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Guerra à vista na Ucrânia pode tornar-se conflito mundial?

por Maria Teixeira Alves, em 27.02.14

 

"A Crimeia é da Rússia", gritam os militantes pró-russos que invadiram os edifícios do Parlamento e do governo regional da Crimeia, ambos na capital da península Simferopol. Cerca de 60 homens armados, segundo a agência russa Interfax, içaram a bandeira russa na Crimeia.

Crimeia, que nome lindo, transporta-nos logo para um qualquer romance de Dostoiévski. Mas tem uma carga trágica. Foi palco de uma guerra no século XIX e de uma batalha na Segunda Guerra Mundial.

Esta invasão às sedes oficiais do Governo Regional da Crimeia ameaça tornar-se o príncipio de uma guerra separatista que poderá acabar com o envolvimento dos Estados Unidos, senão mesmo, mundial. Putin não vai deixar a Ucrânia cair nas mãos comerciais do Ocidente (a Ucrânia quer por tudo ser da União Europeia e divorciar-se da Rússia para sempre). A Ucrânia, com a sua indústria siderúrgica, minas de carvão e grande produção de trigo, além da sua posição entre a Rússia e a Europa Oriental, é peça-chave na estratégia geopolítica de Moscovo. Putin não vai de mão beijada abrir mão da influência da Russia na Ucrânia.

Assim, o presidente Vladimir Putin já colocou, na quarta-feira, dia 26, em estado de alerta, as suas Forças Armadas no oeste da Rússia e ordenou manobras militares de grande escala na região que faz fronteira com a Ucrânia. Foi a primeira reacção da Rússia à queda, no sábado, do presidente ucraniano, Viktor Yanukovich, devido a violentos protestos contra a interferência russa no processo de associação de Kiev à União Europeia. E no mesmo dia, e isto pode ser mera coincidência, um navio de guerra russo ancorou em Havana (quarta-feira) sem qualquer explicação dada pelo Governo comunista de Cuba ou sem qualquer anúncio desta paragem nos meios de comunicação estatais.

O secretário de Estado dos EUA, John Kerry, alertou entretanto que a Rússia incorrerá  "num grave e imenso erro" se intervier na Ucrânia. Ao mesmo tempo que anunciou a concessão de um empréstimo de 2 biliões de dólares ao novo governo de Kiev - enquanto os dois maiores bancos russos congelaram as suas linhas de crédito à Ucrânia. As condições económicas de Kiev são muito frágeis neste momento.

A Ucrânia também já pediu ajuda ao FMI.

Em Sevastopol, na Crimeia, a Rússia tem uma grande base naval e a frota do Mar Negro com cerca de 25 mil militares. O presidente interino ucraniano, Alexander Turchínov, avisou que qualquer movimento na base "será considerado uma agressão". Também no quartel-general da NATO, em Bruxelas, o secretário-geral Anders Rasmussen apelou à Rússia para "não tomar nenhuma acção que aumente mais a tensão".

A crise está a subir de tom. Crescem os receios de separatismo na península esmagadoramente pró-Rússia no Mar Negro. A isto não é alheio a destituição do Presidente pró-Moscovo Viktor Yanukovich, procurado pelas autoridades com um mandado internacional de prisão, mas que deverá estar escondido pelos russos na Crimeia, onde detém grande apoio da massa popular que se opõe ao que classificam de "golpe militar armado".

A Crimeia, era considerada pela União Soviética como parte da Rússia, mas foi oferecida à Ucrânia em 1954 por Khrushchov como presente de comemoração do 300° aniversário da unificação da Rússia e da Ucrânia. Mas continuou a albergar a frota naval russa do Mar Negro na cidade portuária de Sebastopol.
É uma região maioritariamente de descendentes russos e Moscovo não parece querer deixar este território, onde detém a principal base naval/militar do Mar Negro, ao livre arbítrio do novo poder de Kiev, que surge orientado para uma progressiva aproximação às instituições europeias, em paralelo com o afastamento do poder da influência exercida pelo Kremlin, influência que se acentuou durante a vigência do pró-russos Yanukovitch.



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