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Gente feliz com lágrimas

por João Távora, em 08.05.24

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O futebol tapa muita coisa, dizia-me um dia destes um familiar muito assisado. Nada mais verdadeiro, mais ainda quando a política em Portugal por estes dias anda tão rasteira, cheira tão mal que tresanda de oportunismos e malandrices - que se lixe a Pátria.

Em boa hora, é neste panorama deprimente que o Sporting se sagra campeão nacional. Uma estonteante alegria infantil que venho saboreando, aficionado que sou do futebol, sportinguista de corpo e alma, uma pertença que recebi de família, que ao longo da vida nem sempre foi leve. Talvez por isso nestas alturas usufrua o acontecimento com desmesurado e intenso prazer. Até um crónico derrotado como eu, sempre do lado minoritário da barricada, merece o sabor goloso duma vitória destas, mesmo no lado lúdico da vida -  é o que levamos daqui.

Um aspecto particularmente fascinante, mesmo que não seja exclusivo do futebol, mas que me agrada de sobremaneira, é a vertente colectiva desta apaixonante modalidade: uma equipa liderada com o espírito certo, atinge resultados muito superiores à soma dos seus elementos. O espírito de grupo, a solidariedade e complementaridade entre os elementos, cada um fundamental para a dinâmica e motivação em vista. Repare-se como a retirada de um elemento num determinado confronto, se  momentaneamente fragiliza a prestação, o restante grupo, se coeso e bem liderado, supera-se em solidariedade e empenho. Se alguém cai, logo outro o levanta ou substitui na função. É isso que de mais belo a humanidade consegue ser. Fazer. 

Assim aconteceu com o meu Sporting esta temporada, com exibições de encher o olho, entusiasmantes de alegria e nota artística. Um sinal de que o fado não é uma fatalidade. E que, pelo menos na bola, os meus por uma vez dão a volta ao texto, dão a volta à História, viram o jogo e ocupam o lado de cima, sobem ao céu. Contra ninguém.

Os Sportinguistas têm a oportunidade de, de uma vez por todas, adoptar o discurso pouco trágico dos vencedores, um sítio gostoso de olhar o Mundo e expulsar o estigma da modéstia e da derrota, da vitória moral, do caminho de morte, sintoma de fim. De deixarmos de justificar as derrotas com as nossas virtudes morais, uma narrativa enganosa, do receio da felicidade, da luz do sol encadeante, que ilumina o gosto pelo sucesso, a recompensa pelo esforço.

O futebol tapa muita coisa mas também desvenda muita coisa. O sucesso é uma coisa boa, aliada à virtude, à luminosidade, à verdade. A vitória do Sporting neste campeonato, jogado às claras, sem equívocos ou batotas, com público nas bancadas e com competições europeias é um verdadeiro consolo. Uma vitória que, propositadamente não atribuo a nenhum protagonista especial, porque é uma vitória de grupo, de equipa, de conjunto, de uma cultura, de uma comunidade. Em que todos os protagonistas, do adepto ao roupeiro, da bancada ao camarote ou à equipa técnica, do guarda-redes ao ponta de lança, todos foram fundamentais. Talvez a fechar uma página da nossa história, um fado de gerações.

Viram bem as faces felizes, os sorrisos francos, as lágrimas de felicidade, que correram por esse Portugal inteiro, a desaguar na rotunda no Domingo? E se Portugal todo se pudesse inspirar neste fenómeno?

Publicado originalmente aqui


9 comentários

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De balio a 08.05.2024 às 16:53


as faces felizes, os sorrisos francos, as lágrimas de felicidade, que correram por esse Portugal inteiro, a desaguar na rotunda no Domingo?



Pois. Infelizes as pessoas, incluindo crianças de escola, que moram perto da Rotunda, como é o meu caso, e que na noite de domingo para segunda não puderam pregar olho até às três da manhã (se por acaso tivessem adormecido antes disso, teriam sido acordadas às duas e meia por violentíssimas explosões, talvez de fogo de artifício), sendo que de manhã tiveram que se levantar às sete ou oito horas para ir trabalhar.



Toda esta violação da lei (do Ruído) levada a cabo com a conivente colaboração do município de Lisboa e do distinto edil Carlos Moedas, para quem a lei pelos vistos é um pedaço de papel com que se limpa o olho de trás.
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De João Távora a 08.05.2024 às 17:31

Não tenho a desdita de o conhecer, mas o que mais me espanta em si é não tentar disfarçar como o seu pensamento é reles. Dá próxima vez que vier com um comentário deste jaez, não passa da porta.
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De Anonimus a 08.05.2024 às 21:55

Apoiado, balio.
Digo o mesmo em todas as Queimas das Fitas, festas de Ano Novo, e concertos ao ar livre.
Caluda.
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De lucklucky a 09.05.2024 às 08:19

E os protestos activistas , mais o 25 de Abril que toma conta da Avenida da Liberdade etc etc..Tudo isto o balio está contra... ups suspeito que não.
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De balio a 09.05.2024 às 09:45


Só falo daquilo que sei que se passou, porque foi perto de minha casa e deu para ouvir.
Não digo que não haja outros desmandos por este país fora, aliás, sei bem que há.
Mas nenhuns outros desmandos podem justificar este. E a lei é para se aplicar. Não é para ter exceções, à discrição dos manda-chuvas locais, e a custos da população que fica sem poder dormir.
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De Júlio Sebastião a 09.05.2024 às 10:45

"crianças de escola, que moram perto da Rotunda, como é o meu caso"



Finalmente está explicado o lavourocentrismo.
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De Anonimus a 08.05.2024 às 17:12

Ate que enfim um post de jeito :D
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De cela.e.sela a 09.05.2024 às 10:16

« a bola é quinstrói
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De Maria Soares a 09.05.2024 às 17:59

Quando são os festejos do SLB o senhor não se deve amofinar. Terá alergia ao verde, talvez. Também lhe devem fazer mossa o crescimento da relva nos jardins. As folhas nos caules. Quer dizer, a... do Marquês. Da Rotunda e arredores...  Saudações leoninas!

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