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Guilherme II - um monarca na vanguarda do século

por Daniel Santos Sousa, em 04.06.25

Bundesarchiv_Bild_136-C0804,_Kaiser_Wilhelm_II._im

 Guilherme II, último Imperador da Alemanha e rei da Prússia, faleceu a 4 de Junho de 1941, em Huis Doorn, Doorn (Países Baixos). Derrotado e exilado foi talvez dos mais odiados homens do século XX, ainda que a justiça tarde para esta figura renegada num século que conheceu todas as catástrofes. Um homem singular: grande orador, carismático, culto e apreciador das artes, tinha ao seu alcance o esplendor de uma era. Mas era também de temperamento irascível, instável e irritável, muitas vezes tendente a depressões.

O neto preferido da rainha Vitória foi talvez o mais inglês de todos os alemães, a proximidade que sentia ao povo de além-Mancha faziam-no crer numa aliança futura. Não podia estar mais enganado. Guilherme II admirava os ingleses, mas não os compreendia. Imediatamente a criação da marinha de guerra alemã levantou suspeitas à Britânia senhora dos mares. Entre outros erros diplomáticos (a política externa não era o seu forte), a incapacidade para garantir o equilíbrio entre a Áustria-Hungria e a Rússia, impérios cuja sede de ambição nos Balcãs conduziria a Europa para o suicídio colectivo em 1914.

O equilíbrio que Bismarck habilmente criara aos poucos começava a ruir. Aspirando à ribalta e consciente do seu desígnio histórico, o Kaiser afastara o velho ministro da vida política (a incompatibilidade dos homens de temperamento forte). Mas Guilherme II demonstra-se internamente um político hábil. É sobretudo um "imperador social" que para combater a ascendente força do partido social democrata institui uma legislação do trabalho sem precedente na Europa: desde leis sobre acidentes de trabalho, doença e velhice votadas entre 1882 e 1889 as quais formam, depois das políticas de Bismarck, o primeiro conjunto de reformas sociais, décadas antes da "revolucionária" e "republicaníssima" França.

São também pensados pelo Kaiser os tribunais arbitrais, o descanso ao domingo e a limitação das horas de trabalho. Juntamente com Bismarck, Guilherme II é o arquétipo do revolucionário de topo, como fora Alexandre II, da Rússia, Leopoldo da Bélgica e, entre nós, o nosso rei D. Carlos.

Do que mais gostava era das encenações, as grandes demonstrações militares, contudo teme a guerra. No fundo, cultivava o culto da personalidade. Todo esse "teatro" (um “regime de opereta” como chamava o nosso D. Carlos) fazia-o talvez ignorar a realidade do seu próprio poder: Guilherme II estava limitado como “rei constitucional”. Mas, ao mesmo tempo, está politicamente na vanguarda dos novos tempos: apercebe-se de elementos políticos importantes que no futuro definirão a política de massas: os discursos, a grande oratória, a ideia do soberano reflectir a vontade do povo, são constatações que fazem dele sobretudo um estadista moderno.

 Acredita no direito divino, mas não ignora que o poder deriva da nação, o que é interessante no seu pensamento: tradicionalista e revolucionário, conservador politicamente, mas ideologicamente na linha de um “socialista de cátedra”, propenso para a reforma social e para a manutenção da ordem e da autoridade. Em tudo é um paradoxo.

No reinado de Guilherme II a liberdade cresce. Entre as várias reformas políticas está a visão de um monarca esclarecido. Assim, a lei que reprimia os socialistas é revogada, aceita também que se constituam partidos políticos: desde a direita, militada pelo conservadorismo prussiano, hierárquico, castrense, nobiliárquico, ao centro católico. Amnistia as esquerdas sociais-democratas e dá alento à burguesia dividida entre liberais nacionais e liberais de esquerda. 

 Esta não é apenas a Alemanha do grande fomento industrial e do progresso económico, mas também da cultura, das artes e das ciências, que a Europa reconhece nos inúmeros galardoados com o Nobel, ou que são reconhecidos nas letras, na pintura, nas reformas políticas e na vanguarda da reforma social. Que mundo se perdeu.

Com o Kaiser morre uma certa Alemanha, o Reich que não resistiu a Bismarck seu arquitecto principal. Desaparece uma certa ordem, mas também sucumbe esse status quo, que foi história e tradição, que no âmago das hierarquias tradicionais reunia o melhor escol do Império. Junger foi um bom juiz deste declínio ao referir "os últimos troncos da nobreza alemã" que durante mil anos tinham sobrevivido a todas as crises e provações, mas não ao século XX. Duas guerras mundiais ditariam o fim da velha ordem.

 No final, traído e amargurado,  o velho monarca permaneceu um exilado, nunca desejando regressar à pátria enquanto a monarquia não fosse restaurada. O ciclo político não lhe foi grato, consomou-se a transformação europeia numa realidade que ficou nos antípodas de toda a concepção heróica, tradicional e metafísica, um mundo "de ontem" petrificado na história.

 Guilherme II é uma das mais interessantes figuras do século XX, admirado e odiado, merece ser estudado com atenção e com a relevância necessária.


4 comentários

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De cela.e.sela a 04.06.2025 às 11:32

acabam sempre atropelados os que vão à frente da carroça dos políticos
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De Albino manuel a 04.06.2025 às 13:00

Um maluco, é o que a historiografia alemã diz dele. Inteligente, com gosto pela técnica, mas desequilibrado. Um dos bisnetos dizia que muita da culpa da queda da monarquia fora do vovô. Gostava muito de fardas, tinha 500 ou coisa que tal. Odiava a mãe. Preguiçoso, grandes almoçaradas. Desbragado nos discursos, escrevia notas disparatadas à margem dos documentos. Atraiçoou vários chanceleres. Não governava, mas era uma sombra. No final já não mandava, mas sim os generais. Dava condecorações. Pior que ele só o filho, o príncipe da coroa. Se o de Baden tivesse dito sim talvez a monarquia tivesse aguentado.
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De lucklucky a 04.06.2025 às 13:25

"O neto preferido da rainha Vitória foi talvez o mais inglês de todos os alemães, a proximidade que sentia ao povo de além-Mancha faziam-no crer numa aliança futura."


O Kaiser tinha forte inveja da Grâ Bretanha, ele com Tirpitz foram os grandes esteios da construção de uma marinha oceânica para rivalizar com a Royal Navy. Tendo umas forças armadas essencialmente terrestres existiu um investimento brutal na Marinha a partir do início do século XX.
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De vasco Silveira a 09.06.2025 às 21:04

Caro Senhor


Agradeço-lhe de novo o seu desafio para relembrar a história, a Europeia da mudança de século.
Confesso que , tal como os anteriores comentadores, tinha ouvido deste Kaiser acabou com o Reich alemão, ao não ter capacitado uma ágil transferência da coroa para os seus descendentes, o que é suficiente para o julgar um rei.
Mas despertou a minha curiosidade, e ... vou ler mais... .


Cumprimentos e obrigado.

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