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George Estabrook, uma parábola sobre Portugal

por henrique pereira dos santos, em 21.02.20

Uma colega mandou-me este artigo, sabendo que eu tenho um grande fascínio por George Estabrook.

Nunca conheci Estabrook, mas depois de Carlos Aguiar me ter indicado os seus artigos como leituras úteis para a mim, acabei a mandar-lhe o meu primeiro livro, para lhe agradecer o que tinha aprendido com ele, sem ele saber.

Ao contrário do que é usual em Portugal, Estabrook respondeu-me e lembro-me de querer saber qualquer coisa sobre o que eu dizia dos sobreiros.

Quando fiz a minha tese de doutoramento, por simples curiosidade, a partir de casa e sem estar ligado a nenhuma instituição das que habitualmente dão acesso à literatura científica, Miguel Araújo disse-me que quando quisesse qualquer coisa sobre um artigo a que não tivesse acesso, que escrevesse ao primeiro autor. De maneira geral teria uma resposta porque os académicos gostam que se interessem pelo seu trabalho. Foi por isto que tive lata suficiente para ir ver onde trabalhava Estabrook e lhe mandei o livro, depois de ter verificado que nos Estados Unidos, e em boa parte do mundo, os académicos, mesmo quando são estrelas mediáticas mundiais, respondem a quem se lhes dirige, ao contrário do que se passa, geralmente, em Portugal.

Numa troca de meia dúzia de mails com Estabrook, disse-me que estaria a preparar uma colectâncea dos seus artigos sobre Portugal (penso que oito, mas o artigo que cito acima tem uma lista que deverá estar completa), embora dissesse que tinha dúvidas sobre se o conseguiria fazer porque lhe tinha sido diagnosticado um cancro e, eventualmente, não teria tempo para acabar essa tarefa.

Tirando Carlos Aguiar, que fala entusiasmadamente do trabalho de Estabrook, e mais um ou outro académico com quem se cruzou na Universidade de Coimbra, que ouvi dizer, com fastio, que sim, lembrava-se de o ter visto por lá, não tenho ideia de ouvir a academia portuguesa falar de Estabrook, pouco valorizado pela academia portuguesa, apesar da enorme originalidade e riqueza do trabalho que fez por gosto, quando estava em Portugal, onde tinha uma casa.

Citando o artigo que motiva este post:

Once, when a student interviewer back at UM kept asking him how he was planning to “help” the Portuguese by teaching them what he knew, he made clear who was learning from whom: “I don’t try to teach them anything. I try to learn from them what it is that they do that seems to have worked for the past many hundreds of years. And then I use modern ecological technology to try to understand why it works and how it works and to measure quantitatively the nutrients that are present in the plant and animal matter and in the crops that they produce and the soil that they manage and so on. … The purpose of this research is to learn from them what it is they do so that we, who are in many cases not getting it very right as we trash our soils and pollute our soils and pollute our crops, cover our farmland with other less appropriate structures; help us understand how this has been done in the past. I’m not there helping farmers at all. I’m there learning from farmers how they’ve managed to pull this off for the last 800 years (Y1)”. On so many levels, we have so much to learn from a professor at a world-prestigious university who was humble and open enough to learn scientific principles from the daily chores of uneducated mountain farmers in a small country across the ocean, and to mine deep truths from “cultural beliefs and practices that appear to be ‘old wives tales’”.

O que queria dizer, depois desta longa introdução, é que a displicência com que a academia portuguesa trata Estabrook, como se fosse um mero obscuro americano excêntrico, ou a displicência com que a sociedade trata, por exemplo, a gestão do fogo, esquecendo o conhecimento longamente acumulado dos "uneducated mountain farmers", em vez de aprender com Estabrook o valor desse conhecimento e os métodos para extrair dele lições para o futuro, é uma poderosa parábola sobre um país de doutores e pessoas importantes, que gastam rios de dinheiro em campanhas para ensinar o padre nosso ao cura e, no fim, culpa sempre factores externos pela sua pobreza e indigência intelectual.

Triste academia a nossa, tristes elites as nossas, triste incapacidade para ouvir e ver coisas diferentes e fazer delas coisas úteis para todos.



2 comentários

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De Luís Lavoura a 21.02.2020 às 14:47

Mas em outubro de 2017 houve uns uneducated mountain farmers que se lembraram de atear um fogo algures na serra da Estrela, perto do Sabugueiro, fogo esse que por pouco não acabava por engolir as vilas de Gouveia e Seia.
Sem imagem de perfil

De mew a 21.02.2020 às 17:55


Para se ensinar é preciso aprender. E é preciso fazer, executar, para se saber como será.
Ser-se Professor é, antes de mais, ser-se aprendiz.
Abraço

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