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Fundão e Odemira

por henrique pereira dos santos, em 17.07.22

No Sábado à noite, no Expresso da Meia Noite, na SIC, quando fiz uma tentativa de usar o argumento (que correu mal do ponto de vista de comunicação) de que quando temos economia temos problemas e soluções, e quando não temos economia, ficamos só com os problemas, dei o exemplo de Odemira.

O que pretendia era dar o exemplo de Odemira e do Alojamento Local (de que não cheguei a falar) como exemplos em que actividades lucrativas tinham contrariado tendências persistentes que frequentemente se diz que só poderiam ser contrariadas pela intervenção directa do Estado (longos anos andou o Estado com programas de recuperação dos bairros históricos para o alojamento local resolver num instante grande parte do problema).

Estupidamente, da minha parte, não percebi que isso rapidamente seria afogado na demagogia do costume, sobre as crianças que não podem ir à escola (nem sei a que dizia respeito essa conversa das crianças que não podem ir à escola) e em contra-exemplos da treta, como contrapor o bom exemplo do Fundão ao mau exemplo de Odemira.

Ir buscar o bom exemplo do Fundão para contrapor ao mau exemplo de Odemira é extraordinário porque os modelos de negócio são semelhantes: produtos de elevada diferenciação que são potenciados por gestão intensiva do território, com grandes introduções de energia (como na preparação do terreno dos cerejais), com diminuição da diversidade (utilização de muito poucas espécies e técnicas de controlo das espécies que possam diminuir a produção final), utilização de mão de obra pouco qualificada proveniente de localizações longínquas e, na medida do possível, regadio.

O resultado final no Fundão é a diminuição de população em cerca de 2500 pessoas na última década, estando o número de habitantes ao nível de meados do século XIX, e em Odemira (por isso usei o exemplo), estamos perante um dos poucos, e o único não urbano (se não me engano, não fui verificar agora se há mais um ou dois mas tenho ideia que não), em que a população na última década cresceu.

Cresceu apenas porque os efeitos das alterações tecnológicas, de gestão e de mercados dos produtos base das duas economias criam mais valor no caso de Odemira que no caso do Fundão, e portanto atingiram dimensão suficiente para contrariar as tendências profundas de perda de valor da generalidade das actividades de produção agrícola, florestal e pecuária, ao contrário do que acontece no Fundão, em que essa dimensão apenas permitiu atenuar as tendências profundas de perda de valor global das actividades que gerem território.

O extraordinário não é que a discussão tenha tomado o rumo que lhe imprimiu a demagogia (já tenho idade suficiente para ter aprendido a antecipar este tipo de situações, mas sou socialmente muito incompetente), o extraordinário é a facilidade com que a mera racionalidade pode ser retirada de uma discussão com base na mera omissão de dados concretos e na invocação de argumentos de elevado conteúdo emocional, sem nenhum valor para o que está em discussão, como a conversa fantasiosa das crianças que não podem ir à escola.

Que isto seja permanentemente feito pelas elites mais qualificadas do país para evitar que os factos influenciem as suas ideias, parece-me uma das boas razões para continuarmos a desenhar políticas públicas que partem do princípio de que há acções de longo prazo que podem ser sustentáveis sem uma econimia que gere os recursos para as financiar.



12 comentários

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De entulho a 17.07.2022 às 09:40

anda a pregar no deserto ou a espetar pregos na areia.
o lixo humano tomou conta da barraca com labaredas em chamas
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De passante a 17.07.2022 às 11:07

Há uma escola de combate verbal com mais de vinte e cinco séculos, já antes do chato do Sócrates (o da Xantipa, não o da Fernanda).


Os jovens videirinhos pagavam bem a sofistas profissionais para lhes ensinarem golpes e contragolpes, ataque, defesa, sustento, rasteira, estocada, "coup de grace".


O glossário de termos de retórica na wikipedia inglesa tem centenas de items. Se no ensino liceal cá se falar em analogia e metonímia estamos com sorte.


