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Governar para os ricos

por henrique pereira dos santos, em 27.05.24

Imagem WhatsApp 2024-05-24 às 14.43.07_925eb3dd.j

Como digo no post, impostos não é a minha área, consultei vários simuladores, mas devo ter-me enganado em algum lado, pelo que o que está escrito sobre os impostos pagos com um ordenado bruto de mil euros não está certo, em vez de 400 deve andar pelos 2500, o que significa que os que ganham 5 mil pagam dez vezes mais impostos, e não 50

O PS resolveu inventar uma narrativa sobre uma governação para os ricos que parece ter como objectivo bloquear o programa fiscal da AD (a pedido de Luís Lavoura, substituí governo por AD em todo o texto, para que pessoas que só são capazes de ler a literalidade do que é escrito não sejam enganadas): descida do IRS, IRS jovem e descida do IRC.

Pela parte que me toca, não gosto mesmo nada de medidas dirigidas aos jovens ou a outro grupo social qualquer definido de forma arbitrária, e portanto não estou particularmente entusiasmado (de vez em quando dá-me para os eufemismos) com a medida do IRS jovem.

Dito isto, percebo a lógica da medida: se Portugal tem um problema de perda de quadros por falta de competitividade internacional dos salários nesse grupo de pessoas, o Estado pode dar um empurrão para resolver o problema mexendo na parte que lhes diz respeito do problema,.

Por isso a AD pretende mexer na carga fiscal que incide sobre esses ordenados, melhorando a competividade dos salários portugueses sem esforços adicionais para os empregadores, quando se avalia o que verdadeiramente interessa aos trabalhadores: o seu ordenado líquido.

Acharia normal que o PS contestasse a medida por ser socialmente injusta, ou por não ter um mecanismo de transição mais suave da situação de excepção para a normalidade, o que não acho normal é que o estribilho escolhido pelo PS - governar para os ricos - seja tão pouco escrutinado pela imprensa.

Vejamos as declarações que citei no boneco acima.

O PS está indignado pelo facto de que quem ganha cinco vezes mais, e paga 50 vezes mais IRS (aspecto que o PS omite, evidentemente), beneficie sete vezes mais na descida de impostos.

Qualquer descida de impostos que pretenda diminuir os impostos de quem paga mais impostos, beneficia muito mais os que pagam mais impostos e beneficia tanto mais quanto mais progressivo for o imposto, portanto, ou não se descem os impostos de quem ganha mais, ou o facto de beneficiar mais quem ganha mais é uma consequência inevitável da elevada progressividade do IRS em Portugal.

Não sei onde foi o PS desencantar o benefício de 55 euros por mês de quem ganha mil euros porque quem ganha mil euros, pelas minhas contas, paga qualquer coisa como menos de 30 euros de IRS por mês, sendo portanto impossível que beneficie tanto.

Como posso ter feito as contas mal, vou admitir que quem ganha 1000 euros por mês (dois terços, diz o PS, não vou verificar) beneficia apenas 55 euros quando quem ganha 5000 (o PS esquece-se sempre de tudo o que está no meio, entre 1000 e 5000 euros de ordenado por mês, tal como se esqueceu de ver qual era a percentagem de jovens até aos 35 anos que ganham 5000 euros ou mais) beneficia 1000 euros por mês, com a medida (quando paga mais de 2000 euros por mês de IRS, os tais cinco mil euros de ordenado na verdade são praticamente 2500 líquidos, o resto é para o Estado).

Se o que está em causa é a competitividade internacional dos ordenados portugueses, diminuir 55 euros a quem ganha 1000 euros é irrelevante (não é irrelevante para os beneficiados, só é irrelevante para aumentar a competividade internacional desse nível de ordenados) mas diminuir 1000 euros nos impostos de quem ganha cinco mil, passando o ordenado líquido de 2500 para 3500, já não é irrelevante.

Para quem ganha mil euros por mês a descidas de impostos, que paga residualmente, é pouco importante, do que realmente precisam as pessoas que ganham mil euros é que o seu ordenado aumente.

Ora vejamos o que acontece quando aumenta o ordenado, por exemplo, de mil para mil e quinhentos euros.

Para o empregador, o esforço não é de 500 euros, mas de 630, porque sobre o aumento tem de pagar TSU.

Do esforço adicional de 630 euros (todos os números são aproximações e se as contas estiverem grosseiramente erradas, agradeço correcções) que o empregador faz, o trabalhador fica com 300 euros e o Estado com 330 euros.

Eu acho inacreditável que para estes níveis de ordenados o Estado fique com mais de metade do esforço dos empregadores para remunerar melhor os seus trabalhadores.

Estranhamente, o PS tem-se empenhado seriamente em manter esta situação, considerando que descer o 6º escalão do IRS é governar para os ricos, sem que a imprensa esteja sistematicamente a perguntar ao PS (rendimentos colectáveis, eu não sou o PS, portanto peço que o valor que vou citar não seja confundido com os valores que tenho vindo a citar e dizem respeito a ordenados brutos) por que razão acha que rendimentos líquidos acima de dois mil euros correspondem a rendimentos de pessoa rica (o que transforma qualquer deputado numa pessoa riquíssima, visto terem remunerações líquidas, ordenados e outros pagamentos, acima do dobro desse limiar de riqueza, se não estou em erro), que justifique que o Estado fique com mais de metade de aumentos do salário deste nível.

Que o PS se empenhe na conversa da governação para os ricos, como forma de bloqueio da actividade da AD, é a vida, e haverá um dia eleições para cada pessoa avaliar como usar o seu voto em função disso, mas que a imprensa sistematicamente, por omissão ou acção, vá nessa conversa, francamente, não entendo.


8 comentários

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De G. Elias a 27.05.2024 às 21:18

A pobreza é sempre uma questão relativa, porque tem em conta a média do país / sociedade em que a pessoa se insere.


Em Portugal , 1000 euros por mês não é muito, mas em muitos países africanos e asiáticos, quem receber 1000 euros por mês é rico, uma vez que nesses países o rendimento médio é muito mais baixo. Por outras palavras, ser rico ou ser pobre é um conceito que decorre da comparação que fazemos entre nós próprios e os outros.
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De António a 27.05.2024 às 21:40

Mas não estamos num país africano ou asiático. Não atestamos o carro na Venezuela. Não vamos ao supermercado no Uganda. Não compramos casas no Nepal.
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De G. Elias a 28.05.2024 às 14:25

Exacto. É esse o meu ponto: o conceito de pobreza é sempre relativo e decorre da comparação com aqueles que nos rodeiam. Se temos menos que os outros somos pobres, mesmo que noutro país o mesmo conjunto de bens faça de nós ricos.

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