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O título deste post era o essencial de um título do Dinheiro Vivo de 24 de Dezembro de 2012, notícia que dava conta de um comunicado do Expresso que dizia "errámos ao dar como adquirido que a informação que nos estava a ser prestada era fidedigna e não carecia de confirmação".
Este erro, que aliás não teve qualquer consequência para os que o cometeram, que se mantiveram na direcção do Expresso (sempre que um jornalista me fala da responsabilização dos decisores políticos, costumo dar este exemplo para perguntar qual é a autoridade moral do jornalismo português para pedir responsabilidades a terceiros pelos seus erros), é um erro muito frequente no jornalismo português, seja a propósito de coisas mais sérias, como a verificação da origem dos meios de fortuna de responsáveis políticos que se acredita que herdam fortunas misteriosas sem que ninguém se lembre de verificar os factos, até fait-divers como ter uma noção mínima de quem, e como, paga as contas do que é oferecido a jornalistas influentes, haja ou não envolvimento emocional nesses presentes caídos do Céu.
Lembrei-me disto a propósito das duas páginas de publicidade gratuita que o Público resolveu dar ao livro do falso especialista João Camargo e dos 15 minutos de tempo de antena que a RTP2 resolveu dar ao mesmo falso especialista ontem.
João Camargo é um burlão um pouco menos sofisticado e divertido que Artur Baptista Silva, mas o nível de mistificação que usa para vender a sua banha da cobra é o mesmo.
Daí não vem mal ao mundo e quem dá o que tem, a mais não é obrigado.
O que interessa é tentar perceber por que razão, e como, um simples burlão (em matéria de produção de opinião florestal, que é o que aqui está em causa, o resto não faço ideia) tem tanto acesso e espaço num jornalismo que deveria fazer a mínima das mínimas verificação de factos.
1) "O carácter invasor do eucalipto é óbvio", afirmação verificável e pelo menos controversa (há um enorme acordo científico em não o considerar como invasor, há um ou outro investigador que estudaram pouco o assunto que foge a esse acordo e há dois out três estudos sobre o assunto que demonstram que a capacidade de expansão natural do eucalipto é bastante menor que a do pinheiro, por exemplo, portanto estamos conversados sobre esta frase que justifica uma série de disparates consequentes sobre a gestão do eucalipto);
2) "O eucalipto tornou-se maldito, principalmente para o interior do país", basta olhar para qualquer mapa de distribuição do eucalipto, ou dar uma volta de carro, ou ter um mínimo de informação sobre o país para saber que o eucalipto está essencialmente no litoral, com entradas no vale do Tejo e na parte mais ocidental dos xistos centrais, o google images chega para perceber que esta afirmação é simplesmente falsa;
3) "O interior que foi ficando mais pobre por uma cultura de abandono que permitiu ao eucalipto tornar-se a espécie dominante da nossa floresta". Não é preciso saber muito sobre o país para saber que a expansão mais rápida do eucalipto se dá entre 1980 e 2000, e que o abandono rural se dá a partir do fim dos anos 50, portanto a afirmação feita não tem qualquer aderência aos factos. Acresce que essa expansão se dá, em grande medida, por substituição de pinheiro por eucalipto, o que fez o pinheiro diminuir de um milhão e duzentos mil hectares de ocupação para os 700 mil actuais, ou seja, a "narrativa" não passa de conversa de jacaré para pato, não tem qualquer relação com os factos;
Como isto ainda é só nos três primeiros minutos da entrevista, que dura quinze minutos, será escusado estar a comentar cada uma das muitas alarvidades que facilmente se desmontam se não se cometer o erro de "dar como adquirido que a informação que nos estava a ser prestada era fidedigna e não carecia de confirmação".
O que é estranho é que João Camargo não é especialista de floresta, não tem nenhuma formação sobre o assunto, nunca trabalhou no assunto, facilmente se demonstra que o que diz não tem pés nem cabeça, existem dezenas de especialistas no assunto que não só não corroboram o que diz, como acham que o diz não é apenas o atrevimento da ignorância, é mesmo desonestidade pura e dura, e qualquer pessoa que tenha um mínimo de contacto com o sector sabe que é assim.
Mesmo assim os nossos jornalistas acham normal permitir-lhe as duas páginas de pura maledicência que o Público publicou (sem verificar que parte do texto é uma cópia não assinalada de outro livro) e os 15 minutos de tempo de antena em que João Camargo usa uma técnica habitual para, por antecipação, se defender do facto de toda a gente que estuda os assuntos sobre os quais perora dizer que só diz disparates, argumentado que a academia está toda capturado pela indústria de celulose.
Ora esta acusação, a ser verdadeira, deveria ser levada a sério pelos jornalistas e, consequentemente, os jornalistas que gostam de ser embarretados por João Camargo deveriam estar a investigar seriamente a acusação, responsabilizando os académicos que falseiam as suas investigações a favor da indústria.
Mas se for falsa, como é, é simplesmente uma canalhice infantil igual à do menino que apanhado a roubar bolachas acusa o irmão mais novo de lhas ter dado e, nesse caso, é uma canalhice pelas quais os jornalistas embarretados são co-responsáveis, ao emprestar-lhe a credibilidade dos seus jornais e televisões.
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