Massacre dos inocentes.
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De anónimo a 17.07.2022 às 12:55


Por um lado gostar, ter mesmo interesse, em ouvir as palavras de HPdS.
Por outro não ter paciência para ouvir um entrevistador a interromper sem contexto ou um diletante supinamente ignorante. Haja Deus.
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De Anónimo a 17.07.2022 às 13:21

É o que irrita nestes programas. Estamos á espera de  debates e confrontos, que nos parecem  interessantes e que nos levam a conclusões e esclarecimentos. Mas os moderadores travam sempre, cheios de pressa, as exposições dos convidados. Como se fossem eles próprios as vedetas que nos interessassem ouvir. Passam de um convidado ao outro, sem a previa palavra de introdução. Malcriadamente.- "Peço-lhe que sintetize, pois o tempo está no limite!". E é isto o que fixamos das entrevistas, nos programas semanais, que delicadamente nos prestamos a assistir. Ficamos na mesma...
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De Anónimo a 17.07.2022 às 13:41

Só são "elites" enquanto conseguirem que muita gente acredite que as ideias deles se sobrepõem aos factos.
E há sempre imensa gente disponível para acreditar, por todas e mais algumas razões, desde a ignorância total à recusa em pensar o mínimo.
Quando muitos percebessem que os factos são o que são e as ideias deles não resolviam nenhum deixavam óbviamente de ser "elites".
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De Anónimo a 18.07.2022 às 08:12

Henrique, tem toda a razão no que disse, os argumentos que os outros utilizaram contra si, são pura demagogia
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De Ricardo Miguel Sebastião a 18.07.2022 às 10:32

Ainda há um ano ou 2 passei um fds no Fundão e dei uns passeios pelo centro e aquilo parecia uma cidade fantasma do velho Oeste, as lojas fechadas nas ruas do centro sucediam-se até onde a vista alcançava...
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De Terry Malloy a 19.07.2022 às 10:51


Não vi o programa (não vejo, nem vou procurar ver o do último sábado).


Mas, se me permite, o erro foi logo ter aceite participar.


Há ringues em que nunca se entra.


"Nunca discutas com um idiota. Ele vai arrastar-te para o seu nível e depois ganha-te com a experiência".


Mark Twain
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De pitosga a 23.07.2022 às 11:16

Walter Winchell (1897–1972), judeu, jornalista americano: Nunca respondas a provocações idiotas. O meu pai sempre me disse: «Nunca te atires à lama a lutar com um porco — primeiro, porque te sujas; segundo, porque é disso que o porco gosta»

Cumprimenta

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De Paulo Alexandre Barata Dias a 20.07.2022 às 14:24

Olá, Fui um dos felizardos que assisti ao programa que refere e dei conta de como foi "tratado" numa discussão que se pretendia o mais racional e científica possível...debalde! E que me cho ca verdadeiramente não é a tal "incapacidade" de ouvir argumentos e explicações de outros, mas a barragem de fogo (uiii, a imagem não é feliz...) a que estes ficam sugeitos, com interrupções, trejeitos, franzir de sobrolhos, expressões de enfado logo captadas pela realização....e tudo isto "liderado" por uma expécie de moderadores (com muitas opiniões e mais tempo de antena que os convidados...) que deviam ser mais isentos e menos alinhados. E é por essas, e por outras, que temos um estado fraco, mas muito intrusivo, e uma sociedade cívil para o anémico...Quanto ao que defendeu, ficou claro para quem teve a paciência de assistir....
Um forte abr, Paulo Barata
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De Paulo Alexandre Barata Dias a 21.07.2022 às 11:23

As minhas desculpas pelos dislates gramaticais, "sugeitos" em vez de sujeitos, sem desculpa...O corta-fitas merecia bem melhor!
Abr, paulo Barata
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De Lowlander a 23.07.2022 às 00:15

Conseguir dar auto-golos num canal amigavel a causa grunha, foi de facto, notavel! O Q.I da direita inane portuguesa em todo o seu esplendor.
Apreciei o momento. E tenho a certeza que mais e melhor nao tardara!

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