Ignições e alertas

por henrique pereira dos santos, em 09.08.25

Tenho aprazada uma conversa com pessoas que respeito bastante, que sabem bem mais que eu de fogos e gestão de fogos, que me querem puxar as orelhas por eu desvalorizar a questão das ignições.

Pode ser que, nessa altura, eu mude de opinião.

Enquanto isso não acontece, escrevo este post a manifestar a minha estupefacção pelo alargamento da situação de alerta, com o argumento, extraordinário, de que como com a situação de alerta anterior as ignições diminuíram, o melhor é insistir no erro.

O erro não é diminuir as ignições, em tese, isso é bom, na prática, tem um interesse relativo porque a área ardida (e, já agora, o número de ignições) depende essencialmente da meteorologia e do tempo que passou desde o último fogo (80% e 20% da importância, respectivamente).

O erro é considerar que o método usado para diminuir as ignições (proibições generalizadas) não tem custos reais e pode ser usado discricionariamente.

Um empresário que todos os dias trabalha na gestão florestal e gere combustíveis finos em muitos hectares usa o facebook para expressar a sua irritação com esta decisão de pôr o país todo em Estado de alerta: "De Santa Comba Dão a Leiria, 18°C, nevoeiro e escovas do carro sempre ligadas. Há centenas ou milhares de pessoas que não podem trabalhar na floresta por causa do risco de incêndio. Não está correto!!!".

À noite telefona-me um amigo, noutra região do país, e no meio da conversa fala-me na quantidade de homens pelos cafés, com o dia ganho, mas sem poder ir cortar eucaliptos ou outra actividade qualquer de gestão florestal, apesar da humidade e mesmo nevoeiro (umas pingas escassas de chuva num dos dias, inclusivamente) que qualquer pessoa sentia.

E no meio da conversa diz: "sabes como é, aqui o que as pessoas pensam logo é que os tipos de Lisboa que tomam estas decisões não fazem a menor ideia do que é a vida deles e, na verdade, se estão nas tintas para eles, de maneira que dizem que vão votar no Chega, acham que se é para partir, então o melhor é partir a sério, estão fartinhos, fartinhos dos que estão lá há anos".

Tirando estas questões sociais reais, a do sentimento de injustiça relativa, dos mais corrosivos ácidos sociais que conheço, racionalizando a discussão, é extraordinária a ligeireza com que se tomam decisões que afectam direitos fundamentais das pessoas, como o direito de circulação, o direito ao trabalho, etc., e que, ainda por cima, têm custos sociais que valeria a pena avaliar.

O país tem um problema sério de abandono de gestão dos territórios marginais, daí resulta um padrão de fogo socialmente destrutivo e com efeitos negativos de retorno estudados (o risco de incêndio é dos maiores travões ao investimento no sector) e o que decide o governo?

Como alguns modelos teóricos dizem que seria útil reduzir ignições para que os meios de combate não colapsem (lembram-se dos confinamentos para evitar o colapso dos serviços de saúde? A lógica é exactamente a mesma, diga a Constituição o que disser, como dizia o então primeiro-ministro, perante a complacência de um Presidente da República que resolveu não remeter nada para o tribunal constitucional que, à posteriori, veio confirmar que havia graves inconstitucionalidades no que então foi decidido), o Governo não acha nada melhor que agravar as condições e custos das actividades de gestão de combustíveis finos, agravando o problema de base da competitividade da gestão florestal.

E nem quero falar do papel do ministro da economia, que se está nas tintas para isto e acha que o ideal é andar a substituir-se às seguradoras criando apoios às actividades que, vivendo da gestão da paisagem que outros fazem, não gastam um tostão na defesa do seu recurso base.

Há quem se lembre de ir dar de beber à dor, eu lembro-me mais frequentemente do Cansaço de Amália Rodrigues "Tudo o que faço ou não faço/ Outros fizeram assim/ Daí este meu cansaço/ De sentir que quanto faço/ Não é feito só por mim".


12 comentários

Sem imagem de perfil

De Alberto Mendes a 09.08.2025 às 11:04

Ainda hoje vi a cara de fúria de um gestor cinegético: como vai colocar as portas para a abertura aos pombos até dia 17? Alguém que investiu algums milhares em grão e limpeza vê se castigado pelos idiotas de fato das avenidas lisboetas 
Sem imagem de perfil

De Raposo a 09.08.2025 às 11:13

Caro HPS, está carregadinho de razão. Quanto aos ditos "entendidos" em gestão do fogo, que lhe puxaram as orelhas, sendo, imagino eu, especialistas universitários, tenho para mim, que não vai mudar de opinião após a aprazada conversa com os ditos ilustres. Devem com certeza invocar uns quaisquer "modelos matemáticos", para lhe provar que o fundamental é diminuir a probabilidade de ocorrência de ignições. Se para isso tiverem de confinar um país inteiro, pois, confine-se. Estes estudiosos e especilalistas "universitários", do alto da sua cátedra, nutrem o mais produndo desprezo pelos comuns que andam pelo terreno...
Imagem de perfil

De henrique pereira dos santos a 09.08.2025 às 11:32

Não é o caso, é gente séria que sabe e com experiência concreta de terreno
Sem imagem de perfil

De Raposo a 09.08.2025 às 11:56

Sendo assim, estou ansioso pela partilha do resultado da conversa.
Sem imagem de perfil

De Anonimo a 09.08.2025 às 13:01

Ainda bem que mudou de opinião 
Sem imagem de perfil

De Anonimo a 09.08.2025 às 13:01

lembram-se dos confinamentos para evitar o colapso dos serviços de saúde?


Provada a inutilidade. Responsáveis, zero.
Sem imagem de perfil

De Vitor a 09.08.2025 às 15:31

Tomaram-lhe o gosto desde o COVID. Agora não querem outra coisa. 
Sem imagem de perfil

De G. Elias a 10.08.2025 às 16:45

O desejo de controlar as populações é muito anterior ao COVID, diria até que vem de tempos imemoriais.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 09.08.2025 às 19:03

Compreendo o desespero dos madeireiros. Mas:´
- Há poucos anos, na minha aldeia na zona da Bairrada, no centro da aldeia estavam uns homens no meio de um campo a cortar metal com uma rebarbadora. Por detrás deles, sem que eles notassem, as fagulhas disparadas pela rebarbadora atearam fogo à vegetação rasteira seca. Não foram capazes de apagar o fogo, que ameaçava propagar-se às casas da aldeia. Tiveram que vir muitos bombeiros.
- Também há poucos anos, num festival de música ao ar livre nos arredores de Castelo de Vide, automóveis inocentemente estacionados num parque de estacionamento improvisado atearam fogo à vegetação rasteira seca, através do metal quente das suas partes inferiores. O incêndio resultante progrediu e destruiu 400 automóveis.
O que quero dizer com isto é que as atividades humanas mais inocentes podem, nestas condições, causar incêndios totalmente imprevisíveis pelos que os causaram. E esses incêndios podem ser altamente destrutivos. Em condições como as atuais, não há nada, mesmo, como não fazer nada.
Sem imagem de perfil

De G. Elias a 10.08.2025 às 10:51

No caso do incêndio de Castelo de Vide que destruiu inúmeras viaturas, creio que nunca se provou qual foi a fonte da ignição. 
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 10.08.2025 às 11:32

Talvez não se tenha provado.
Mas o certo é que foi um incêndio totalmente não intencional, provocado pela presença de humanos numa área de vegetação seca. E, certamente, por alguma coisa muito quente que esses humanos transportaram ou geraram.
É para evitar estes incêndios que humanos podem, de forma totalmente não intencional e totalmente inconsciente, causar quando estão em zonas de vegetação seca em dias propícios, que se impõe esta proibição.
Sem imagem de perfil

De Mário Palhavã a 11.08.2025 às 15:50

Bom dia, Isto dos fogos é muito complicado, como dizia o outro, só para sua informação e dos seus leitores: na herdade de S. Romão, freguesia e concelho de Reguengos de Monsaraz, 1 trator a puxar uma grade de discos, para controlar ação rasteira, provocou um incêndio de proporções razoáveis ao passar por cima de uma laje de xisto ao provocar uma faísca quando 1 dos discos riscou o xisto. O tratorista só se apercebeu dessa ignição quando já era demasiado tarde. Isto ocorreu há cerca de 29 anos. Mais recentemente na herdade das Tabolinas, freguesia de São Marcos do Campo, concelho de Reguengos de Monsaraz, arderam mais de5 hectares junto ao monte, sem que ninguém lá estivesse. Ainda hoje penso que a ignição se deveu a algumas fgarrafas de vinho transparentes abandonadas à esturreira do Sol.   

Comentar post



Corta-fitas

Inaugurações, implosões, panegíricos e vitupérios.

Contacte-nos: bloguecortafitas(arroba)gmail.com



Notícias

A Batalha
D. Notícias
D. Económico
Expresso
iOnline
J. Negócios
TVI24
JornalEconómico
Global
Público
SIC-Notícias
TSF
Observador

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes


Links

Muito nossos

  •  
  • Outros blogs

  •  
  •  
  • Links úteis


    Arquivo

    1. 2026
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2025
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2024
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2023
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2022
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2021
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2020
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2019
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2018
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2017
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2016
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2015
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D
    157. 2014
    158. J
    159. F
    160. M
    161. A
    162. M
    163. J
    164. J
    165. A
    166. S
    167. O
    168. N
    169. D
    170. 2013
    171. J
    172. F
    173. M
    174. A
    175. M
    176. J
    177. J
    178. A
    179. S
    180. O
    181. N
    182. D
    183. 2012
    184. J
    185. F
    186. M
    187. A
    188. M
    189. J
    190. J
    191. A
    192. S
    193. O
    194. N
    195. D
    196. 2011
    197. J
    198. F
    199. M
    200. A
    201. M
    202. J
    203. J
    204. A
    205. S
    206. O
    207. N
    208. D
    209. 2010
    210. J
    211. F
    212. M
    213. A
    214. M
    215. J
    216. J
    217. A
    218. S
    219. O
    220. N
    221. D
    222. 2009
    223. J
    224. F
    225. M
    226. A
    227. M
    228. J
    229. J
    230. A
    231. S
    232. O
    233. N
    234. D
    235. 2008
    236. J
    237. F
    238. M
    239. A
    240. M
    241. J
    242. J
    243. A
    244. S
    245. O
    246. N
    247. D
    248. 2007
    249. J
    250. F
    251. M
    252. A
    253. M
    254. J
    255. J
    256. A
    257. S
    258. O
    259. N
    260. D
    261. 2006
    262. J
    263. F
    264. M
    265. A
    266. M
    267. J
    268. J
    269. A
    270. S
    271. O
    272. N
    273. D